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A MORTE NO DIVÃ por Danka Maia





Ela sentou-se deprimida, cansada e muito abatida. Era a quinta paciente do Doutor Epitáfio naquela tarde ensolarada no mês de Março.O psiquiatra estranhou a palidez de sua pele,algo sobrecomum para uma pessoa.Olhou a ficha entregue pela secretária no entanto notou que o único dado que continha era no mínimo inusitado, estranhou ,sentou-se depois de pedir que se acomoda-se no divã e a questionou:
_Então, como posso ajuda-la, senhora...
_Morte. Sou a Dona Morte, Doutor Epitáfio.
O terapeuta sorriu discretamente, talvez intuísse que o caso era grave, porém não incomum, ali já passara diversas vezes Madonas,Elvis e até o próprio Cristo.
_E como se sente sendo a... Dona Morte?- investigou.
_Terrivelmente cansada. Não aguento mais tratar com esta situação.Estou exausta.Sou obrigada todos os dias a lidar com o último alguma coisa da vida.Sejam pessoas, sentimentos, fauna ou flora.O senhor já parou para pensar nisto: Tudo morre o tempo todo? E a culpa é sempre minha! É deverás stressante convencer, gente principalmente, que tem que largar o marido, a esposa, os filhos e o cartão de crédito, tem indivíduos que pedem para eu dar um minutinho para ir ao banheiro! O senhor acredita nisto? Para que ir ao banheiro se em seguida o sujeito vai morrer? Outro dia, um teve a pachorra de me perguntar se aceitava cartão de crédito para voltar no mês que vem! E mais, ao contrário do que se pensa quem mais tenta barganhar passagem ou prolongamento na fila de espera comigo não são só os ricos não. Tanto rico como pobre. O pobre quer que espere a loteria para saber se ganhou na megassena, o rico quer que aguarde para saber se os fundos de finanças dele vai dobrar na alta do dólar.Pelos Céus! Esse povo esqueceu o que significa morrer?
Epitáfio se espantou com a veemência de como a sua paciente descrevera toda a intensidade de sua psique.E achou melhor após ouvi-la por atraentes quarenta minutos,uma vez que suas delongas eram de fato interessantíssimas, receitar um calmante e explicou a função do medicamento.
_Quero que a senhora tome este medicamento por três dias.Ele permitirá que fique mais relaxada, e assim fazer o seu trabalho mais calma e de forma serena.
_E quando o turno for 48 por 12 horas? Faço o que Doutor?- sacudindo a receita na frente dele.
_Pode dobrar a medicação. O importante é que você se sinta feliz! Agora após esses três dias, quero que a senhora volte e assim poderemos rever melhor toda essa situação e avaliar de forma mais realista o que está lhe advindo.
_O senhor quer dizer que se tiver que lidar com aqueles casos mais bizarros. O senhor entende do que falo, suponho. É um homem bem informado, tem alguns casos que as pessoas simplesmente se negam e se negam, eu tenho que praticamente chamar o B.O.P.E para fazer o serviço porque sozinha não dou conta.È faca na caveira total!
Epitáfio caminho guiando até a porta e foi enfático:
_Quando esse caso lhe sobrevier, a senhora pode com certeza tomar mais um capsula, respirar e fazer o seu trabalho na santa paz.
_Ah... Muito obrigado, Douto Epitáfio! O senhor realmente é um dos melhores. Passar bem viu.
E lá se foi a Dona Morte. Cecília adentrou minutos depois no escritório e perguntou inocentemente:
_Doutor posso mandar a quinta paciente entrar?
E Epitáfio gelou.
_Mas... E a moça que estava comigo aqui nestes últimos quarenta minutos?
_Que moça Doutor?- Cecília replicou. - Percebi que o senhor conversava com alguém, entretanto como deu os quarenta e cinco minutos ninguém saiu e o senhor abriu a porta, entendi que podia avisar da quinta paciente.
O homem sorriu sem dar maiores explicações e atendeu a quinta, sexta e todas as demais pacientes do resto do dia. Por dias e meses aquela mulher ficou sim em sua mente, mas como bom médico atribuiu o fato para um mal entendido e nada mais.
