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A sala dos espelhos


Brian Crain - Time 

Avisaram-me sobre a sala dos espelhos, mas eu não quis ouvir. Há quem tenha saído de lá louco, disseram-me. Eram as histórias da Casa do Terror, faziam parte do apelo, pensei eu.

Ao entrar, vi espelhos a toda a volta, uns maiores que outros, dourados, prateados, de ferro forjado, de madeira apenas, quase sem tinta, alguns. Estavam ali, eu no meio.

Olhei e vi-me, não o comum reflexo, era eu e não era eu. Havia um eu em cada espelho.

Roupas diferentes, cabelo diferente, cabeça erguida de forma diferente, sorriso mais ou menos aberto.

Um eu em cada espelho. Cada uma me olhava, bem no fundo de mim, bem no fundo dela.

Quem são vocês, somos tu. Seríamos tu.

E então apontaram-me os dedos acusadores. Seríamos tu, quem poderias ter sido, somos quem não tiveste coragem de ser. Não, não pode ser, tinham razão, a sala dos espelhos trazia-nos a loucura. Cobarde, apontavam, cobarde, gritavam. Podias ter sido eu, se tivesses ido por ali, dizia uma, por além dizia outra, se tivesses ficado quieta, outra ainda…

Não, vocês não são eu! Gritei. Eu sou eu. Sou todas as escolhas, quem eu não fui já não existe, nunca existiu, EU escolhi que não existissem!

E então os espelhos calaram-se. Percebi que estava liberta. Podia ir, os meus eus estavam em paz comigo. Deixaram-me ir. Embora por vezes ainda me pareça que me sussuram aos ouvidos…: Podias ter sido eu…

Isa Lisboa

Arte: Max Gasparinin

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6 comments:

Dulce Morais said...

Isa,
Somos o que somos e não o que poderíamos ter sido, porque escolhemos, decidimos e... vivemos!
Dá sempre que pensar, quando imaginamos o que poderíamos ter sido... a menos que estejamos sempre certos das nossas escolhas e isso, acho que ninguém o consegue totalmente...
Excelente, como sempre, Isa!
Parabéns!
Beijinhos!

Isa Lisboa said...

Um remate excelente para o meu texto, Dulce, muito obrigada!
Beijinhos

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

"Os meus eus estavam em paz comigo".

Isa esse conto nos leva a uma viagem interior riquíssima!
Parabéns

Isa Lisboa said...

Que bom que viajou com esse meu texto, Clau! Um beijinho!

B. said...

Muito interessante, sua metáfora com o tema abordado. Vivemos presos ao "se" e o passado nos acorrenta, dominando-nos. Mas de que adianta pensar no que já passou? Não tem mais volta, e quase tudo é fruto de nossa escolha. Devemos aprender a lidar com aqueles caminhos que foram errados e tirar uma lição de cada um deles, afinal não seríamos o que somos, sem aprendizado.

Isa Lisboa said...

É verdade, o nosso eu faz-se dos caminhos escolhidos, mas por vezes não conseguimos deixar de nos interrogar... Obrigada pela leitura e comentário! :)

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