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A DAMA DA BIBLIOTECA por Danka Maia



Karen sempre teve dois amores em sua vida: a leitura e a moda. Entretanto o baixo poder aquisito de seus pais, ela diarista e ele desempregado há mais de três anos, não podiam oferecer nem mesmo os livros que a menina tanto venerava. A biblioteca que Karen frequentava fechou porque o prédio fora interditado pela Defesa Civil de sua cidade. E o acervo tinha como nova casa a biblioteca vizinha, cerca de uns quatro quilômetros de residência. Numa conversa em tom implorativo aos pais, que consentiram que a garota de dezessete anos frequentasse o ambiente, uma vez que até uma vaga de assistente lhe fora oferecida, o que ajudaria nas despesas de casa.
 Karen dedicava-se de coração a nova oportunidade. O lugar era centenário, contudo um parque de diversões para ela.As  pessoas iam aos montes e adoravam a forma como a menina entendia e indicava boas leituras.
Com a bicicleta que ganhara em seu aniversário de quinze anos, pagas em infinitas prestações se locomovia para a grande e nobre oportunidade de produzir algo para o sustento da família e de seu sedento intelecto.
 Em uma manhã de sol e acelerada um jovem indo para faculdade a fechou no carro em pleno farol. Ela caiu, ele se foi. A Karen só restou levantar-se apanhar seu meio de locomoção e professar em frente, antes olhou o aglomerado do outro lado da rua, a curiosidade fora grande, entretanto a pressa e a responsabilidade em estar na hora certa no emprego eram mais importantes, e a jovem seguiu.
  Foi num fim de tarde a primeira vez que a menina a viu. Ela estava sentada ao fundo da biblioteca, numa área muito pouco iluminada e aonde praticamente ninguém ia, jamais. A senhora abrirá um livro muito antigo, escrevia algo nele também, porém o que realmente chamou atenção de Karen eram as roupas que a mulher usava.Um vestido antigo, não seria exagero descrever de outro século.Renda sofisticada, luvas,gola alta.Pensou consigo:
_Como alguém sai de casa vestida assim? Credo!
 O intrigante é que aquela senhora passaria desde então permanecer lá, todos os dias, no mesmo horário, as cinco e trinta e sete precisamente. E o pior, o movimento na biblioteca despencara sem explicações.
Karen a olhava quase aos berros. Chegou a deixar por vezes algumas revistas de moda como sugestão, talvez assim a consorte se tocasse.
  Mas houve um dia que a senhora levantou-se serenamente do canto como uma dama de fato, ajeitando o longo vestido, as luvas e veio caminhando ao seu encontro de um modo estranho, parecia levitar.
A menina se arrepiou da cabeça aos pés. O coração disparou enquanto seus olhos negros esbugalhavam frente à palidez do semblante da mulher que colocou as revistas de moda no balcão e encarou de um modo intimidante.
Restou a Karen desculpar-se:
_Mil perdões senhora, eu não quis...
A mulher a interrompeu fazendo um breve:_Psiu!- com o dedo indicador sobre os lábios. - As pessoas estão lendo, não os interrompa.
Contudo a biblioteca jazia pura, ninguém além delas estava a ali e então a adolescente retrucou:
_Mas senhora, não há mais nenhuma alma além de nós duas aqui!
Ela sorriu, e antes de dissipar-se na porta amaina replicou:
_Por isso mesmo querida, todos os outros estão vivos.

E se foi.


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6 comments:

Dulce Morais said...

Danka,

Como sempre, você sabe descrever aquela angústia, aquele sentimento que algo está errado sem que se saiba a razão.

Mais um conto interessante que nos deixa pensando: "O que teria eu feito se me acontecesse?".

Parabéns!

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Cris Campos said...

Ah Danka! Gostei demais! Fiquei um pouco sem entender como o cara do carro tinha tido destino pior que o dela, mas o final acabou por esclarecer isso.. rs. Olha, acho que essa Dama aí talvez seja aquela lá da avenida dando umas voltas pela literatura. Gostei muito! Gr. Bj.!

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Dani, fico lendo seus contos com o coração bem seguro nas mãos. Final surpreendente.

manuel marques Arroz said...

Narrativa e desenlace perfeito.

Beijo.

danka maia said...

Obrigada amigos,sempre tentando trazer o do suspense para nós.Beijocas!

Isa Lisboa said...

Também eu me arrepiei com esse final! Gostei, parabéns!

Isa Lisboa
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