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Basta um sorriso

Este meu conto inédito e fictício retrata a história de homem que aprendeu a amar.
JGCosta

Clique na imagem para ver de onde ela veio!



Basta um sorriso

Visto por mim...

Eu creio que o fim da vida seja mesmo assim, tudo meio cinza, tudo meio sem graça.
Quando se chega aos 80, preso numa cama por 2 anos, sem poder contar com mais nenhuma daquelas pessoas que amamos, o que nos resta então?
Provavelmente somente fé, isso mesmo, para que o próximo estágio seja concebido como uma recompensa por tudo aquilo de bom que plantamos.
Quem me dera apenas que vegetasse e não pudesse compreender toda a minha situação, quem dera não somente o meu corpo fosse atacado por células cancerígenas, mas também todo o meu cérebro, quem dera o pensamento ainda não me transportasse para aqueles momentos que tentamos esquecer, quando a felicidade parecia estar tão presente...
Lembro de quando nasci, acreditem, lá dentro do útero de minha mãe. Lembro até antes, não me tomem por mentiroso, acreditem! Eu era lá um ponto de luz num espaço incrivelmente escuro, uma noite sem lua nem estrelas, imaginem, e lá estava eu, um pequeníssimo “nada” que agora tinha mais do que isso, tinha luz própria, tinha vida, de fato existia.
Essa minha primeira forma passou rapidamente para outra, creio que nesse instante, de uma maneira que não sei explicar, fui enviado para o lar acolhedor que me faria desenvolver como ser humano por longos 8 meses e 29 dias, nem um minuto a mais. Exatamente nos primeiros segundos de um novo dia eu dava o meu primeiro sinal de que tudo estava bem, através de um estrondoso berro. Lembro, acreditem, até das palavras do médico: “Nasceu um tenor!”
E o sorriso, ah se lembro, acreditem, nunca existiu um sorriso mais lindo do que o da minha mãe. Sabem , hoje posso dizer, bom, poderia se minha voz ainda existisse, que a definição de amor era o sorriso da minha mãe. Esse foi o meu primeiro estágio com a dona felicidade, esse foi o meu primeiro contato com a vida propriamente dita, faz 80 anos, mas eu me lembro...
Meu pai terreno não estava lá, somente O Celestial Me Abençoava. Ele já havia partido para o outro lado, pouco tempo antes da minha chegada, creio que ele já tinha compromissos mais importantes e inadiáveis, os quais não podemos escolher.
Mesmo sem pai cresci com sobra de carinho por todos os lados. Não me faltou amparo nos meus primeiros anos de vida, através da grande família que me cercava. Mas por uma incrível coincidência do destino, quanto mais meus anos aumentavam, mais as pessoas que me amavam partiam, rumo às suas prestações de conta pela passagem por esse mundo.
Foram partindo inexplicavelmente, um após o outro. Ao atingir 18 anos, perdi meu elo mais precioso nessa terra quando minha mãe, aquela do amor em forma de sorriso, teve sua partida também anunciada. Ela ficou por um tempo assim como eu estou hoje, preso numa cama de hospital. Suas últimas palavras ecoarão em minha alma para sempre: “Nos veremos no Paraíso.” Fechou seus olhinhos azuis e me deixou ali, com as lágrimas lavando o meu rosto. Ela sempre me ensinou que não devemos nos apegar a bens materiais, e o que de fato levamos na vida são nossas boas ações e todas as boas sementes que plantamos, cuidamos e colhemos. Eu sou literalmente a sua semente que cresceu e floresceu, agora precisava dar frutos.
Lembro como se fosse hoje quando encontrei pela primeira vez a segunda mãe importante e que fez parte da minha vida, aquela que me daria dois maravilhosos filhos, dos quais ainda me orgulho.
Chovia, era um fim de tarde, a escuridão trazia com ela um vento gelado do outono e eu de papo com um colega na calçada da feira de domingo. Ela veio lá, toda abarrotada de sacolas com legumes e verduras dos mais diversos tipos, quase tropeçando um pé no outro, não pude deixar de rir. O segundo estágio da felicidade eu encontrei ali, ao ajudá-la e ganhar de presente, acreditem, um sorriso tal o da minha mãe. Não preciso dizer que foi amor a primeira vista, nem precisei contar isso a ela, pois o leu em meus olhos. Lembro que ao ver em seu rosto o sorriso que eu já tinha amado tanto e que amaria para sempre, meu próprio sorriso se apagou e chorei. Ela me olhou preocupada e eu lhe disse tudo que precisava ser dito: “Seu sorriso já pertenceu à outra pessoa...”
Quando casamos ela levou consigo aquela sua qualidade de sorrir de tudo, de contaminar com alegria a todos que encontrava. Os filhos vieram e eu vou mentir se não disser que tive ciúmes do sorriso que eles ganharam, mas foi só por um imperceptível segundo. Não tive o prazer de contar com dois sorrisos no meu nascimento, mas eles tiveram isso de presente, sim, eles, dois lindos meninos gêmeos que tal o pai armaram um berreiro ao despertar para essa vida. Sim, diria o médico, mais dois belos tenores.
Eles cresceram e por muito tempo o terceiro estágio da felicidade permaneceu intocável. Essa fase da minha vida foi o maior presente que eu recebi do Pai, o qual serei eternamente grato e aproveito para pedir perdão pela minha ingratidão, nesse momento quando a mente me conduz novamente ao passado. É difícil aceitar que tudo que amamos seja pouco a pouco nos retirado, sem uma explicação aparentemente lógica.
Primeiro foi minha esposa de um infarto fulminante há mais de 30 anos atrás, sem um adeus. Depois um acidente de trânsito levou o meu filho mais velho, 1 minuto mais velho, quero dizer. Um motorista embriagado com um fusca desgovernado lhe tirou a vida numa fração de segundos.
Meu segundo filho viveu ainda um bom tempo, mas quis um câncer de esôfago que sua existência fosse interrompida. Lembro da sua última frase no meu ouvido, mais ou menos há 10 anos atrás: “Obrigado por ter sido o meu pai.”
Com ele o último sorriso que preencheu minha vida se foi, na verdade foram dois, pois o meu também foi com ele. Restou-me um semblante triste, de um antigo filho triste, agora um pai triste, numa alma triste. Findou o último estágio da felicidade, e iniciei a contagem que me levaria de volta para o início. Sim, é assim que eu vejo as coisas, por mais que a vida tenha insistido em me ensinar diferente: surgimos do nada e voltamos para o nada!
Isso não tem nada a ver com a minha fé em Deus, acredito Nele, confio Nele, O senti dentro do meu coração por todos os dias da minha existência e, acreditem, ele moveu soberanamente todos os meus passos e minhas ações. Mas acredito que essa nossa passagem seja uma mera formalidade, algo a se enfrentar. E o que de fato existir no “nada” antes e depois de nossa concepção é o que realmente importa. Afinal, quantas vezes não nos perguntamos que se o Criador criou a criatura, quem criou o Criador? Essa incógnita está descrita no “nada”, que os famosos cientistas descreveram em suas teses e eu interpreto assim: “Sabemos tudo a partir do nada!”
Creio que já vivi demais preso a esse mundo, quero agora retornar, me fazer luz, me ajoelhar defronte a um trono sagrado, me converter em pó, ou simplesmente desaparecer. Qualquer que seja a escolha, qualquer que seja o próximo passo, estou pronto, meu Bom Deus, meu Pai!

