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As cartas escrevem-se pelas paredes

Tarde de sol a resvalar na superfície alheia,

as cartas se escrevem nas paredes

Cara Júlia,


...encontrei na manhã de hoje um livro, curiosamente, dentro dele havia esse pedaço de papel com o que acredito ser o seu e-mail. Eu quero que seja. A bem da verdade eu gostaria que fosse um endereço porque acho mais carinhoso uma folha de papel com palavras devidamente acomodada em um envelope. Mas como não há essa possibilidade, vou ao seu encontro por intermédio dos meios que tenho a disposição.
Demorei a escrever porque fiquei imaginando que tipo de pessoa debruçaria seus olhos em cima de um livro cujo título é esse olhar para dentro. É esse encontro consigo mesmo. Fiquei então a repetir aquele título brando, morno dentro das horas seguintes "as lembranças". Fiquei a imaginá-la, mas lhe asseguro que nada pensei além da beleza natural e lúdica que me confere aos olhos toda vez que vejo uma mulher segurando um livro, devorando suas linhas, alheias ao mundo e ao meu olhar. 
Seu livro me fez recordar a juventude. Dias inteiros na casa de meus avós para onde fui depois da morte de meus pais. Eu fui um rapaz sério – apagado. Eu tinha uma prima naqueles dias que era uma figura pequena, dócil. Curiosa. Ela vivia em outra cidade e só aparecia nas férias, mas eu a amava. Era meu contato com o mundo.
Lembro-me como se fosse hoje do dia em que encontrei um envelope em minha cama. Era ela - contando sua vida de menina em outra cidade. Tudo tão encantado, cheio de vida – algo tão diferente do que eu vivia ali naquela cidade pequena, acanhada onde tudo era conhecido por todos sem o advento da novidade. Eu nunca tinha escrito uma carta até aquele dia. Nunca tinha comprado um envelope e tão pouco tinha entrado numa agência dos correios. Passava em frente todos os dias porque era o meu caminho para a escola, mas era só.
Escrevi a carta em uma folha do meu caderno. Só queria responder a ela, dizendo qualquer coisa. Um punhado de palavras que só tinha por intuito agradecê-la por lembrar-se de mim – me sentia tão esquecido naqueles dias. Nos correspondemos durante anos e eu nunca disse a ela que naqueles dias ela era a única voz a saber-me. Ela nunca soube e nós dois nos perdemos. Ela cresceu e suas férias a levaram para outros lugares do mundo. As vezes eu recebia um ou outro postal, mas as cartas foram demorando a chegar até pararem completamente. Eu também deixei de escrever e hoje, confesso que gostaria de sabê-la. Tantas coisas aconteceram…
Perdoe-me por contar essa história a você, estranhamente – confesso, você me levou para dentro de mim, desse momento e sem saber me permitiu esse diálogo que pretendia ser diminuto – afinal, eu só gostaria de manifestar nessas linhas o meu desejo de devolver esse livro a você, então por favor, diga-me como proceder.


Abraços,
Rodolpho

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4 comments:

Dulce Morais said...

Lunna,
Antes de mais, seja muito bem-vinda ao Tubo de Ensaio!
É uma grande felicidade contar com a sua presença!

A sua primeira publicação é muito interessante: um acaso, uma tentativa, uma confissão, um pedido... tudo envolvido em palavras bem escolhidas e muito, muito interessantes a sentir...
Parabéns!

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Isa Lisboa said...

Lunna,

Também lhe dou as boas vindas ao Tubo de Ensaio! Fico muito feliz que tenha vindo juntar-se a nós!

Gostei muito desta sua primeira missiva, ao ler imagino Rodolpho a escrever esta missiva, bem como aquela sua primeira carta. Fiquei com vontade de conhecer mais de Júlia e Rodolpho! Parabéns!

Isa Lisboa
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=> Pense fora da caixa

danka maia said...

Seja Bem Vinda Lunna! Amei sua postagem!

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Lunna, a medida que lia tantos sentimentos bons me acompanharam ...
Grata !

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