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O garoto, o monte e o Todo Poderoso

Ibrahim Abu Sharkh



Parte I - Garotinho

Para ficar bem claro esta é a história de um garoto que falava diretamente com Deus, tão normal como os diálogos do Velho Testamento, e nessa dialética nunca faltava uma resposta, mesmo que enigmática, já que Deus escreve certo por linhas tortas.

Dona Fina espiou, como de costume, pela sua janela. Gostava de ver os vagabundos, como assim os chamava, fumando baseado e aprontando outras coisas imorais, também segundo sua opinião. Surpreendeu-se porque desta vez não haviam os malandros de sempre. Mas era uma praga de menino. Uma peste mentirosa que aprontava todas as piores travessuras na escola e na vizinhança. O garoto estava ali no monte Sinai, lugar perigoso, alto, uma queda seria fatal. Alguma deve estar aprontando, pensou dona Fina.

-  Peste, saia já dai! - gritou a senhora de cabelos desgrenhados vestida com seu típico avental sobre um longo vestido.

O guri correu tanto com o susto, que só não caiu porque era danado de magro e o próprio atrito do vento o impedia de uma possível queda. Garotinho detestava ir à escola porque desde cedo, bem cedo mesmo, aprendeu que não valia a pena. De quem ouviu isso? Certamente não foi de Soninha, sua mãe, que implorava a Deus todos os dias para que seu filho tivesse um bom destino, um futuro diferente do seu. Aprendeu mesmo foi com a verdade do dia a dia. Os garotos mais velhos nunca terminavam o colegial e os que terminavam acabavam exercendo as mesmas funções que seu pais, sem estudos, ou seja, nada mudava com ou sem estudos. Isso era o que se passava na cabeça do pobre Garotinho, que cabia numa caixa de sapatos quando nasceu, de tão miúdo.

Pensava sempre de forma rápida e lógica, era um garoto esperto, cheguei, ufa, falou, como de costume, com Deus.

-  Garotinho onde você esteve? - perguntou, brava, sua mãe Sonia. 
-  Não fiz nada não senhora, fui apenas ver Seu Tonho cuidar dos cavalos. E ele disse que quando precisar ele faz o frete de graça.
-  Té parece que vou lá eu pedir alguma coisa de graça.
-  Pois foi o que eu disse, sim. Daí então ele falou que cobra.

Sonia sempre desconfiava das coisas que saiam da boca de Garotinho, mas como já era tarde e ela passara as últimas horas preparando a canja e arrumando as coisas de casa nem tinha paciência para discutir com seu filho. Garotinho aproveitou que sua mãe ficou muda, se sentou e logo encheu a boca de canja.

-  Não vá se esquecer de agradecer Deus, garoto mal educado!
-  Não mãe. Esqueço não. É que eu falo com Ele de boca vazia porque vó Nazaré disse que não pode falar de boca cheia.
-  Garotinho, vá dormir! Você me confunde os pensamentos, vá que há muito o que fazer e amanhã você tem escola cedo.

Eu odeio escola, odeio muito seu Deus. Não presta, não serve. Só a tia Vania que eu gosto. Eu tô com fome, não falo pra mãe que ela bem me bateu na cara quando eu disse que sentia fome, falou que tem gente em situação pior e que eu tenho é que agradecer ao Senhor. Mas o Miguel tem cara de sanduíche de tanto que come, ele é gordo e uma metideza só.

O menino olhou para os lados, ouvia o estrondo dum trovão sempre que Deus ia falar com ele. Era um sensação estranha, chegava a dar vontade de por tudo pra fora. A cabeça parecia girar com tamanha a altura daquela voz, mas Deus sempre respondia o garoto.

CRIANÇA, SE PRECISAR, BEM SABES QUE FAÇO DO CÉU CAIR PÃO E DA ROCHA FAÇO BROTAR ÁGUA. NÃO DOU PROVA MAIOR QUE NÃO POSSA SUPORTAR.

Garotinho foi tentar dormir, mas não conseguiu, nem sempre ficava muito satisfeito com as respostas que escutava de Deus, mas ele sabia que era um privilegiado e que isso não acontecia com mais ninguém.

Parte II - Miguel

Miguel nem piscava os olhos, de tão concentrado que estava, lendo a Palavra de Deus. Faltava pouco para ir dormir e como já estava de barriga cheia começou a pensar nos elogios que tia Vania ia fazer no dia seguinte ao ver que completou sua lição de casa. Miguel era um tanto apaixonado pela sua professora, desde o 3º ano, quando ela o elogiou num dever e afirmou que adoraria ter um filho como ele.
Miguel se esforçava para fazer os deveres porque tinha incentivo e talvez sua paixão pueril se desse exatamente por conta de suas qualidades que eram tão enfatizadas por Vania. Mas ele também percebia que quem não caísse na graça da professora, aqueles que não entregassem as lições, como Helter, passavam a ser perseguidos.

