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Dimas e Madalena

saul landell


Madalena chegava todos os dias em casa e se entristecia com o que via na TV. Eram sempre as mesmas notícias. Estupros, assaltos, assassinatos. Madalena sentia profunda pena das vítimas. Mas de forma avassaladora sentia ainda mais pena dos que cometiam os delitos. Ela não entendi o por quê. Simplesmente era o que sentia. Madalena, muito simpática com todos e bastante amada, conversava com todos à sua volta. Até que resolveu expor seus sentimentos e pensamentos. As pessoas discordavam de Madalena, muitas esbravejavam, algumas apenas silenciavam e pouquíssimas, bem pouquíssimas, concordavam com ela. Madalena achava estranho seus amigos e conhecidos pensarem daquela forma, inclusive as autoridades, inclusive os políticos, inclusive o povo. Madalena achava as atrocidades cometidas apenas a ponta do iceberg. Madalena acreditava nas pessoas. Acreditava no amor. Na fé. Na humanidade. Madalena achava que o governo, para além da nação, deveria investir em outras medidas, que resolvessem os problemas sociais. O que Madalena não sabia é que as pessoas começavam a desejar, às vezes falando, ás vezes pensando: "queria ver se fosse você a ser assaltada e espancada", "queria ver se fosse sua filha a ser estuprada".

A voz do povo é a voz de Deus.

Ao chegar em casa noutro dia, Madalena reparou que havia algo errado. 
Foi surpreendida por estranhos dentro de sua casa.
A sua filha foi estuprada na sua frente. Depois brutalmente assassinada. Madalena teve sua casa assaltada, perdeu tudo. Madalena foi espancada e em seguida esquartejada. Os infratores foram embora, impunes.

As pessoas que conviviam com Madalena, maioria cristãs, compareceram ao simbólico velório. A maioria pensava: "tá vendo". Com sede de vingança e sabendo que a polícia demoraria para encontrar os bandidos, um grupo dentro do círculo social de Madalena se reuniu e conseguiu achar o responsável pelo crime. Era um menor. Eles sabiam que não daria em nada entregar para a polícia. Fizeram um vídeo onde o menor, chamado Dimas, era violentamente golpeado, penetrado e enfim assassinado para que servisse de exemplo. Divulgaram o vídeo na internet.

Foi o sucesso do momento. Milhões de acesso no mundo todo.

Sete dias depois compareceram à missa de sétimo dia. Estavam todos bem cheirosos, com roupas limpas, ouvindo o padre pronunciar duas passagens da Bíblia: a conversão de Saulo e o perdão na cruz do Calvário.

Em seguida foram almoçar numa churrascaria deliciosa e enquanto saboreavam aquele cordeiro magnífico passava na televisão, pendurada na parede, algumas reportagens sobre estupros, assassinatos e roubos. Mas ninguém prestava atenção. A carne estava muito saborosa!


*originalmente publicado em leão de gaza

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2 comments:

Isa Lisboa said...

Talvez, infelizmente, o seu post deixe alguns indiferentes... Mas a mim não deixou!
Parabéns por este chamar de atenção!
Um abraço!

Diego D' Avila said...

Obrigado Isa! Obrigado pela sensibilidade :D Abraços!

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