Powered by Blogger.
RSS

As cartas se escrevem pelas paredes, 4

Clique aqui para ler o capítulo anterior…

Catarina 2

 

Rodolpho,

...eu li tantas vezes as suas palavras que quase as decorei. Estou cansada, as vezes eu acho que quero outra vida pra mim. Tenho feito um enorme esforço para me levantar da cama todos os dias. Tenho feito muito esforço para fazer as mesmas coisas – hoje eu sai da cama apenas por causa do gato do vizinho que miava impaciente junto a janela da cozinha que estava fechada. Tampei as orelhas com o travesseiro, mas a unha passeando pelo vidro da janela me fizeram levantar e dar a ela uma tigela de leite. De repente, estava eu a conversar com o pobre animal... Tem gente, eu soube, que fala com as paredes…
Você já se sentiu cansado?
Eu não aguento mais olhar essas paredes. Esses móveis. Essas coisas todas que tenho aqui – e porque estou a lhe dizer tudo isso? Porque você é a única novidade que tenho em minha vida em tempos – e eu nem sei porque você me escreve –, me falando coisas suas. Até parece que somos próximos, amigos um do outro, a tal ponto que eu poderia convida-lo para um café num fim de tarde chuvoso nessa cidade inconsciente... Você aceitaria?
Olha, eu pouco faço uso do metrô, moro perto do lugar onde trabalho. Duas ruas pra cima e pronto – é tudo que ando –, mas eu me lembro de ter usado a linha verde do metrô para ir visitar um cliente. Não era eu quem deveria fazer a visita porque meu trabalho é dentro de paredes, mas a pessoa responsável estava doente e aparentemente, não sei lhe dizer o motivo, ela não confiava em outra pessoa que não eu para fazer a tal tarefa. Eu não sei te dizer se sou uma pessoa confiável, mas eu sei dizer que eu mesma não confio em mim na maioria das vezes.
Veja você, eu nem mesmo consigo acreditar que esteja escrevendo a você – esse estranho que encontrou um livro no banco do metrô e que me escreveu apenas para devolvê-lo. Eu não faria isso e, sinceramente, acho que a maioria de nós não o faria. Eu teria deixado o livro em qualquer lugar. Teria olhado com desprezo para a pessoa que pediu que à você para removê-lo do lugar apenas para ela se sentar. Afinal, por que ela mesma não fez isso? Como chegou a conclusão de que o livro era seu? As pessoas hoje em dia andam com o dedo em riste. Já reparou nisso?
Bem, eu tenho uma certeza: o livro que você encontrou, definitivamente, não me pertence, embora, estranhamente gostaria que fosse – apenas para que nos encontrássemos e você o entregasse a mim, como na cena do filme A Casa do Lago em que o personagem do Reeves vai até a estação resgatar “persuasão”. Eu gostaria de conhecê-lo porque ao contrário de você, eu não consigo imaginá-lo.

Júlia

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

3 comments:

Dulce Morais said...

Lunna,
Estas epístolas se tornam cada vez mais interessantes!
A Júlia me parece atravessar um momento difícil...
Aguardo com impaciência a continuação!
Abraços!

Isa Lisboa said...

Lunna, continuam muito interessantes estas missivas, agora com contornos já menos misteriosos que inicialmente, mas que ainda assim me fazem desejar "receber" a próxima! Até sexta! ;)
Bacio

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Pois é, você conseguiu mesmo prender seus leitores...
Em relação a Julia, agora deu para perceber que ela se encontra em estado de depressão, acredito que o Rodolpho , o seu endereço e a carta seja providência divina .

Post a Comment

Publicações populares