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Depois das Ruas - Capítulo 7 - Pesadelo

VII - Pesadelo


      A luminosidade intensa parecia transpor as pálpebras cerradas de um Pedro Nascimento entorpecido pelos acontecimentos intensos que acabara de vivenciar. Sentia o impulso de abrir os olhos, apesar da claridade exagerada. Ao descerrá-los brevemente, no entanto, um foco de luz de alta potência, direcionado frontalmente para si, o fez contrair as pálpebras com força, fugindo do brilho insuportável!

      Alguém deve ter percebido essa reação porque, quase imediatamente fez-se ouvir uma voz irritada no recinto:

      - Acorda vagabundo!

      A voz enérgica, um hálito etílico e a autoridade violenta daquelas palavras injetaram uma sobrecarga de adrenalina na circulação do garoto que se viu, intempestivamente, despertado de um devaneio inexplicável para a infame realidade de um recinto prisional:

      - Está pensando que pode vandalizar o que é dos outros e sair na mamata, seu fedelho? Nada disso! Não na minha praia! Vagabundo nesta delegacia não tem vez! Me diz aí, ô imbecil, quem são os outros marginais? - E Pedro sentiu uma forte bofetada estalar-lhe o rosto enquanto tentava abrir os olhos, apesar da incidência do foco de luz ofuscante diretamente sobre suas pupilas dilatadas. A cadeira em que estava algemado balançou com a força brutal da pancada! Sentiu quando uma gota cálida de sangue escorria de seu supercílio direito!

      - Que dia é hoje? O que é isso? O que está acontecendo? - Perguntou o rapaz, atordoado, ainda sem atinar com a realidade e com a gravidade da situação.

      - Que dia é hoje? Tá pensando o quê, moleque? Quem faz as perguntas aqui sou eu! Mas vou te dar uma dica: você tá na delagacia - ou no inferno, se preferirr - seu vandalozinho desgraçado! E o que está acontecendo é que você está sozinho porque os teus camaradas fugiram e te deixaram pra trás pra apanhar no lugar deles! E pode acreditar que sou muito bom em descer o cacete em criminosozinho fdp! Ou você me fala quem são seus camaradas e onde é que eu vou encontrá-los, ou tu tá ferrado, pirralho!

      O novo golpe foi tão forte que derrubou o rapaz ao chão, junto com a cadeira à qual estava agrilhoado. Um impacto da parte lateral de sua cabeça diretamente sobre o solo provocou o primeiro desfalecimento do jovem impotente durante aquela angustiosa sessão que invadiu a madrugada do dia vinte e cinco para o dia vinte e seis de junho de dois mil e treze.

      Neste ponto, um pouco porque em nada me compraz detalhar os fatos dolorosos ocorridos na delegacia durante aquela madrugada, um pouco para poupar a sua sensibilidade à descrição de pormenores degradantes, deixarei por conta da sua imaginação, leitor, se assim o desejar, a sequência dos acontecimentos que se sucederam até um  momento um pouco menos desumano desta narrativa. Daremos então, para não correr o risco de nos aprofundarmos nesses confins sombrios da sordidez humana, um salto de aproximadamente quinze dias a partir daquela madrugada deprimente.

      Nessa data vamos encontrar nosso protagonista em estado comatoso, num leito da ala de neurologia de um grande hospital público da capital paulista, o corpo repleto de hematomas, com a cabeça circundada por ataduras e uma das pernas elevada por um dispositivo ortopédico de tração!  Dessa perna, também envolvida por compressas cirúrgicas, pronunciavam-se hastes metálicas unidas a vários dispositivos de fixação externos. Nosso personagem fora submetido a um procedimento ortopédico e a uma neurocirurgia devido a fratura craniana e hemorragia subdural. Após este último e delicado procedimento, permanecera inconsciente. Era dolorosa a visão que se tinha do adolescente vibrante de dias antes, nesse estado fragilizado!

      Outros desdobramentos graves, porém de menor interesse para nossa narrativa, também tiveram lugar nesse intervalo, entre eles, apenas para melhor situar o leitor, é conveniente observar que se deu uma sofrida movimentação dos pais de nosso protagonista, aflitos e desamparados, junto à justiça e a órgãos públicos indiferentes, com o objetivo de localizar o filho desaparecido. Depois de o localizarem, absolutamente inconformados com a enorme afronta sofrida pelo rapaz, os pais de Pedro, com os corações marcados pela dor e desprovidos de posição social e de dinheiro, não se consideravam em condições materiais ou emocionais de tomar as medidas imagináveis contra o poder público vigente, consumidos que estavam diante de seu delicado estado de saúde.

      Mas o salto em nossa história, nos leva a um momento específico, aproximadamente às nove horas da manhã do dia quatorze de julho de dois mil e treze quando, contrariando os prognósticos médicos imediatos e para surpresa de todos, diante de pequeno grupo familiar, constituído por seu pai, sua mãe e uma tia, Pedro, como se simplesmente despertasse de um sono, abriu totalmente os olhos e reclamou:

      - Tenho sede...

      O alvoroço foi geral! Até então, nos raros momentos em que, de seu estado de inconsciência, os acompanhantes o tinham ouvido murmurar o que quer que fosse, nada mais se tinha escutado se não delírios envolvendo paisagens do futuro, incluindo tanto paisagens belíssimas quanto cenas calamitosas. O garoto, em seu estado sonambúlico e inconsciente, balbuciara palavras ininteligíveis a respeito de tecnologias desconhecidas, tivera alucinações com sociedades avançadíssimas  e clamara insistentemente pela presença de uma figura luminosa, uma espécie de anjo, onipresente em seu conturbado estado mental.


      Mas, para a alegria dos presentes, agora, pela primeira vez, Pedro parecia lúcido... e tinha sede!

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Próximo Capítulo -> Capítulo 8 - E Depois das Ruas?


Gilberto de Almeida
09/08/2013


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6 comments:

Dulce Morais said...

Gilberto,
Desde que percebi onde se situava Pedro nos capítulos anteriores, aguardava o momento em que regressaria ao passado e preocupava-me com aquele joelho...
Agora sei, e agradeço o autor de nos ter poupado os detalhes que o levaram àquela cama, mesmo se não posso deixar de imaginar.
Como sempre, fico impaciente pelo desfecho deste conto!
Parabéns pela sua narrativa, Gilberto!

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Gilberto de Almeida said...

Obrigado, Dulce. Acho que a imaginação do leitor, em várias circunstâncias, conta melhor a história do que eu próprio poderia fazer. Além de que, de fato, não me agradaria ter que fazer a narrativa que omiti nesse caso, instigar a imaginação e a reflexão por parte do leitor é algo que sempre busco. Tanto na prosa, quanto nos poemas. :D

danka maia said...

Excelente conto Gilberto.Muito bom,esperando os mais...Parabéns!

Gilberto de Almeida said...

Muito obrigado, Danka! Espero que agrade no final. Um abraço!

Isa Lisboa said...

Aguardando também o final!
Um abraço

Gilberto de Almeida said...

Obrigado, Isa! Está saindo do forno...

Um abraço!

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