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Depois das Ruas - Capítulo 8 - E Depois das Ruas?

VIII - E Depois das Ruas?

      Pedro realmente despertara sedento... E totalmente desnorteado. A princípio, quase despencou do leito ao tentar levantar-se de supetão, sem se dar conta de estar atado a um complicado aparato ortopédico.  Esse pequeno susto foi como um gatilho a trazer o jovem de volta para os domínios da realidade e disparar a exibição vigorosa de uma retrospectiva nos painéis atordoados de sua mente superexcitada. Em um minuto, o adolescente assimilou por completo os detalhes possíveis de sua situação. Seu cérebro jovem e dinâmico traçava alternativas para explicar a si mesmo os fatos incríveis de que se rememorava. Ávido por preencher as lacunas de suas memórias, inclusive referentes ao período durante o qual estivera desacordado, mas, ao mesmo tempo, extasiado pela alegria de contemplar as carinhosas figuras de seus pais no instante exato de seu abrir de olhos, Pedro acabou por protagonizar com seus parentes uma verdadeira efusão de esforços de comunicação e demonstrações de afeto desencontradas, digna dos habitantes de Babel. Enquanto a tia esbaforida procurava apressadamente encher um copo descartável com água para amenizar a sede do menino, correndo para isso à pequena geladeira do apartamento hospitalar, os pais se debruçavam sobre o garoto de maneira intempestiva, entre alegria e lágrimas, palavras de surpresa e de gratidão, entremeadas por inúmeras perguntas e por ansiosos gestos de afeto! Ao mesmo tempo, o jovem também fazia suas múltiplas perguntas, sem esperar pelas respostas, enquanto abraçava os queridos genitores entre exclamações de júbilo! Quando a tia, apressada, retornou em meio a beijos e abraços, o primeiro copo d’água não teve outro destino senão a previsível trajetória de queda até o lençol da cama do convalescente, onde se entornou, transformando aquela cena num espetáculo ainda mais espalhafatoso. De fato, foram necessários vários minutos para que alguma tranquilidade se estabelecesse no recinto e Pedro saciasse sua sede, ou parte dela. Passados esses minutos, a sede do jovem convalescente começaria a mudar de foco!

      Na próxima hora ou duas, os parentes colocaram nosso protagonista a par do quanto haviam podido apurar sobre a sua trajetória, desde a noite na Avenida Paulista até aquela manhã no hospital. As informações não eram muitas e as lembranças do garoto frequentemente pareciam não ajudar. O episódio do martírio na delegacia assumia contornos de acontecimento fadado a transformar-se num mistério irresoluto; a não ser por lampejos muito breves, mais semelhantes a terríveis pesadelos, a maior parte dos fatos ocorridos naquela madrugada mostrava ter se esvanecido da memória do garoto, numa demonstração divina de misericordiosa amnésia. No entanto, apesar da felicidade de estar na companhia dos pais e da curiosidade a respeito de tudo quanto lhe acontecera, o estado de saúde do rapaz era precário. Breve, todos reconheceram estar ele exausto e necessitar de um pouco de silêncio. Ninguém, contudo, queria ver o adolescente adormecer novamente, temerosos de vê-lo retornar ao estado comatoso. Decidiu-se, portanto: o pai vasculharia a enfermaria, para providenciar imediata avaliação médica, a querida tia aguardaria no corredor e apenas a mãe lhe faria companhia até o comparecimento do plantonista daquele turno...

      E assim, agora desperto, porém com maior tranquilidade interior, uma vez passados os momentos de euforia inicial e enquanto sua mão direita era afagada pelas mãos carinhosas da querida mãe, o jovem pôde, no silêncio do seu fatigado recolhimento, dar vazão às conjecturas sobre o que lhe teria ocorrido no dia seguinte à manifestação na Avenida Paulista. Buscou, em reminiscências de poucos anos atrás, as palavras de um amigo de ascendência indiana a respeito de certo estado de êxtase, a que os mestres espirituais do oriente conseguiam chegar através da meditação e, no qual, o presente, o passado e o futuro se misturavam. Na ocasião, ficara impressionado com tal possibilidade, mas nada mais! Nenhum outro interesse tivera na questão. Agora, tendo passado por aquela experiência estranhíssima, já não achava coisa alguma impossível. Apesar disso, a presença indubitável do mundo real a sua volta, das dores vivas pelo corpo, o clamor de uma realidade muitíssimo material e incontestável, o convidavam a uma justificativa mais racional para os fatos peculiaríssimos em sua memória, que a hipótese de um transe exotérico inexplicável.

      E assim, pouco a pouco, revendo mentalmente cada situação vivida naquele dia surreal em companhia de seu duplo-ego do futuro, foi se convencendo da hipótese mais plausível de haver sonhado com toda aquela intrincada trama, enquanto se mantinha desacordado, após haver recebido uma pancada violenta na cabeça... Essa hipótese era mais racional, mas em seu íntimo o jovem resistia a ela...

