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O lobo e o silêncio





Você por um acaso já ouviu o som do silêncio?


Deus sabe que nunca fui um homem muito religioso, jamais me deixei seguir por doutrinas ou dogmas surgidos em algum ponto obscuro da historia humana.  Não há nada que a ciência não possa explicar.  Mas não posso negar, que quando criança tinha certo fascínio pelo mistério, pelos contos e relatos desses mundos míticos e místicos.

Mas com o tempo cresci, e deixei de olhar para esse tal mundo.  Minha única doutrina era: Não há nada que a ciência não possa explicar.   E o que ela não explica, um dia explicará.
Bem, pelo menos, assim acreditei, até ouvir o som do silêncio.

Era novembro de 1870, havia perdido meu tio, a última geração de minha família antes de mim.  Ele morava em um lugarzinho perdido entre as Rochosas, uma terra tão fria quanto bela. Perdi a conta de quantas vezes fui para aquele lugar. E quantas vezes, meu pai, eu e meu tio saímos para caçar. Sempre antes do inverno.  Meu tio dizia que o inverno era dos lobos. Somente eles poderiam caçar.

 Engraçado como nos lembramos dessas historias quando perdemos alguém. Elas parecem surgir apenas para fazer você viver mais uma vez com aquela pessoa que se foi.  E foi assim que me encontrei olhando para lareira na cabana do meu tio, lembrando-se dos meus 15 anos, em uma das caçadas, quando avistamos um cervo ferido entre as pedras.

Lembro como se fosse ontem, estávamos perto da nascente dourada, o terreno era irregular, devido ao rio YellowStone, e a falta de árvores na clareira. Possivelmente o pobre animal tinha pisado em falso e caído bem ali, naquele ponto. Eu iria atirar, já tinha feito à mira, quando meu tio afastou o cano da arma e disse para deixarmos o animal viver. 

Já havíamos matado outros antes, porque não aquele?  Meu tio olhou para mim e disse para ver mais do que com os olhos, ouvir o silencio.  O cervo era fêmea, e estava prenha. Tinha mais a oferecer ao mundo do que sua carne. 

Achei engraçado, questionei se sobreviveria com o inverno chegando e com a pata quebrada e recebi como resposta um sermão. Ele explicou que saber escolher a presa era à piedade do caçador, e sua maior virtude.  Aquele animal não era a nossa presa, e não cabia a nós escolher se viveria o morreria.
Retiramos a pedra que prendia o animal e continuamos nossa caçada pelas arvores.

Não sei bem como, mas aquela historia me deu vontade de sair para uma ultima caçada, mesmo de noite, e com o inverno a porta.  Peguei minha antiga espingarda e sai pela tundra, querendo rever aqueles lugares que marcaram minha infância.

Vaguei pelas trilhas até encontrar a nascente dourada. Queria ver o sol nascer, a nascente virava ouro puro com o toque dos primeiros raios do sol.  Por isso era chamada de nascente dourada. Quando a vi dei um belo sorriso, como uma criança de 15 anos, e fui subir os rochedos. Mas meu sorriso poderia ser de uma criança de 15 anos, meu corpo não.

Cai.

O terreno era irregular próximo a nascente do rio YellowStone.

Gritei de dor e senti o calor em meu tornozelo com as  pedras que caíram por cima dele. Forcei a pedra pra cima, rezando para não ter quebrado ou torcido. Foi quando ouvi pela primeira vez o silencio.  

A lua brilhava no céu noturno, e o vento, frio como aço, cortava a floresta até minha direção. E ai o vi. 
Eram olhos azuis, tão quanto uma pedra de lapis lazuli. Eram os olhos do lobo.

Ele estava no limite entra as arvores e a clareira. Dei um tímido sorriso e o lobo inclinou a cabeça para baixo, com os olhos fixos em mim. Achei que logo depois seria atacado por toda matilha, os caçadores do inverno nunca caçavam sozinhos.

Fiquei ali, em comunhão com meu medo, a natureza e minha recente ligação com a religião. Não sei se foram segundos, minutos ou horas, o medo faz com que perquemos a noção do tempo. Só lembro quando os primeiros raios de sol surgiram, iluminando as águas do rio até a nascente dourada. 

O lobo olhou para o nascer do sol, e eu o acompanhei. Vi ouro liquido escorrer pelas pedras até a cascata e seguir até o horizonte, onde o sol nascia. Olhei de volta para o lobo, e ele voltou a me olhar antes de dar as costas. Era a piedade do caçador.

Só então percebi que era um lobo solitário. Bruto ou sobrevivente, mas era um lobo solitário. Não sei o que o silêncio disse a ele. E até hoje, quando lembro, me pergunto se o lobo apenas foi até a nascente para beber um pouco de água e tudo não passou de uma absurda coincidência.  Mas então lembro do silêncio e o que ele me disse. O lobo só queria ver o nascer do sol como eu, estava sozinho como eu.

Coincidência ou não, a ciência não explica.


  

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4 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

R H Andrade, seu conto me prendeu do início ao fim. Parabéns que venham outros tão significativos, quanto esse.
Que possamos fazer do ato de sempre ouvir o silêncio, nossa oração diária.
Abraços.

Kizy Lee said...

E mais uma vez, sua alma transcende. Adorei o conto, como já te disse.

Com carinho

B. said...

Emocionante. Um texto diferente e metafórico. A gente só passa a conhecer/entender as situações, quando passamos por algo semelhante.

Dulce Morais said...

R.H., O conto é emocionante pela forma como se vê, se sente, se integra o silêncio que penetra em nós para nos fazer enxergar o que é invisível...
Gostei muito!
Abraço!

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