Ficar com o mesmo professor mais de um ano é bom apenas para quem se dá bem com esse professor. Concluiu o garoto.

Parte III - Sinai

No dia seguinte Garotinho acordou bem cedo e saiu de casa pensativo.

Eu não entendo porque Miguel sempre vai na casa da vó Nazaré aprender sobre igreja. Ele faz para aparecer. Deus nem deve falar com ele. De que adianta adorar alguém que você mal conhece? Não gosto de Miguel porque ele é muito bonzinho e todos só tem elogios para ele, enquanto eu... ninguém nota.

GAROTINHO, AME AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO.

Mas Seu Deus, eu não me amo.

Garotinho novamente não foi à escola. Perambulou pelas ruas e sentiu um vazio muito grande, além da fome.

Seu Deus, ninguém te ama mais que eu. Vó Nazaré me disse que o Senhor só dá lutas que podemos suportar. O senhor mesmo disse, só que eu num aguento mais...

Garotinho subiu completamente o penhasco do Sinai, com muita dificuldade, devido ao jejum forçado de semanas, ele nunca comia de manhã. Não havia visto pedra virar pão, comeu pedra pensando ser pão. 

Dessa vez eu consegui e nada, nem dona Fina como fizera da vez passada, vai me impedirSe eu me jogar daqui de cima o que vai acontecer Seu Deus?

BASTA QUE EU ORDENE AOS ANJOS A TEU RESPEITO, QUE TE GUARDEM. ELES TE LEVARÃO NAS MÃOS PARA QUE NUNCA TROPECES. MAS NO QUE PENSAS MENINO?

Cê sabe no que penso e mais, no que vou fazer.

SEMPRE DEI AOS HOMENS O LIVRE ARBÍTRIO.

Quase nunca te entendo.

ESTÁS AFASTADO DAS ESCRITURAS.

Me afasto porque não sei para que servem.

PARA TE GUIAR AOS CÉUS.

Acontece que é um caminho muito longo. Mas de qualquer forma o Reino dos Céus é feito de crianças, não foi isso que disse Jesus? Só estou encurtando a jornada. No mais ouço muita contradição. E só conheço essa palavra porque tia Vania uma vez falou que eu não estudava e eu falei que estudava sim. Daí ela me perguntou algo simples e eu não soube responder, então ela falou que se eu estudasse eu saberia, daí eu disse que não estudava, logo ela disse que eu estava me contradizendo, assim como o Senhor, que fala que vai me guiar, que nada acontece sem que o Senhor saiba, mas que mesmo assim dá livre arbitro.

E, sem mais pensar, Garotinho se jogou do monte Sinai. 
Sentiu o vento em seu rosto, sorriu. 
Faltou ar e agora não mais sorria. 
Começou a sentir medo, mas sabia que a qualquer momento os anjos poderiam aparecer.
Nada de anjos.

Parte IV - Deus

-  Cumadre Nazare, eu bem que vi esse menino ontem, com atitudes suspeitas lá no Sinai, devia ter imaginado que coisa boa não planejava.
-  Um menino tão perto de Deus, como pôde? Se jogou do penhasco e os médicos falaram que ele nunca mais vai andar e que não sabe se ele pode ou não nos escutar.
-  Ele era bom aluno de catequese né?
-  Bom? Era o melhor Fina. Meu neto aprendia mais rápido que os outros
-  E porque Garotinho?
-  Ele era tão pequenino que sobrava espaço na caixa de sapato, quando nasceu, magrinho de dar dó. Mas nas aulas gostava de ser chamado só pelo nome.
-  Porque na verdade era um anjo
-  Miguel podia bagunçar e ser arteiro às vezes, mas era aplicado nos estudos, pense que a professora sempre o elogiava e lá no catecismo eu nem podia reclamar. Ele afirmava que podia falar com Deus.
-  Será que neste momento ele está falando?
-  Me dá uma peninha de ver Garotinho, meu Miguel, nessa situação...
-  Será que ele consegue nos ouvir? Nos entender?

Garotinho ouvia atentamente toda a conversa. E, por mais que não conseguisse se mexer, entendia tudo que estava acontecendo.
Pediu para Deus falar com ele. Se esforçou.
Só queria escutar a voz de Deus, dentro de sua cabeça, dizendo que aquilo tudo era mentira.
Miguel chorou.
Havia compreendido tudo,
Logo concluiu...
DEUS NÃO EXISTE!

* publicado originalmente em http://leaodegaza.blogspot.com.br/2014/01/o-garoto-o-monte-e-o-todo-poderoso.html

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