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Realidade...

Imagem da Web - Filme Laranja Mecânica 
(...)
- Mas será que é pedir muito a meus filhos que me permitam viver junto deles, agora que já estou velho? O pouco tempo que me resta não permite que eu espere...
- Mas o senhor estava fugindo da realidade, não queria mais lutar. E para se viver na realidade é preciso ver claramente as dificuldades e lutar para eliminá-las. No seu caso, o senhor não reconhecia mais a realidade, preferiu ignorá-la e fingiu, sem o saber, que ela não existia. A sua defesa contra o mundo ao seu redor foi deformá-lo, com a finalidade de obter a fuga às suas imposições. É a isso que chamamos de distúrbio emocional e acontece por muitas razões, como no insucesso ou após um trauma... No seu caso, o fator desencadeante foi o falecimento de sua esposa...  - Falou um dos médicos, o de pescoço comprido, não podendo evitar um sorriso de condescendência, como quando se fala com uma criança travessa e que não tem idade para perceber a gravidade de seu ato.
Nesse momento, levantei minha mão e me foi dada a palavra.
- Mas não seriam seus filhos que deveriam estar internados e não este homem?
- Não estou entendendo o que o senhor quer dizer... – disse o médico de pescoço comprido.
- Quero dizer – continuei – que não seriam seus filhos que estariam querendo fugir da realidade, quando o internaram aqui, justamente para não terem que lutar, de enfrentar as dificuldades de conviver com alguém que já não pensa como eles? Será que eles não se sentiram envergonhados de apresentarem-no como seu pai? O senhor mesmo acabou de dizer que para vivermos na realidade, devemos ver claramente a ameaça e lutar para eliminá-la? Penso que este homem, este pai, transformara-se numa ameaça para a vida social de seus filhos. E o que eles fizeram? Eliminaram a ameaça? Não. Antes a afastaram para longe, para onde não mais pudessem vê-la com frequência e, assim fazendo, iludiram a si mesmos ao acreditar que o fato de não mais estar à vista, não mais existia. Será que não foram eles que deformaram a realidade, enganando-se a si mesmos ao distorcer a realidade? E, por último, eu pergunto quem precisa de tratamento? Ele ou seus filhos?
- Apreciei muito a sua maneira de falar e conduzir seu raciocínio, disse-me o médico.  Porém, há algo que o senhor não considerou em toda a sua argumentação e que, infelizmente, invalida tudo o que disse. É o fato de que o senhor apoiou seu raciocínio no aspecto moral quando, o de que estamos falando, é de um distúrbio emocional. – Concluiu ironicamente, ciente de sua autoridade médica.
- Não se trata de uma questão moral? – continuei – Ora, quem são os considerados como portadores de distúrbios emocionais? Não são justamente aqueles que, por seu comportamento destoante, não se ajustam aos padrões morais da sociedade, não são justamente aqueles que inventam - dizem as pessoas consideradas normais - novas maneiras de ser, mas que, por não estarem de acordo com os padrões vigentes, são alijados do convívio social? E o senhor diz que não se trata de uma questão moral?
Podia-se ouvir um silêncio constrangedor. Então continuei falando.
- O senhor está separando o indivisível... É como viver em dois planos de existências diferentes. Um deles é aquele em que está acostumado com os lidares do dia-a-dia: é a escola, o trabalho, a família, as pessoas com as quais cada um convive... E o outro plano, é aquele em que o indivíduo vive e que tudo o que fizer dependerá daquilo que ela quer e pensa sobre a própria vida. É um indivíduo e, como tal, único! E este fato nada tem a ver com as normas sociais, embora a elas esteja preso, de certa forma. Dentre as diversas situações que se apresentam ao indivíduo, no decorrer de sua vida, ele pode ou não aceitá-las. Cabe somente a ele escolher...
Percebendo que as atenções de todos continuavam voltadas para o que estava dizendo, continuei falando.
- Ele pode viver mergulhado na mediocridade, em conformidade com os demais ou pode tentar ser ele mesmo e fazer o que achar merecedor de sua atenção e interesse. Fazer o que quiser fazer, sem interferir na liberdade do outro. Sua vida só a ele compete. Somente ele deveria poder decidir o que fazer dela. Afinal, trata-se da sua vida.
Quando acabei de falar, de outra cadeira do círculo formado, uma mão foi levantada.
(...)

# Fragmentos, por EP.Geramer 

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2 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

"Tentar ser ele mesmo e fazer o que achar merecedor de sua atenção e interesse. Fazer o que quiser fazer, sem interferir na liberdade do outro. "

E.P que prosa gostosa, e instigante. Parabéns cada leitura que faço fico mais fã .

Dulce Morais said...

Gostei muito desta reflexão, EP! O seu conto nos leva aos confins do que consideramos moral o imoral, ao que pensamos saber "normal" e "incomum".

Ofereça-nos mais desta prosa maravilhosa, EP!
Abraço!

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