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Balas de Natal

Esse conto é de do final de 2011 e sempre me emociona quando o releio. Através dele desejo à todos os novos amigos do Tubo de Ensaio e a cada um dos visitantes um Feliz Natal!
JGCosta

Clique na imagem para ver de onde ela veio!


O velho, com a barba branca por fazer e a barriga por estourar o elástico da calça de ginástica transformada em pijama, suava para levantar mais um saco de cem litros abarrotado de balas até a boca e o virar finalmente para dentro da carroceria do jipe antigo.
A mulher, também com a idade avançada, o olhava de longe e não pode evitar um resmungo.
-- Deixa isso aí Nestor, o que é que você vai ganhar com isso?
Ele pareceu ou ao menos fingiu nem ouvi-la. Somente ao terminar de carregar o último saco vermelho, escorregou apoiado com as costas até alcançar o chão, esparramando-se. O suor escorria pela face cansada, o coração acelerado dava pulos sob a camiseta regata molhada, mas um leve sorrisinho satisfeito brotava em seu rosto.
Olhou para o relógio, passava das cinco, precisava tomar um banho e se aprontar para mais um passeio pela cidade, saindo do seu bairro de classe média com destino à periferia onde...

... Um rapazinho com roupas maltratadas pelo excesso de uso diário terminava de limpar o porão, passando mais uma vez um pano de chão encardido e derramando uma água escura num balde ao torcê-lo. A mãe lhe deixara sair, mas somente depois da faxina e de cuidar da irmã.
Terminou tudo rapidamente e foi novamente pedir permissão à genitora, afinal ela mudava de ideia com uma facilidade incrível, pois os serviços domésticos se multiplicavam como mágica, pensava ele.
-- Não vá longe! – Disse ela duramente ao filho de dez anos – Volte antes de escurecer, não se esqueça de que sua irmã precisa de você...
Sempre a irmã! Sempre! A irmã! – Pensou ao abrir a porta que dava para a rua. É lógico que não a iria esquecer, e como o faria se a mãe não o cansava de lembrar a sua existência. Não que isso fosse ruim, sorriu ele tal o velho uma hora antes, ao contrário, era bom ter alguém de quem cuidar.
Com esse pensamento em mente chegou à calçada, não antes de abastecer os bolsos com uma sacola vazia do supermercado, que ficava no bairro vizinho do...

... Velho Nestor, esse me mata de tanto rir, onde já se viu sair por aí com aquele pau velho carregado até em cima, ainda vai se arrebentar por aí...
As risadas ecoavam na praça nas bocas de alguns rapazes que estavam à toa, como sempre, onde agora um jipe com poucos enfeites e uma saia de papelão vermelha colada nas laterais passava.
Conforme dirigia, Nestor com uma das mãos arremessava um punhado de balas para as pessoas nas calçadas, causando a maior confusão, enquanto com a outra mão revezava entre dirigir e tocar um sino que nunca fora de ouro.




O jipe cansado estourava e seguia em frente, arriado que estava pelo peso transportado, somado aos mais de cem quilos do seu motorista. Após mais de uma hora num vaivém interminável pelas ruas e com o último saco de balas pela metade, ele veio a falecer...

... Morria de tédio escorado na parede encardida da venda, enquanto outros moleques chutavam uma bola velha no meio da rua e outros mais adiante brincavam de taco.
Ficava olhando para o céu a todo o momento, enquanto o sol navegava rapidamente para a sua morada, e a dona lua tomaria o seu lugar. Lembrava-se das palavras da mãe – Volte antes de escurecer... – e não queria ganhar nas vésperas do Natal uns safanões de presente, mas queria esperar mais um pouco, sabia que ele viria de qualquer jeito, confiava nele, confiava muito...
Se o menino soubesse o que lhe havia acontecido, provavelmente correria para a casa sem perda de tempo. Nesse instante em que torcia para que o sol atrasasse um pouco o fim do dia, como se isso fosse possível, o velho se encontrava esticado no asfalto...

... Olhando por baixo do jipe não via problema algum, somente aqueles vazamentos antigos de óleo, algumas mangueiras amarradas com arame e o início do escapamento solto quase raspando o chão. Com certeza não era ali embaixo o problema.
Nestor se levantou e abriu a tampa do motor, recebendo um bafo quente e fumaça direto no rosto, pondo-se a tossir descontroladamente. Depois de abanar um pouco, pode enxergar melhor e descobriu o defeito: o motor ferveu!
Bateu palmas numa casa da vizinhança onde uma alegre menininha gritou lá de dentro:
-- Mamãe! É Papai Noel!
Várias portas se abriram e delas surgiram uma infinidade de crianças. Nestor não teve outra forma de acalmá-las a não ser pegando balas sobre seu jipe e enchendo suas mãozinhas, até que finalmente entre os pequenos seres surgiu um adulto.
-- Preciso de água para o radiador – Disse ele ao homem.
-- Precisa é de outro carro, seu Nestor! – Respondeu amigavelmente o outro.
Nestor concordou com um gesto e ficou esperando. O outro retornou com um regador transbordando.
Depois de ligar o motor e completar a água, devolveu o regador agradecendo.
-- Deus lhe pague meu amigo, ainda tenho que terminar meu serviço...
-- Deus é que pague ao senhor, seu Nestor, por esse coração grande que tens, mas seu carro devia ser recolhido agora para uma oficina, está no limite...
-- Ainda tenho mais um bairro para visitar, o último! Depois disso se o motor explodir, tudo bem!
-- O senhor não existe...
-- Ah, Ele Existe sim...

