Powered by Blogger.
RSS

Passageiro da agonia

     
Imagem da Web



     Ou bola ou búlica. Ao lado do coqueiro – hoje já grande – jogava e perdia. Perdia sempre. Mas, o que importava isso? Breno jogava e se alegrava. Bolas de gude eram apenas bolas de gude. Eu acho que ele poderia perder todas elas, menos a própria vida. Sim, esta era a causa primeira. Sem a vida, sem estar vivo, não poderia ser feliz. Ele era assim: peito magro aberto ao vento e ao mundo. Venha o que vier, estarei sorrindo – era como pensava. Antes, não pensava, pois pensar é coisa de gente grande. Sentia a vida em todos os seus instantes. O que nos faz lembrar o poema ‘Meus oito anos’ de Casimiro de Abreu. Nada mais verdadeiro do que este lamento romântico, mas o que importa o Romantismo, o Realismo, o Modernismo ou o Pós-modernismo? Que importa?! Seja qual for o nome dado ao estilo de uma época, ele sempre falará das mesmas coisas. A soma de dois mais dois sempre será igual a quatro... O homem apenas direciona os mesmos - e de sempre -, sentimentos para diferentes lugares, mas o arco e o alvo não mudam e a flecha leva a mesma mensagem. Assim, não falemos de estilos de época. Falemos do homem, pois, não poderíamos falar de outra coisa que não fosse dele. Acho que foi Adélia Prado que, numa entrevista, falou que só poderia falar dela mesma, enquanto mulher que sempre tivera a voz abafada e impedida de manifestar-se. Lembremo-nos dos antigos romanos; lembremo-nos dos Diários que, para os de seu tempo de criança, eram próprios das meninas. Meninos não escreviam Diários! Quantos foram escritos... Quantas coisas belas foram escritas e nunca ditas... Por quê? Porque aprendemos devagar e o resultado é a incompreensão seguida da confusão ou, talvez, possamos inverter estes dois substantivos. 

     Hoje somos adversários. De um lado os homens, mais grosseiros, sem sentimentos – sentimento é coisa do sexo frágil! -, com exceção dos boêmios, dos artistas, dos autores de letras de música... E música é coisa que os homens só se permitem ouvir quando estão bebendo e estão fora de si... - Ora, Faça-me o favor! E, do outro lado, as mulheres, o adversário defensivo, mas não mais fraco; apenas não acostumado ao confronto. Quantas não jogaram fora seus preciosos Diários com sua doçura e substituíram-na pela defesa agressiva, desconfiada e escondida. E com isso, perdemos todos nós, homens e mulheres, as delícias de um relacionamento amoroso e terno. Em seu lugar, fazemos contratos assinados na presença de testemunhas e diante de um juiz... Pelo amor de Deus!

     Mas falava do jogo chamado bola ou búlica. Não sei se você conhece ou conheceu este jogo de meninos. Tentarei explicar. Consistia de três pequenos buracos feitos no chão de terra, com aproximadamente seis a sete centímetros de diâmetro e uns dois de profundidade e que eram tornados redondos com um giro do calcanhar, distando um do outro, em linha reta, de mais ou menos um metro.

     O começo do jogo. Cada jogador, posicionado antes da primeira búlica, jogava a sua bola de gude procurando acertar ou colocá-la o mais próximo que conseguia da terceira búlica e o primeiro a jogar era aquele que mais se aproximava dela com sua bola. Em seguida, cada jogador, deveria percorrer com sua bola o caminho de volta, de búlica em búlica, até a primeira. Somente depois de feito este trajeto, estava um jogador autorizado a sair tecando – acertando– as bolas dos adversários. Quando um dos jogadores tinha sua bola tecada, deveria pagar uma bola àquele que o havia acertado. E assim prosseguia o jogo até a última bola dos adversários. Ou quando queriam parar para começar outra brincadeira.

     Breno queria continuar lembrando tudo, nos mínimos detalhes, para tornar presente e até, se possível, corporificar aquele garoto que fora na infância e que, embora não podendo adjetivá-lo, pelo menos podia dizer que ele nunca cresceu – eterno Peter Pan.

