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Conversas do Tubo de Ensaio - Claudiane e Diego D' Avila


De Claudiane para Diego

"Felicidade é viver e não se arrepender"

Diego, dei início a esse nosso desafio à duas vozes, com o verso acima de um poema seu "Teu Ateu", publicado em 14/08 no Tubo de Ensaio. Gostaria de saber se o ato de escrever te leva ao patamar de felicidade e como se dá esse processo criativo?

Se existe um patamar da felicidade, acredito que escrever já tenha me levado até ele. Costumo dizer que a escrita é meu ansiolítico ao tempo que é minha energia. Tenho um amigo que define felicidade como uma balança, onde de um lado temos as tristezas e do outro as alegrias. Se a balança pender para as alegrias, estamos felizes naquele momento. Quando escrevo eu consigo converter parte da melancolia, da amargura e da angústia que for em alegria. Acho que já consegui responder como se dá o processo também.

Você já escreveu algum texto que tenha se arrependido de ter publicado?

Não digo que me arrependi de ter publicado, mas já editei uma ou outra publicação por haver solecismo ou excesso de exposição minha ou de outras pessoas, pois já usei o blogue para contar sobre minhas viagens, sobre o meu dia, hoje não é mais minha intenção.

Faço essa pergunta baseado em uma postagem de título "Passatempo Inútil" ,do seu blog pessoal http://passatempo-inutil.blogspot.com.br/ que vc afirma que algumas escritas suas são emblemáticas. Qual postagem sua você considera até hoje mais emblemática?

É até curioso citar isso, pois justamente hoje resolvi voltar com o nome anterior "Leão de Gaza". Eu resolvi fazer uma homenagem nesse período à Graciliano Ramos e hoje, 10/11/13, encerro a homenagem, além do que recebi comentários e e-mails chamando minha atenção que o título anterior combina mais comigo. Agora respondendo a pergunta, eu tenho uma maneira de escrever utilizando, algumas vezes, signos, emblemas. Gosto de misturar realidade com ficção, de utilizar elementos da Natureza, das mitologias, das crenças, ao tempo que abordo temas sociais e relacionamentos humanos. Talvez a mais emblemática seja “O profético advento do leão”.

Ainda na postagem de título "Passatempo Inútil" você comenta que existem certos livros, músicas ,filmes e peças teatrais que nos transformam. Gostaria que você partilhasse pelo menos 1 de cada e comentasse como cada um. de alguma forma. modificou-o

Esta pergunta é injusta, rs. Ter que escolher somente um é um desafio. Mas vamos lá.

Começando pela peça teatral vou citar uma das últimas que vi, no começo deste ano, chamada “Mefisto” da Cia de Teatro Urgente (ES) e que, por coincidência, descobri ter sido produzida por um amigo de um amigo meu. A peça falava da tentativa do artista de se vender para o Estado, também fazia alusão ao “Fausto” de Goethe. O que me marcou muito foi a atmosfera de terror, o clima de medo. Passei a partir daí a ter mais vontade de escrever sobre personagens que causam medo, o diabo por exemplo.

O filme “Melancholia” de Lars von Trier bate de frente com as regras impostas, de forma sorrateira, pela sociedade, e como a pessoa que percebe isto passa a viver. Também fala de como estamos despreparados para um processo tão natural que é a morte. Assisti o filme várias vezes e senti uma mudança, um novo olhar sobre algumas construções históricas da sociedade, como o casamento.

Poderia citar o “Angústia” de Graciliano Ramos que me motivou a fazer a referida postagem. Mas prefiro citar “Alienação e Humanismo” do Leôncio Basbaum que mudou para sempre a forma de como vejo a nossa relação com o trabalho, neste sistema capitalista, e sua nítida consequência: a desumanização.

Música, vou ter que citar “Pagan Poetry” da Björk, não tem como não divagar na música. Ela inspira, excita e, claro, transforma. Sempre tive dificuldades em escutar músicas internacionais, aquela mania nossa de preconceito que infelizmente todos nós temos, mas aí perdemos oportunidades como esta. Taí, quer uma transformação melhor? rs

O poeta José Paulo Paes diz em seu livro É isso ali: A poesia não é mais do que uma brincadeira com as palavras. Nessa brincadeira, cada palavra pode e deve significar mais de uma coisa ao mesmo tempo: isso aí é também isso ali. Toda poesia tem que ter uma surpresa. Se não tiver, não é poesia: é papo furado.
E para o poeta Diego D'Avila o que é poesia e o que ela tem que ter ou não?

