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“o homem da casa” (2)

Conto. Segunda parte 

 

traição

 

…Luiz Gustavo chegou mais cedo a casa. Trouxe flores, uma caixa de bombons, uma pequena jóia e a sua felicidade comum de homem da casa. Encontrou todas as coisas em seus devidos lugares. A casa toda arrumada cheirando aos cuidados de Maria…

Subiu os degraus em silêncio pé ante pé imerso em sua satisfação de homem realizado – sentia-se amado por sua prenda – e, enquanto caminhava tecia silenciosamente elogios a sua senhora.

Caminhou pelo corredor sem um único barulho fazer aproximando-se lentamente da porta do quarto de onde provinham certos ruídos “ela esta lá dentro a arrumar nosso ninho de amor” – pensou ao cumprir o movimento final – porta aberta para a verdade ingrata que o reduziu ao nada...

Maria era moça desavergonhada e, isso era coisa que até então ele não sabia… Quiz gritar injúrias. Acusá-la. Dizer as palavras certas. Agarrar o maldito que maculava seu leito pelo pescoço – jogando-o pela janela – seria impiedoso e não aceitaria falsas justificativas… Na certa ele a tinha seduzido. Tão ingênua era sua Maria – pensava…

Mas ao ver todos aqueles ininterruptos movimentos entrecortados por sussurros se viu obrigado a engolir seco o prazer que Maria – estranhamente – confessava àquele homem em frases indecentes-imorais-insensatas-pérfidas. Nem parecia sua doce Maria…

Para permanecer em pé Luiz Gustavo precisou apoiar-se no batente da porta. Não conseguia acreditar naquele devaneio. Sentiu-se zonzo. Dizia a si mesmo “isso é um sonho – um pesadelo – preciso acordar. Você vai acordar” – mas a ordem não se cumpria. Recusava-se em acontecer…

Luiz Gustavo permaneceu impávido diante daquela cena lamentável – assistindo aquela traição feito cena de novela. Nunca antes havia visto tamanha perversidade. Ela dizia “não pare” com um tom selvagem-intenso-despudorado… Aquela não era sua Maria – definitivamente…

Boquiaberto – Luiz Gustavo fugiu daquela cena – escondendo-se atrás da parede do lado de fora do quarto. Dali seguia ouvindo aquelas obscenidades agudas enquanto tentava se convencer do contrário… e como quem acorda de um pesadelo – desceu as escadas correndo –, abandonando os presentes no móvel ao lado da porta de entrada – sua saída… 

Andou pelas ruas da cidades cambaleando pelos cantos – com aquela cena a se repetir em sua mente – e aqueles sussurros a gritar em seus ouvidos. Andou até cansar. Foi até onde podia. Acabou na mesa de um bar a engolir o veneno que cura todos os males. Amaldiçoou Maria uma dúzia de vezes. Agora ela era Maria a maldita, a desgraçada. A mulher que o traía e o apunhalava pelas costas. Ele homem descente enganado por uma safada…

Passou a imaginar quantos homens ela fez deitar junto ao seu corpo desavergonhado. Imaginou amigos-vizinhos-estranhos… Imaginou tanto quanto era possível imaginar…

“eu sou um trouxa meus senhores” – mas ninguém entendia nada – papo de bêbado –, desdenhavam dizendo “vai pra casa homem, tua Maria te espera”. Maria era mulher de verdade – perfeita. Que deixava a casa perfumada, lavava e passava, cozinhava. Era o sonho de todos os homens na cidade…

A noite começou e acabou... para chegar a casa Luiz Gustavo precisou da ajuda de três amigos. A safada abriu a porta – imersa em preocupação – guiou os homens até a cama – onde tirou os sapatos do marido enchendo-o de afagos e beijos para a inveja dos amigos presentes que cantavam em prosa a sorte do amigo.

“o que aconteceu com Luiz Gustavo?” – ninguém soube dizer – “esperei por ele a noite inteira. Quase liguei para os bombeiros. Ontem era nosso aniversário de casamento e ele não apareceu para o jantar. Fiz tudo com tanto carinho” – disse com lágrimas nos olhos…

“não liga Maria, todo homem tem seu dia de fazer besteiras na vida” – disse um dos homens tentando confortar a pobre Maria que agora já se sabia uma fingida… E como fingia bem a mulher. Convencia a todos, menos a Luiz Gustavo que já não se deixava mais enganar “safada” – murmurava ele ainda sob o efeito da bebedeira “oito anos sendo enganado” – resmungou antes de desfalecer junto ao travesseiro...

Quando Maria voltou com as compras do supermercado no final daquela manhã – seu marido já não estava mais em casa – tinha feito as malas… Ido embora. Deixando a casa, a cidade. Nunca mais ouviriam falar em Luiz Gustavo…

Maria ficou desolada por uns tempos. Durante o dia soluçava de tanto chorar… E durante a noite soluçava de tanto prazer… não demorou muito e, a moça prendada arrumou outro “Luiz Gustavo” pra cuidar e amar.

Voltou a sorrir, a cuidar da casa  e a causar inveja nos homens que a viam ir até o portão se despedir do amado com um sorriso nos lábios todas as manhãs. Entregava a ele um beijo miúdo e adocicado e acenava demoradamente para o homem da casa que partia para o trabalho e para o outro que chegava para lhe fazer agrados… Quase tudo voltou a ser tudo como era antes na Rua das flores!

 

 

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2 comments:

Marco Antônio said...

E a santa virou devassa. Gostei.
Mas o que será que vai acontecer ao fujão?

Dulce Morais said...

Muitíssimo interessante, Luna!
Esperava que não fosse tudo tão perfeito como anunciava a primeira parte, mas não estava à espera destes eventos.
Aguardo com impaciência a continuação!
Muito bom, este conto!
Até breve!

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