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O menino de um olho só

Uma poesia de 2011, para os amigos, extraído da minha ótica em relação ao mundo em que vivemos.
JGCosta

Clique na imagem para ver de onde ela veio!




Outro dia bem cedinho
Vinha andando pelo caminho
E encontrei um menininho
Que me pediu com jeitinho
Para lhe dar o que comer
E pra acompanhar algo para beber
E uns trocados para o lazer
Ele dizia merecer

O examinei por inteiro
Antes de dar algum dinheiro
Podia ser fato verdadeiro
Ou golpe aplicado por matreiro
Ainda assim fui atrevido
Perguntei se estava perdido
Ele me olhou com um ar tímido
Disse na rua sempre ter vivido

-- Moro ali perto da estação
-- Meu companheiro é um velho cão
-- Não ligue para minha situação
-- Só me dê um pedaço de pão
-- Agora se não for muito um guaraná
-- Já que seu gosto eu quero lembrar
-- E vai ajudar o pão empurrar
-- Se tiver recheio vai melhorar

E depois dessa contenda
Reparei que usava uma venda
Que não parecia ser uma prenda
Quis perguntar sem uma ofenda
>> Que é isso que trás no rosto
>> Parece colado, me dá um desgosto
-- Não liga não homem, seu moço
-- Esse é um presente de um fim de agosto

-- Eu quis roubar uma bolsa na praça
-- No desespero de comer de graça
-- Fui pego e ainda por desgraça
-- Ganhei uma surra de pirraça
-- E o resultado podia ser pior
-- Apenas virei um menino de um olho só
-- Mas aproveito agora para causar dó
-- No mundo que passa ao meu redor

-- É fácil me verem como coitado
-- É claro que me tem por viciado
-- Estou de sujeira até o pescoço lambuzado
-- Vivo rondando os mercados
-- Mas sobrevivo graças ao Homem
-- Vou indo em frente passando fome
-- E o meu defeito quase que some
-- Quem liga para um ser que na rua dorme?

-- Não foi por isso que o senhor parou?
-- Quando no lugar de um olho um buraco notou?
-- Isso faz parte do meu show
-- Isso faz parte do que eu sou!
Pensei um pouco antes de responder
Afinal ele do mundo parecia saber
Sua inteligência era algo que dava prazer
Palavras sábias nem todos sabem dizer

>> Pelo seu olho que falta eu não parei não
>> Nem tinha reparado nessa sua disfunção
>> Só queria fazer uma boa ação
>> E creio que você é uma boa opção
>> Que tal deixar essa vida de rua?
>> E procurar um teto além da lua?
>> É esperto e boas palavras saem da boca sua
>> Nem me parece alguém que só tumultua

-- Mas me senhor, pensa que isso é fácil
-- Quem vai querer um caolho como capacho
-- Prefiro viver na rua a um esculacho
-- De onde estou não posso ir mais abaixo
>> Então que venha com seu cão ser meu criado
>> Mas vai ser bem mais que um empregado
>> Pois escravidão é coisa do passado
>> Eu chamo de família quem mora ao lado

E assim veio um e agora voltam dois
Um pai e um filho vão dizer depois
Foi obra do destino que se impôs?
Ou a mão do homem que a compôs?
Mesmo a resposta eu não tendo certeza
No fim dessa história só vejo a beleza
O que importa é que se diminuiu a tristeza

Que assola o mundo a bordo da avareza

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1 comments:

Dulce Morais said...

Joel,
Os seus poemas, e este não faz exceção, despertam sempre mil reflexões sobre o mundo que nos rodeia.
Esse menino, tão esperto que desperta, com o seu único olho, vê melhor que muitos de nós...
Parabéns por cada verso!

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