Sentido por mim...

Acreditem!
Eu tinha razão!
Agora estou eu sendo processado ao inverso...
Sinto cada partícula do meu corpo se desfazendo, sem dor alguma, e como numa explosão se espalhando para longe daquilo que definitivamente sou eu: um ponto de luz.
Nesse microscópico ser que me tornei, ou retornei, levo comigo toda uma história gravada, décadas de pensamentos juntados, emoções assimiladas, tudo que foi captado por mim, na alegria e na tristeza.
Sinto-me leve, ágil e principalmente em paz, vagando numa velocidade inimaginável rumo ao desconhecido. E quanto mais essa velocidade aumenta, não sei como, percebo que finalmente começo a desaparecer, ou simplesmente a me tornar invisível aos olhos comuns. Mas ainda vivo, um ser pensante e pulsante, agora sem forma, sem cor, mas incrivelmente cada vez mais vivo.
O que será que vou encontrar do outro lado? Será mesmo um “nada”? Ou tudo? Espero finalmente me alojar nos braços do Criador da criatura. Principalmente agora que uma sombra começa a baixar sobre meus sentidos, principalmente agora que tudo parece querer escurecer...
Não sei a que distância estou do meu destino, mas tenho ainda um desejo, em forma de pensamento, que deixarei gravado aqui nessa imensidão: “Basta encontrar um sorriso para que meu quarto, último e definitivo estágio da felicidade se inicie.”

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4 comments:

claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Um conto emociante, cheio de surpresas. Por um instante fiquei triste, mas depois, meu coração foi acalmando. Tenho plena convicção de que não foi apenas sorriso que ele encontrou, foram, no mínimo, 5. Até consegui ouvir a música entoada nesta ciranda.

João Menéres said...

Um abraço com a amizade do

João

Luísa said...

Um conto interiorizado e pensado na primeira pessoa!
Belo "sentimento de si"!
Mil beijinhos

JG Costa said...

Agradeço aos amigos pelos carinhosos comentários! Abraços renovados!

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