      Estava Pedro absorto nesses pensamentos quando adentrou o quarto a enfermeira de plantão:

      - Maravilha! – exclamou – Nosso jovem adormecido está de volta! Que ótimo!

      E assim dizendo, pediu licença para a mãe carinhosa para refazer o curativo existente sobre a cicatriz cirúrgica na perna do rapaz. A mãe, prontamente, foi juntar-se, no corredor, à tia do adolescente, esta já em conversação amistosa e entusiasmada com uma senhora que viera, acompanhada da filhinha, visitar um parente internado no mesmo andar. Logo se verificou que a tal senhora, por incrível coincidência, residia a apenas duas quadras da moradia da Sra. Nascimento e de sua família. Em minutos, as três madames já se entrosavam perfeitamente e trocavam telefones prometendo estreitar a nova amizade.  A afinidade se dava tão naturalmente e os assuntos atraíam de tal maneira sua atenção que a pequena demora do pai do garoto, ausente, na busca ao médico plantonista, foi ignorada temporariamente.

      No quarto do menino, enquanto isso, a enfermeira desfazia o curativo em sua perna direita, antes de trocá-lo por um novo. A cabeça do rapaz, que se submetia ao procedimento com desinteresse, ainda perambulava pelo terreno da dúvida em relação a suas lembranças extraordinárias. Teria realmente sido um sonho? Toda sua experiência tinha sido muito viva e real... Teria sido uma alucinação? Talvez isso! Agora eram três possibilidades: sonho, experiência transcendental ou alucinação! Que fazer com tudo isso?

      - Talvez vá doer um pouco! – A voz da enfermeira, a segurar uma almotolia, prestes a derramar sobre o ferimento um líquido de cor escura, arrebatou-o de seus pensamentos. Foi então que Pedro, agora sem as ataduras e bandagens, pôde ver pela primeira vez a cicatriz cirúrgica, entre cinco a dez centímetros de extensão, logo abaixo do joelho direito, sobre a face lateral de sua tíbia... Era a cicatriz restante! O rapaz paralisou! Meu Deus! Aquilo era real! A única cicatriz que o velhinho do futuro possuía e ele, Pedro, não! Agora já não havia nenhuma diferença...

      Foi assim que Pedro, na fração de segundo decorrida entre o momento em que vislumbrou sua cicatriz e o instante seguinte, quando a enfermeira derramaria o antisséptico sobre sua tíbia, descobriu a verdadeira natureza da sua sede! Agora ele tinha sede de mudança! Tinha sede de construção! Pedro iria se empenhar na tarefa de construir um país melhor, de redefinir o conceito de democracia. E ali, aparentemente incapaz, restrito a um leito hospitalar, foi que seu pensamento vibrante, pela primeira vez, antecipou planos para o futuro, desenhando cenários, calculando hipóteses numa vertiginosa maratona intelectual. Pedro começava a se perceber como um revolucionário... A citação do venerável cicerone do futuro lhe tomava o Ser e pulsava fortemente em suas artérias, dominando-lhe completamente o pensamento:

      “- Não há mais nada capaz de justificar o voto indireto, sob qualquer ponto de vista! A tecnologia de hoje permite ao cidadão representar-se a si mesmo! Isso elimina as terríveis distorções da representatividade indireta!”

      A partir daquele momento, esse aforisma seria seu lema!

      ...

      A enfermeira derramou o antisséptico sobre a ferida cirúrgica no instante exato em que o pai do rapaz chegava ao corredor em companhia do médico plantonista. A Senhora Nascimento fez questão de apresentar a nova amiga. Nesse momento, do quarto vizinho àquele em que Pedro estava internado, saía uma garotinha serelepe, aparentando ter uns cinco anos de idade, correndo alegre em direção à respeitável senhora:

      - Esta é a Carmem, minha filha – Apresentou!


      Cabelos ruivos e cacheados, olhos verdes resplandecentes e uma aura de vivacidade indescritível... A menina era a pura visão de um anjo!

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Gilberto de Almeida
09/08/2013


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6 comments:

Dulce Morais said...

Gilberto,
Muitos, muitos parabéns por este fantástico conto!
Termina com a visão de um anjo e planos para um futuro melhor e nada podia ser mais adaptado a uma narrativa tão excelente!
Gostei imenso de ler a sua prosa e agradeço de nos oferecer essa possibilidade neste espaço!
Grande abraço!!!

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Gilberto de Almeida said...

Obrigado pela leitura e pelo carinho, Dulce. Eu é que agradeço por sua gentileza de me haver convidado para participar deste agradável espaço, onde se compartilha inspiração e amizade.

Isa Lisboa said...

Gilberto, agora que todas as peças se encaixaram perfeitamente, posso dizer o que previ que iria dizer desde o capítulo I: Parabéns por este excelente conto!

Um abraço

Gilberto de Almeida said...

Obrigado, Isa. Fico feliz por contar com sua leitura e pela avaliação generosa!

Um abraço.

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Parabéns, um conto intrigante e futurista em alguns aspectos.

Gilberto de Almeida said...

Obrigado, Claudiane! A vida no presente, a cabeça no futuro...

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