Poesia não deve ter regra. Poesia é arte, arte é poesia. Os pássaros cantando, o som das águas numa cachoeira, pintura, dança, cinema, tudo isso é poesia.

O que chegou primeiro para vc a música ou o poema?

O poema. Meu primeiro poema eu fiz num acampamento, num paraíso chamado Matilde aqui no Espírito Santo, belíssimas cachoeiras. Minha primeira música foi depois de muito tempo. Se chama “Teaser dos deuses” e ainda não foi gravada.

Prefere escrever em silêncio ou gosta por exemplo de ouvir uma música?

Geralmente escrevo em qualquer situação. Tem situações que prefiro o silêncio absoluto, apenas o barulho de minha mente. Mas confesso que, ultimamente, tenho escutado muito as Solitudes de Dan Gibson no momento em que estou escrevendo, aquele lance dele de misturar instrumentos musicais com sons da natureza é fenomenal.

Agradeço a oportunidade de conhecer melhor a Claudiane, de acordo com as respostas logo abaixo. A inciativa do Tubo de Ensaio é ótima, inovadora e espero conhecer muitos outros participantes e autores através dessas conversas.

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De Diego para Claudiane

Desde que fui ao teu blogue pessoal, pela primeira vez, percebi que tratava-se de uma escola pública. O que te levou para área da educação?

Minha mãe é professora e uma das minhas brincadeiras prediletas na infância era levar meus amigos para a varanda da minha casa e passar dever para eles copiarem do quadro negro. Mais tarde, com 13 ou 14 anos convenci a minha mãe a, uma vez por semana, dar aula no lugar dela, preparava aulas diferentes e os alunos adoravam e aprendiam. Nunca tive dúvida quanto ao meu dom. Por isso, a área da educação.

Recentemente você publicou sua primeira poesia concreta. O que significa escrever poesia?

Olhar o mundo com os ouvidos, enxergar com o coração, remexer minhas emoções, tocar uma alma distante, emocionar-me, voar...
Em relação à poesia concreta, aconteceu o seguinte: aprendi a curti-la com nosso autor do Tubo Gilberto de Almeida, como ele anda sumido desafiei-me a criar uma.

Tuas publicações no Tubo de Ensaio tem muita relação com a natureza, como "Corujando além mar","Desfolhando em uma perfeita imagem metafórica", "Como o tempo vai, o tempo vem...".
Existe alguma relação com a natureza ou você a utiliza como metáforas em seus poemas?

Diego interessante essa sua observação, relendo algumas poesias percebi que a maioria foi inspirada pela natureza e em outras tenho a natureza usada metaforicamente. O meu eu poético plasma com a natureza. Hehehe
Abro um parêntesis para comentar o título  "Corujando além mar ", que foi uma homenagem  a Cyril, um amigo que mora em Portugal (por sinal, foi ele que nos sorteou) Os  haicais  foram inspirados em algumas imagens de corujas ( paixão em comum) . 

Em uma de nossas conversas achei curioso a cor alaranjada te fazer uma referência política. Costuma escrever sobre temáticas sociais fora ou dentro da blogosfera? Se não, o que gostaria de escrever caso precisasse?

Não. Sobre a corrupção e a sua impunidade, pra mim, causa primordial dos problemas sociais no país.

“Mesmo quando o bullying acontece fora da sala de aula, a escola tem responsabilidade, porque os desdobramentos desta prática estarão presentes no comportamento dos alunos”. Esta é uma afirmação publicada em seu blogue (http://emmra-pedagogiadoamor.blogspot.com.br/2011/10/o-que-e-bulying.html). Apenas o bullying é de responsabilidade da escola ou qualquer outro tipo de violência também é? A educação pública é eficiente neste combate?

