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A FOTO DAS ALMAS por Danka Maia



  Letícia não sabia ao certo porque razão a mãe guardava a tal foto naquele antigo porta-retratos na parte superior da estante na sala que ninguém jamais ousava adentrar. A foto que agora pertencia sua mãe, era da mãe de sua mãe, e da mãe da mãe da sua mãe. Jazia em seu clã há gerações.
  Foi numa tarde de uma sexta-feira, depois que Aurora dissera que iria ao centro fazer algumas compras para dispensa da casa que Letícia sentiu que havia uma possibilidade de enfim deparar-se com aquela foto. No entanto, quando ia girar maçaneta foi abruptamente apanhada por sua mãe que esquecera a carteira e no rompante jogou a adolescente longe aos berros:
_Você enlouqueceu? Quantas vezes já  lhe falei que nesta sala ninguém além de mim deve entrar neste cômodo?- Aurora  tornara-se possessa.
_Por que não posso ver? O que tem de mais nessa tal foto? Porque tanto segredo?- Letícia também apetecia por respostas.
_Filha, me escuta... - segurando-a aflita pelos ombros. - Você tem que me prometer que em hipótese alguma chegará próximo um milímetro que seja da Foto Das Almas, compreendeu?
A menina viu o pavor nos olhos desesperados de sua mãe, e por ela concordou em dada ocasião.
   Passado alguns dias do episódio, a curiosidade envolvia cada vez mais e mais a mente da garota e cada que vez que refletia na tal foto e em seu nome no mínimo atormentador, A Foto Das  Almas, um ar frio e gélido percorria da nuca aos pés como um choque de eletricidade por toda extensão de seu corpo.Saindo mais cedo da escola, resolveu passar na casa da tia-avó Lucinda, ela seria a pessoa adequada para lhe sanar algumas daquelas incontáveis e intermináveis perguntas que haviam invadido sua mente, sua alma e roubado o seu sossego, apesar de sua mãe não gostar da tal tia e muito menos da ideia que Letícia a visitasse,isto sempre foi um segredo da menina. Este era um outro assunto proibido.
A senil vivia acamada, a idade e três AVC a atalhavam de sair dali com frequência.
_Tia... - Letícia sentou-se ao lado da cama serena.
_Minha criança, que bom ver seu rosto!-esboçando leve e debilitado riso.
_Tia, minha demora é pouca.Não tenho muito tempo,mas cri que talvez a senhora seja a única pessoa a quem posso recorrer uma vez que a mãe se nega terminantemente em dividir  comigo o segredo daquela foto na cômoda.A Foto Das Almas.
O rosto da tia transformou-se em receio, e de pronto rebateu a menina:
_Você nem deveria ao menos pronunciar este nome, é um maldito agouro!
_Tia Lucinda,ao menos me explique o fundamento da foto.Mais nada!- apeteceu Letícia segurando as mãos da tia.
Lucinda a fitou e depois de meditar por alguns minutos acatou.
_Contarei o que sei, porém jamais diga a Aurora que fui eu quem a falei sobre a foto. Promete?
A menina  respondeu sem titubear:
_Sim! Sim! Prometo pelo que houver de mais sacro!
_Há uma maldição que ronda nossa família. Há cerca de duzentos anos nasceu em nossa linhagem Amália Daflon. Ela era muito estranha, fazia com que coisas esquisitas acontecessem,umas boas, outras más, entende?
_Uma bruxa?-disparou Letícia afoita.
_Foi assim que a intitularam. Devidos alguns danos, dizem que até a morte de alguns familiares e conhecidos da época foram causados por ela e por isso  foi laçada no mato onde se refugiou e antes de ser enforcada lançou um terrível feitiço sobre as mulheres de nosso clã uma vez que as mesmas naquele tempo nada fizeram para defendê-la.
Os olhos da menina brilhavam enquanto um medo a incidiu.
_A maldição se dá a toda àquela que lançar o olhar sobre a foto.
_O que acontece?- ela precisava saber.
_Basta!- rogou a tia.
_Não, por favor, tia Lucinda. Conte-me, o que acontece?
_Ela aprisiona a alma da mulher e consegue continuar a viver.
Letícia arqueou as sobrancelhas, raciocinou e perguntou atônita:
_Senso assim... Ela ainda vive?
_Não sabemos. Ninguém sabe. Mas o que nos cabe fazer sua mãe tem feito como foi ensinado, manter numa sala isolada a maldita foto e não permitir que nenhuma das mulheres Daflon se aproximem dela sob nenhuma hipótese!
 A  garota despediu-se da tia com um beijo na testa e voltou para casa.No entanto, percebeu que estava sozinha, na geladeira um bilhete escrito:
"Não demoro, fui ao banco. Com amor,mamãe"
 Letícia entendeu que o destino lhe dera mais uma chance de por aquilo tudo em pratos limpos. Afinal, em pleno 2013, quem ainda acredita nessas coisas tão estapafúrdias como bestiais?
A curiosidade a moveu para a porta.
A maçaneta nunca fora tão fulgente aos seus olhos. Semelhava ouro.
O coração disparou.
E embora as gotas de suor fossem frias virou o puxador e adentrou no recinto com  força.
E ao ver a foto começou a rir.
 E o riso deu vazão a gargalhada.
Foram minutos gargalhando sem parar.
Até que um zumbido brotou em seu ouvido esquerdo como alguém que balbuciava algo incompreensível.
E foi ficando mais intenso, mais veemente. Uma aura fria atravessou o seu corpo e de repente o zumbido se fez entender e foi a última coisa que Letícia ouviu em vida:
_Obrigado por não escutar sua mãe!
    Dias depois do enterro da adolescente, o que Aurora mais temia ocorrera de novo, assim como com sua bisavó, a irmã de sua avó, a sobrinha de sua tia e agora com Letícia. Outra vez Lucinda sofrera outro AVC, no entanto, mais uma vez parecia jovem, forte, bela e milagrosamente de pé, feito que os médico jamais compreenderam diante de uma quadro  de alguém com quatro derrames e uma idade tão avançada, mas que para ela fazia muito sentido.




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3 comments:

Cris Campos said...

Danka,

Nada melhor para atiçar a curiosidade do que a proibição. Gostei muito da história! Gr. Bj.!

Isa Lisboa said...

Danka

Os seus contos têm sempre um final surpreendente, a terminar bem o suspense em que nos deixa!

abraço!

Isa Lisboa
=> Instantâneos a preto e branco
=> Os dias em que olho o Mundo
=> Pense fora da caixa
=> Tubo de ensaio

danka maia said...

Obrigado Cris Campos! Obrigado Isa Lisboa, que bom que esteja gostando!
Beijocas Literárias!

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