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Natureza Morta


─ Toma, aqui a tens. Nem sabes como foi difícil de conseguir isto. ─ Disse-lhe André estendo-lhe uma folha de papel, cuidadosa e discretamente.
─ Obrigado, ─ Respondeu Fernando agradecido e pegando na folha de papel, caminhou para casa.
Estava-se em 2112 e esta era, provavelmente, a única folha de papel existente no mundo todo. No último século, o mundo tinha mudado muito no decreto de uma ambição desmedida pelo poder político, originando de tal forma uma inconsciência assombrosa, perante a natureza, destruindo florestas, toda a vida animal e a maior parte dos recursos naturais. Agora, tudo era produzido em laboratório, tudo era artificial. A vida animal estava extinta, os mares secaram e as chuvas ácidas devastavam as florestas progressivamente. Era triste…
Atualmente, cada ser humano possuía um  capacete com oxigênio incorporado. Sem florestas não havia ar para se respirar e muito menos papel para se escrever. Estava-se na Era Digital, Era essa em que tudo era informatizado e onde a tecnologia era rainha.
Fernando, sentou-se à secretária e pegou na sua esferográfica, que já tinha pouca tinta e que também era a única que restava. Esta mal escrevia, a tinta já começara a secar. Então, ele escreveu na última folha de papel que restava no mundo uma pequena frase que ficaria para a posteridade, para gerações futuras. A última folha de papel após inscrita seria colocada dentro de uma cápsula do tempo que continha também, fotografias de um mundo que já não existia mais. As fotos continham imagens de céus azuis ensolarados, em praias idílicas com cenários paradisíacos...
“Natureza morta...”, assim escreveu Fernando no papel como mensagem de protesto e de desolação. Um grito mudo para mostrar o erro crasso e irresponsável que a humanidade cometera sem qualquer sombra de bom senso, ou sequer consciência destruindo o planeta azul. De seguida pegou na sua capsula do tempo e colocou a folha lá dentro, avançou para o quintal, onde alguns anos antes havia um jardim cheio de flores e árvores de frutos. Colocou a capsula do tempo aos pés do velho limoeiro seco que jazia sem vida e com uma lágrima caindo do seu rosto, abandonou aquele lugar que tantas alegrias no passado lhe trouxera, deixando-lhe agora apenas a nostalgia...
Olhou para o  céu cinzento e murmurou baixinho:
─ Quem sabe se um dia, os Homens tratam do mundo e voltamos a viver num planeta azul com natureza viva…
Cris Henriques
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6 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Tomara Deus que seu conto fique realmente na ficção, mas com a ganância que vem imperando em todos os setores de nossa sociedade, só resta-nos educarmos criticamente nossos alunos, talvez assim, quem sabe...

Excelente seu conto trabalharei em agosto com as turmas .

Cris Henriques said...

Olá Claudiane Ferreira de Souza da Silva!

Este conto foi escrito para uma blogagem colectiva, promovida pelo blog Café Entre Amigos em www.cafeentreamigos.com, criada por Patrícia Galis, cujo o tema era: "O QUE ESCREVERIA NA ÚLTIMA FOLHA EM BRANCO DO MUNDO" e está postado no meu blog.
Obviamente é ficção e faço votos para que não ocorra nada disto no nosso planeta.
Obrigada, espero continuar a agradar os amigos daqui do Tubo de Ensaio.

Obrigada.

Beijos

Dulce Morais said...

Cris,
Acredito que possa um dia acontecer tal situação. Temos tão pouca consciência do que já se tronou irreversível no nosso planeta... Já ultrapassámos tantos limites...
Gostei de ler-te!
Bjo!

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=> Tubo de Ensaio
=> MeNiNoSeMJuIz®

Isa Lisboa said...

Não é um cenário que não seja possível... E eu que não me imagino sem uma folha de papel e uma caneta!!
Gostei do seu conto, o tema é sempre pertinente e actual, e a forma como imaginou o conto está muito boa! Parabéns!

Isa Lisboa
=> Instantâneos a preto e branco
=> Os dias em que olho o Mundo
=> Pense fora da caixa
=> Tubo de ensaio

Carlos Moraes said...

Cris, é uma bela intenção...mas acho que restará apenas o sonho e as lembranças... bjs

Cris Henriques said...

Olá Carlos Moraes, Isa Lisboa e Dulce Morais,

Muito obrigada pelos vossos comentários.
Espero que este conto seja apenas ficção e nunca realidade.

Beijos a todos,

Cris Henriques

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