Acredito que a maior parte dos princípios são construídos em casa, na família, o restante, já nasce com a pessoa (o que chamamos de índole). Agora, a ética pode ser muito bem trabalhada nas escolas; contudo, um professor não pode cobrar valores éticos se ele mesmo não os compreende ou não sabe contextualizá-los. Sendo assim, considero que as escolas, públicas e privadas, necessitam melhorar muito sua eficiência neste aspecto.  Por fim, acredito que a escola não seja a responsável por todos os tipos de violência, mas sim, o Poder Público corrompido e ganancioso. Todavia, alguns tipos de violência poderiam ser minimizadas com trabalhos de contextualização de valores éticos, como por exemplo, uma peça teatral, onde se trabalha a amizade, a cooperação, a liberdade de escolha, o respeito, os conflitos, a disciplina, a assiduidade, entre muitos outros.

Em algum lugar me lembro de você comentar que tem começado a escrever poemas há pouco tempo, me corrija se estiver errado, e o Tubo de Ensaio contribuiu para isso. O que vem a seguir? Tem desejo de ter um blog onde publicará teus poemas?

Diego, a leitura de poemas passou a fazer parte da minha vida, há onze anos, quando inscrevi os meus alunos em um concurso do Itaú Social. O material oferecido, de excelente qualidade, possuía várias oficinas a serem realizadas até o produto final. Agora, recentemente, quando entrei em contato com a nossa anfitriã Dulce Morais só havia a cara e a coragem, mas poesia, nenhuma. Todos os meus poemas foram criados a partir da minha admissão no Tubo de Ensaio , sendo assim, é como se o blog fosse meu e não tenho pretensão de criar um outro blog.
Hoje também participo http://dankamachine.blogspot.pt/
Aproveito para agradecer a Deus em primeiro lugar afinal  é da natureza que vem minhas maiores inspirações, a Dulce por ter confiado em mim, a você por estar dividindo esse momento saboroso comigo, a todos amigos e leitores do Tubo de Ensaio.

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4 comments:

Dulce Morais said...

Chama-se isto uma conversa e não é dizer pouco!

Diego,
Nas respostas às perguntas da Clau, vejo o poeta, o criador de poemas sempre originais, o homem, cuja modéstia o leva a questionar, não só o Mundo que o rodeia, mas também ele próprio.
São raras as pessoas que o encaram com tanta simplicidade e com tanta coragem.
Quanto às perguntas que preparou para a nossa amiga Clau, demostram, não só o seu interesse mas também um grande respeito pela pessoa e a sua função.

Clau,
É verdade que conversamos frequentemente, mas é raro falarmos da sua profissão. Gostei particularmente da forma, que se adivinha cuidadosa e longamente estudada, como formulou as perguntas ao Diego.
Descubro nas suas respostas, a humildade e a doçura que a caracterizam. Sinto-me privilegiada de poder contar com a sua presença no meu horizonte, e fico feliz que a criação do Tubo de Ensaio me tenha permitido conhecê-la e revelar a talentosa poetisa que se escondia atrás da professora e leitora.

A ambos, meus parabéns e os votos de muitas felicidades!

Bjos!

Sandro Panografia said...

Não tenho medo de dizer que amo meus amigos assim como não tenho medo de ter amigos virtuais... se um é bom, dois é demais ! Se por um lado o Diego D' Avila é um poeta/escritor que causa admiração a todos, por outro lado a Claudiane me vem a reforçar uma tese de doutorado que defendo de unhas e dentes: " Toda mulher tem alma de poetisa ". Vocês não sabem o tanto que é prazeroso vê-los aqui juntos, quase que num bate-papo informal. Parabéns ao dois que aprendi admirar e a amar gratuitamente ( Gratuitamente nada : quero muitas curtidas kkkkkkkkkkk ) Um beijo no coração de vocês !

Diego D' Avila said...

Obrigado Sandro! Não consigo mais comentar o teu blog e como não tenho usado o google+... Sinto falta da tua arte também. Um grande abraço e obrigado pelo apoio!

Diego D' Avila said...

Dulce, suas palavras são de comover. Obrigado por acreditar em mim, pelas palavras que sempre apoiam. Se tenho melhorado na arte da escrita são pessoas como você que devo agradecer, porque de forma natural você é uma pessoa que inspira ;-) Beijão!

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