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Amigo secreto do Tubo de Ensaio - Presente de Diego D' Avila para Carlos Moraes

 

Justo com um ateu fui cruzar a avenida
O sinal da cruz fiz, como diabos poderia ser o natal de um ateu? Meu deus!

Percebi que algo ele deixava cair
Escapuliu de seus braços
Nada é por acaso

Era algo escrito à mão, ah não!
As folhas haviam se rasgado
Mas também tinha uma foto
Um belo retrato,
Parecia com aquele estranho
Descobri pela assinatura que seu nome é Carlos, e li algo assim

“vejo que chora uma senhora, vi agora
oração traz conforto... atrai morto, se afasta torto
de quimeras eu falava... eu pensava... eu parava
ia por aí... lia, numa bula de remédio bulia
tome veneno... tome sereno... tome no duodeno
direito... no centro eu rejeito, é meu jeito
ser assim... meio queijo meio querubim
inteiro fora de mim”

E me dei conta de quem eu era
Pudera... Perdi a memória?
Que história
Lembrei que escrevi "sou teu ateu"
Não havia um deus
E sabia por empirismo.
É covardia ser agnóstico
O ópio deve ser legalizado
Ou então calem a boca dos padres e pastores e dos deuses intocados
Dê voz aos palestinos
Que cantam em meus ouvidos
Então retomei a leitura
Que loucura
Tratava-se de Bukowsky? Encontrei enfim Chinaski?
É que assim como Carlos
Havia um pássaro
E muita coisa de liberdade

“a boca enche-se de prepotência
ao vociferar o possessivo: meu
a boca enche-se de porra
que é tudo o que sobra depois
que o sexo acaba,
azul pálido
azul desamor
azul refalsado
de que me vale ser ele azul?
meu pássaro azul
aprendeu a voar, mas não voa”

Dei conta então de que chovia
A tinta da caneta desmanchava
Meus olhos, cheio de lágrimas
Era mais um na contramão
Tentei achá-lo, mas foi em vão

Os anos se passaram
Fiz um canção
Tocava no rádio de toda nação
Eu era pobre, a rima pobre
Mas tinha um grande coração

Alguém bate à minha porta
Era uma linda mulher
Vinha acompanhada de um senhor
Não precisei que se apresentassem
Amigos, reconhecemos
Anos atrás havia visto um retrato dela
Apesar de na época ainda ser uma menina 
E logo dei-lhes um abraço
Eles entraram e Carlos cantou
"Marina morena, Marina você..."

Daí a única parte que não musiquei
Dedilhei ali, naquele instante
Afirmei que também era irreversível
perdido

"se tento o impossível menos consigo entender
aceitar o mundo crível o mundo imundo  em que nasci

por improviso acidente sem motivo
à toa ao léu .

se tento o possível menos consigo viver a vida”

Devolvi seus papéis manchados.
Era fim de ano novo, o presenteei com Saramago
Éramos todos filhos de Caim.


*  Neste presente faço menção à três obras do escritor Carlos, nesta ordem:  "Tranquilidade de espírito", "O meu pássaro azul" e "Irreversível".

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7 comments:

Carlos Moraes said...

Diego...fiquei deveras emocionado... acho que não há presente maior que o reconhecimento, e quando esse vem acompanhado do entendimento, e acrescentado em sensibilidade, em poética, em histórias, nem é preciso ser poeta, o homem se engrandece e sorri e canta... assim é o natal para um ateu, momento de descobrir sentimentos divinos nas pessoas, e senti-los mais latente em si mesmo.

abraços, mais que um presente de amigo secreto, ganhei um amigo.
Carlos

Carlos Moraes said...

cara, eu não tinha ouvido a versão gravada! pirei! valeu! valeu...

Isa Lisboa said...

Muito bom, Diego! Parabéns por essa homenagem, que até sem ser musicada ficaria linda (mas claro que ficou ainda mais assim!) :)
Abraço a ambos

Diego D' Avila said...

Valeu Carlos! Você merece. Gostei de conhecer ainda mais o que escreve e deveria continuar com o blog. Abraços!

Diego D' Avila said...

Valeu Isa, meu doce.

Dulce Morais said...

Diego,
Como sempre a sua inteligência e sensibilidade se traduzem neste presente que cita o Carlos e não deixa de ter a sua assinatura.
A sua dedicação é notável e agradeço a presença de ambos neste espaço que fica mais rico por vos ter aqui.

Feliz Natal a ambos e um grade abraço!

Diego D' Avila said...

Valeu Dulce, minha amiga! Prazer imenso estar aqui, obrigado pelas palavras.

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