Powered by Blogger.
RSS

As cartas se escrevem pelas paredes, 6

Para ler os capítulos anteriores clique aqui…

 

catarina 13

 

Rodolpho,

 

...estou preocupada...
Faz duas semanas que lhe escrevi pela última vez e, nenhuma notícia sua desde então eu recebi. Não tenho outro contato seu. Em nossa correspondência moderna não nos ocupamos de nos dar mais de nós mesmos.

O que foi que fizemos? Nos ocupamos de falar em um bendito livro encontrado por você e que te trouxe a mim. Ainda não sei como isso aconteceu – as vezes nem parece possível e, já me questionei tantas vezes sobre a verdade por trás dessa troca que poderia ser imaginária...

Acabei comprando o livro na Livraria Cultura do Conjunto Nacional na última semana – foi o jeito que encontrei para tentar por fim a esse silêncio que se estabeleceu entre nós dois e, também para tentar compreender o que foi que te trouxe até mim. Confesso que não avancei muito na leitura, mas percorri, de certa maneira os mesmos caminhos que você, com o livro em uma das mãos e a esperança na outra. Pensei que talvez pudéssemos esbarrar um no outro e, você me reconheceria como na cena do filme em que Tom Hanks e Meg Ryan combinam um encontro no café sem saber um do outro – assisti novamente a esse filme na noite passada.

Eu sou mesmo uma sonhadora – sou igualmente solitária e, desde que você atracou em meu mundo é que percebi que essa casa tem cômodos demais e, móveis de menos... Eu sigo alimentando o gato do vizinho que me faz companhia nas noites em que o sono foge de mim – quase todos os dias são assim. Quando me esqueço de deixar o vitrô da cozinha aberto, ele estala suas unhas contra o vidro e choraminga como se estivesse a chamar por mim...

Eu acho que estou a delirar – e, isso me consome e preocupa – tenho razões para temer a loucura já que é coisa comum em minha família...
Reli seus escritos todos na última hora e, fiquei a pensar por alguns segundos nessa sua história de vida – nesse seu amor do passado e, comecei a imaginar o que teria acontecido a ela. É o que faço de melhor: imaginar. Sonho o tempo todo – inclusive quando acordada. Não sei absolutamente nada sobre vivencias – não pratiquei muito nessa minha vida. Sei apenas sobre viver do lado de dentro, com os olhos presos ao branco da parede. As vezes eu acho que seria uma boa escritora – ao menos na construção da história. Escrever já seria outra coisa – mas, tenho pra mim que não me sairia muito bem. Talvez se não precisasse do papel sendo possível escrever apenas em minha mente que é onde tudo de fato acontece.

Eu deliro enquanto escrevo também – me perco – me afasto –, vou em outras direções deixando de lado a tela e as palavras. Sempre fui assim. Tive dificuldades em concentrar-me nos estudos quando em idade escolar. Fui uma estudante regular – com notas suficientes para o ano seguinte viver. Os cadernos eram eternos rascunhos. Vivia comprando novos para passar o anterior a limpo e, assim o ciclo nunca se completava. Eu sempre fui incompleta – uma pessoa a espera que algo acontecesse...

Na última hora visitei umas cem vezes a minha caixa de entrada – de minuto em minuto – pensando encontrá-lo por lá... O seu silêncio esta a me torturar, mas eu imagino que a essa altura você deve ter percebido que sou uma maluca-desvairada-e-totalmente-insana que cuida do gato do vizinho e se debruça na janela para espiar sombras no meio da noite. Em seu lugar também iria evitar contato comigo, afinal, eu poderia comprometer sua sanidade.

Entendo! Mas, por favor, ao menos diga-me se esta bem... Não precisa dizer nada mais, apenas uma palavra. Diga-me de qualquer maneira "vivo e sobrevivo – não espere mais por mim" –, ou apenas "estou bem". Mas se preferir menos, não me magoará. Só quero sabê-lo bem – para tanto, uma palavra apenas será o bastante porque esse seu silêncio está a destroçar minha alma.

Ontem, na Biblioteca Mário de Andrade – lugar que passei a frequentar na esperança de tropeçar em você – vi esse senhor a ler o “nosso livro” e, pensei ser você. Talvez fosse – já que não me aproximei – permanecendo a distancia. A sabê-lo de dentro do meu silencio. Ele ficou lá com sua ausência de movimentos – apenas o ato comum de virar página por página com a ponta dos dedos... Levantou-se ao final da leitura, enxugando os olhos com um lenço branco – aparentemente emocionado e, em seguida limpou as lentes dos óculos (embaçadas). Passou por mim sem saber-me ou notar-me ali em meu canto e, foi embora. Poderia ser você... Todos os homens pelos quais passo – ultimamente – pode ser você. Abraços

 

 

Ps. Terminei de ler o “nosso livro” há pouco, queria que soubesse. Estou sem chão – vazia. A história narrada ali  poderia ser minha – sua – poderia ser de qualquer um. Vou comprar flores hoje a caminho para o trabalho e, mandar entregar aqui em casa…

 

 

Júlia

(fim)

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

3 comments:

Dulce Morais said...

Lunna!
Quanta dor passa através desta missiva da sua personagem!
Senti a mágoa dela, a súplica que parece mais dirigir-se à vida que ao destinatário do email…

Adoro a sua escrita. Comunica sentimentos e pensamentos a vários níveis!
Parabéns e muito obrigada por mas esta pérola!
Bacio! :)

B. said...

A trama está cada vez mais envolvente. A angústia de Júlia dá para ser sentida de longe. É tão exaustivo (sobre)viver, que quando encontramos uma fonte de esperança, já ficamos loucos para que dê certo

Ingrid said...

sempre o anseio..o querer que nos limita..
perfeito Lunna..
sempre!
bacio

Post a Comment

Publicações populares