     E é esse mesmo menino, que não queria crescer – ai dele! -, que também era como o personagem de Swift em suas viagens: ora num mundo de gente pequena, ora num mundo de gente grande... Num mundo onde o machucam com suas arestas, seus pregos, seus ferrões... Um mundo feito de gente... De gente como ele!

     Na verdade se fosse rico, poderia dispensar a companhia das pessoas, mas justamente por isso – se fosse rico - ele não dispensaria. Sempre as teria ao seu redor. Que falem mal dos bajuladores, mas eles existem para a felicidade dos bajulados. Aqueles que falam dos bajuladores de maneira demeritória são os que ainda não encontraram alguém que os bajulem. Ambos saem ganhando. Tudo na vida é uma troca, como dizia um antigo – ele ia dizer amigo – professor. – Assim falava Breno.

     Por exemplo – continuou falando de si para si mesmo -, se fosse um escritor famoso, cada uma das letras que estou agora escrevendo valeria uma fortuna e eu não teria que ficar como estou agora, preocupado por estar gastando o meu tempo à toa, uma vez que ninguém irá ler o que escrevo.
      Gostaria que chegasse aqui em casa, agora, um amigo. Ao dizer isso estou pensando em outro pária como eu, o Bebeto. Escrevi este parágrafo pensando que ao terminá-lo, esse desejo tornar-se-ia real.
      Mas ninguém o procura... E porque deveria? Não tinha dinheiro para dar... Não era bajulável! Outra pessoa de quem muito gostava era Mara. Ela está sempre escrevendo mensagens para ele e que nunca são respondidas. Ele gostaria de poder lhe dizer que já não era o mesmo, mas isso destruiria tudo... Mas talvez ela entendesse... Será? Entenderia por algumas horas, até voltar para a sua própria vida e só se veriam novamente daqui a não sei quanto tempo... Seria apenas uma novidade, algo diferente para curtir... Outro dia um escritor se matou, não porque procurasse a morte, mas porque estava entediado da vida. Acho que era esse o seu caso. Quem são as pessoas que ele conhecia? Estavam todas distantes... Não eram pessoas que poderia chamar de amigas, eram apenas pessoas que, em algum lugar do passado, conhecera...

     Ele queria ter um lar, uma família grande com todos sentados ao longo dos dois lados de uma grande mesa. Ele e sua mulher sentariam à cabeceira e se olhariam felizes, como cúmplices por aquela reunião de filhos e filhas, genros e noras, netos e todos igualmente felizes. Quando o homem não tem falta de dinheiro, do mínimo necessário, ele pode se deixar levar pelo fluxo maravilhoso da vida e senti-la verdadeiramente. Mas não era rico e já não tinha família.

     Passava muito tempo procurando uma resposta à pergunta: quem sou eu? Sou uma pessoa completamente sozinha. Por que não dou cabo de minha vida? É porque não consigo. Já tentei mais de uma vez, mas parece que estou condenado a procurar a morte e de sempre vê-la fugir de mim, um desgraçado do diabo... Um filho deste tempo: o tempo do desamor. Agora me dou conta de que o Evangelho é algo impossível de ser seguido com as próprias forças e a cada fracasso só servia para que se sentisse imperfeito, pecador, amaldiçoado... Sou o uivo do dragão, da antiga serpente...

     Cheguei a um ponto da minha vida em que posso olhar para frente e para trás e ver que tudo não passa de uma mentira, de um sonho. Por isso, tenho o direito de não querer mais. Viver num mundo sem sentido, sem Deus e nada além do querer de cada um. É isto o que há para viver. É difícil se acostumar para quem esperou um sentido para a vida.

    E agora, que farei da minha vida? Aliás, é uma pergunta retórica... Procuro e não encontro forças para responder com uma ação. Por que fui pensar que poderia ser feliz seguindo apenas os meus caprichos? Está lá escrito para não se preocupar com o dia de amanhã. E foi isso que eu fiz. E o resultado é este... Morrerei à mingua de companhia. Cada vez mais só, vou ficando menor e tendo que recolher-me aos cantos para não ser pisado pelos adultos.
Quando eu for, não irei pela mão de outrem. Será pela minha própria mão que eu irei, só ela é digna porque faz o que penso; somente eu tenho esse direito. Não existe ninguém a quem eu confira este prazer.