... Sim, meu Bom Deusinho, faz com que a noite demore um pouquinho mais para chegar.
Os últimos raios solares passavam por cima das casas e uma grande sombra descia pelas paredes, rumo ao chão. Não demoraria muito para que tudo ficasse escuro e as poucas luzes dos postes acendessem.
O garoto frustrado chutou para longe uma lata de refrigerante. As demais crianças já paravam com suas brincadeiras e em grupos retornavam lentamente para suas casas. A preocupação da sua mãe tinha razão de existir, o local há muito deixará de ser seguro e não importava a data, muitos viciados procuravam o lugar para fazer seus negócios escusos.
Quando o sol finalmente sumiu e somente um alaranjado cobria o horizonte, ele começou a se levantar. Foi andando também devagar, a exemplo dos demais, mas acabou tropeçando numa irregularidade da calçada e caiu, ao se virar assustado pelo ronco forte de um motor que urrava...

... Gritava, chiava, suas válvulas literalmente esperneavam, mas ele heroicamente seguia em frente. As balas estavam quase no fim, já estava difícil conciliar a direção, o sino e o fundo do saco vermelho.
Tinha adentrado o último bairro, o das casas mais simples, e havia conseguido percorrer todas as ruas e agora chegava ao final de um beco sem saída.
Quase no fim desse local o motor do jipe deu um derradeiro berro e parou. O velho Nestor viu de longe umas crianças correndo na sua direção, raspou o fundo do saco e disparou balas por sobre as suas cabeças. A garotada limpou o chão em segundos, ávidos que estavam pela sua presença, geralmente esquecida pelos demais.
Ao terminarem de “varrer” as balas, olharam para o velho.
-- Feliz Natal meus filhos, acabou tudo!
Notou que eles iam embora sorrindo e caçoando uns dos outros, contando vantagens sobre quem tinha pegado mais balas.
Lá no fim do beco, numa parte mais escura, viu um garoto sozinho se levantando. Esse menino apenas o olhou rapidamente e já se virava para ir embora, quando Nestor se lembrou de algo.
-- Ei garoto, volta aqui!
Ele o ouviu e veio correndo.
-- Faz um favor pra mim, meu nome é Nestor. Peça para alguém lá na sua casa ligar pra esse número aqui do papel, para meu filho vir me buscar, o carro quebrou e não vai funcionar mais hoje! Podem ligar a cobrar...
O menino o olhou com um olhar decepcionado que permaneceu em seu rosto por um décimo de segundo apenas e logo respondeu.
-- Claro, deixa comigo.
Ia se virando quando Nestor o tocou no ombro.
-- Hei, espera, leve algumas balas, sempre trago algumas reservas no porta-luvas...
O garoto abriu a sacolinha que trazia no bolso e ele esparramou dois pacotes grandes de balas lá dentro, quase a enchendo.
-- Vai, feliz Natal! E não se esquece de pedir para alguém ligar para o meu filho...
-- Feliz Natal Papai Noel!

Era quase meia-noite do dia de Natal quando o velho Nestor chegou a casa, recebendo uma chuva de reclamações da esposa que ele amava e um abraço demorado dos outros filhos, genro, nora e muitos netos. Estava novamente muito suado como no fim da tarde, mas com o peito aliviado e um semblante feliz por ter espalhado um pouco mais de felicidade.
Não esboçou qualquer reclamação, começou a colocar os netos sentados nos joelhos, um a um, e pôs-se a entregar os brinquedos.
-- Hoh Hoh Hoh Hoh! – Bradava alto arrancando sorrisos de todos.
Horas antes um também cansado garoto adentrara em casa e depois de ouvir umas boas de sua mãe, explicou o motivo da demora e repassou o favor solicitado pelo velho Nestor, o qual sua mãe correu para atender sem pestanejar, levando o celular diretamente para que ele mesmo fizesse a ligação.
Essa é a melhor mãe do mundo – pensou o garoto – enquanto rumava para cuidar da irmã no andar de cima.
Esta esboçou uma careta ao vê-lo e com esforço abriu uma de suas mãos na espera de um presente que ele prometera buscar.
Ele primeiro a arrumou na cadeira de rodas e a virou para a janela, de onde se podia ver as luzes ascendendo de algum enfeite natalino longe dali, mas que dava um ar especial para a noite.
Feito isso lhe beijou a face e lhe desejou Feliz Natal, enchendo sua mão de balas, não qualquer balas, cochichou em seu ouvido -- mas balas vindas direto do Papai Noel para eles.

Ganhou ele o melhor presente que podia querer naquela noite: um sorriso repleto de amor!

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