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De contos tantos...


Contava tantos contos
que seu siso quase sempre partia. 
Uns contados ao vento,
nele se perdiam, morriam.
Noutros,
dizia tudo que sabia e não vivia.
Entregue a si mesmo,
sentia-se precito
à carne que lhe gemia,
à língua de amargo entulhada.
Pensava nos anos primeiros
onde já nada podia,
nos de agora onde tudo lhe fugia.
Riscava a face no papel,
ocupava espaços com palavras,
embolava, mastigava, vomitava.
Mantinha os olhos abertos,
os lábios melados e afiados,
preparado para o que viria.
Debruçava-se sobre os recortes
 montados de si mesmo.
Sentia as sobras e faltas
que lhe embotavam o ânimo.
Sabia-se cínico o bastante
para manter-se incólume e distraído,
aos espelhos que lhe cercavam.
Colocava todo dia 
a mesma roupa velha
e repetia o ato,
contava outros tantos contos,
alheio à qualquer tento,
soprando suas palavras adocicadas
para a nova platéia que chegava,
misturando-se à que nunca partia.


Cris Campos


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2 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Debruçava-se sobre os recortes

montados de si mesmo.

Sentia as sobras e faltas

que lhe embotavam o ânimo.

Mas como já dizia o poeta Leminskyi " Cada manhã que nasce me nasce uma rosa na face/ porém eu confesso sou poeta.

Parabéns Cris .

Dulce Morais said...

Dos contos que contam, há os que se relatam... e há os que se contam...
Cris, cada verso fala e conta!
Beijinhos!

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