    Minha pobre mãe, na minha infância, contava que sonhara muitas vezes um sonho e nele ela me via como um mendigo carregando um grande saco às costas. Será que antes de morrer ainda terei que passar por isso? Que venha logo, então! 

     Eu me pergunto, agora, neste momento, o que me impede de começar esta etapa voluntariamente? O medo! Medo é a resposta! Medo do Inferno, que quiseram me ensinar a ter? Não! Já foi dito que o inferno são os outros. E eu concordo...

Do rádio vem a música...


“Relógio detém seu caminho
Porque minha vida se acaba...
Ela é a estrela que ilumina meu ser
Eu
sem seu amor não sou nada...”


     Fazer esta noite perpétua, como quis o poeta... Só poeta mesmo! Perpétuo só o sonho. O homem nasce e morre e as gerações que vêm depois sonham e sonham e sonham... Como poderia ser diferente? Perpétuo é o sonho do homem, caso contrário, ao término da infância todos se matariam ou, para sermos mais complacentes, aguardariam o fim da adolescência. Porque depois... Depois é só vida sem sonho e vida sem sonho é morte.






  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

8 comments:

Sandro Panografia said...

Admirável texto EP. Gheramer, que nos leva em uma viagem ao tempo, em que crianças ( meninos ) brincavam com bolinhas de gude e o mundo parecia mundo maior e mais colorido do que o virtual da tela do Smartphone. Melancólico, porém, um tanto quanto lindo... parabéns meu caro ! Abraços

E.P. GHERAMER said...

Caro Amigo Sandro.
Verdade, caro Sandro - "Melancólico..." - Que mais podemos querer quando somos entendidos naquilo que escrevemos?
Um grande e forte abraço!

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

EP , gosto muito do seu estilo de escrita, sempre proporciona uma reflexão.

Bola de gude, búlica ( Quando um dos jogadores tinha sua bola tecada, deveria pagar uma bola àquele que o havia acertado. E assim prosseguia o jogo até a última bola dos adversários. Ou quando queriam parar para começar outra brincadeira.

Estamos sempre a brincar de búlica com a nossa parceira a vida. E nesse jogo o que não podemos fazer e querer jogar com a morte.

Beijos no seu coração.

E.P. GHERAMER said...

É inevitável, Claudiane... Enquanto fazemos esta caminhada maravilhosa que é a Vida, vamos sempre inventando novas brincadeiras.
Um grande abraço para você!

Dulce Morais said...

EP, caro amigo,
Li este seu texto como se bebe um trago de whisky: "queimou a alma, mas era isso que ela estava a precisar".
Em português, as bolas de guide chamam-se "berlindes". E, por estranho que parece, joguei muito a esse jogo no solo árido que me viu crescer...
Resta-me agora a levar comigo essas lembranças, a emoção que despertou em mim o seu maravilhoso conto, e a avançar sem nada temer...
Grande abraço!

Isa Lisboa said...

Talvez de certa forma continuemos a jogar os jogos da infância, mas em certa altura, deixamos de os jogar pelo puro prazer... Há que não desistir de procurar o caminho para voltar a esses momentos...!

E.P. GHERAMER said...

Que bom ter despertado tais lembranças de quando você diz que jogou as berlindes; aqui, no meu tempo, era jogo só de meninos e atualmente não sei se mudou, pois não moro mais em um bom e maravilhoso bairro de subúrbio - ficaram as doces lembranças...
Fico feliz que tenha gostado, Dulce.
Obrigado pelo Comentário.
Um grande e afetuoso abraço!

E.P. GHERAMER said...

É verdade, Isa. Há que sempre tentar guardar a inocência dos tempos de criança, pois, afinal, a criança ainda está dentro de cada adulto. Porém, é necessário ter cautela, porque se a tivermos poderemos sempre ser crianças - e ter prazer - em nossa maneira de pensar e agir, mas, repito, com cautela.
Grato pelo seu Comentário. Gostei muito, Isa.
Um carinhoso abraço!

Post a Comment

Publicações populares