Passaram-se quinze anos.Dia 16 de maio, duas e vinte seis da tarde.Epitáfio estava prestes a fechar o consultório,faltava apenas mais uma cliente.E quando esta rompeu pelo batente da porta seu olhar a reconheceu no mesmo instante, nada havia mudado em sua face.A não ser pelo fato de estava ávida, contente e disposta.
Ele emudeceu ela fez as honrarias.
_Doutor Epitáfio! Que saudade do senhor!
_Quanto tempo Dona...- Na esperança de que enfim soubesse seu nome.
_Dona Morte, quem mais seria Doutor?- rindo com um tapinha no ombro do médico.
Desbotado e afrouxando o nó da gravata,Epitáfio sentou-se.
_Se me recordo bem da última vez que esteve aqui, disse a senhora que voltasse três dias e se não me falha a memória isto não sucedeu.
_Sim.Mas o remédio que o senhor me receitou foi batata! Revitalizou-me. Foi como recuperar a alegria de viver, quer dizer, de matar outra vez. Estou plena desde então. O povo está morrendo como nunca aposentei até o B.O.P.E!
_Magnífico. - O homem sussurrou entre os dentes. - Nesse caso, o que a trás de novo ao meu consultório, quer levar alta?- gracejou.
_Não Doutor Epitáfio. É com muito pesar que tenho que lhe contar que dessa vez o meu serviço é o senhor. Está na hora de cantar para subir.O senhor já bateu na casa dos 80, viveu bem,deu umas boas gargalhadas,pulou umas cercas maneiras que eu sei.-gargalhando- Então agora o senhor vem comigo!- já o pegando pelo braço.
_Não!- Epitáfio protestou. - Não posso sair daqui assim não!
_E por quê?- Dona Morte assumidamente indagou pondo a mão na cintura.
_Porque...Porque...Porque preciso ver o casamento da minha neta Julinha.
_Doutor... O senhor já viu doze enterros de amigos e parentes, cinco casamentos, os três dos seus filhos e dois de seus netos, a Julinha é filha bastarda do safado do seu filho que emprenhou a menina lá de Olaria, a Julinha está com seis anos e o senhor vem falar que quer viver para ver o casamento dela? Está me tentando passar para trás Doutor?
_Veja Dona Morte, além do mais eu careço de tempo para passar minhas senhas para minha senhora e acertar faturas de alguns ...
Ela cruzou os braços completando a frase.
_Cartão de Crédito, senhor Epitáfio! Cartão de crédito! Tem certeza que vai mandar essa para mim, o Doutor esqueceu que fui eu quem lhe contei essa é?
_Pelo amor de Deus!
_Não bota o Homem no meio disso não, porque se o doutor facilitar e se trânsito daqui para cima não estiver na hora de pico vai dar para o senhor fazer um D.R com Ele hoje ainda. Ai vocês se acertam. Vamos embora?- O pegando pela lapela outra vez.
_Dona Morte! Não faça  isso!- Se segurando com toda força nas paredes.
No entanto a circunstância delicada a Dona Morte arregaçou as mangas do vestido, jogou os cabelos para trás e fez um olhar nada agradável.
_Se o Doutor prefere assim, do jeito mais complicado, assim será!
E foi neste instante que sacou do busto um vidro daquele medicamento tomou duas capsulas falando:
_Foi o senhor mandou para os casos difíceis lembra?
_Mas...

_O senhor disse: O importante é você ser feliz! Nesse caso, vamos embora Doutor.- carregando o pobre psiquiatra nas costas e indo para aquele lado que todos sabemos porém que ninguém quer ir.Afinal,vale a frase:Todo mundo quer ir para céu,mas ninguém quer morrer.

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4 comments:

Gilberto de Almeida said...

Me diverti muito lendo seu texto. Obrigado, Danka!

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Dani, espetacular. Semana que vem contarei ele nas escola.
Bjs.

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

na

Isa Lisboa said...

Muito bom, Danka, parabéns!

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