Powered by Blogger.
RSS

Do Ato de Conhecer




      Ao levantar da cadeira onde estivera escrevendo mais uma carta, seu ombro chocou-se com o queixo daquele homem que estivera às suas costas, provavelmente lendo o que ele escrevia. Apesar de embaraçoso, aquele homem não dera mostras disso. Antes, endireitando o corpo, permaneceu em pé olhando seriamente para Alves.
      - “Não repreendas ao escarnecedor, para que não te odeie; repreende ao sábio, e amar-te-á.”. – disse o homem, de modo solene.
      - Mas o sábio não necessita de repreensão. – respondeu-lhe Alves.
      - Se queres falar ao homem desta época dominada pela ciência, utiliza a linguagem usada por eles. Aí então, pode ser que eles o ouçam. Oferece tua experiência aos outros, mas de uma maneira que eles possam entender e, talvez, aceitar. A linguagem persuasiva atual é a científica. – falou o homem velho.
      - Sim, concordo, Porém, nem todas as minhas descobertas são passíveis da utilização de tal linguagem; será que não ouvirão? – disse Alves.
      - Não. – o velho respondeu de maneira clara e incisiva.
      - Sei que através da ciência o homem evita muitas ilusões, mas acontece que seu tempo de vida é tão pequeno que não poderia evitar todas. Deve haver outra maneira de não se iludir. Será que algum dia existirá uma geração sem ilusões? – disse Alves.
      - Cada época possui o seu critério de verdade e o modo de chegar até ela. A época atual tem o seu. – falou o homem velho, como quem tem autoridade.
      - Sim, há razão nisso que falas. Na necessidade de falar aos cientistas sou levado a elaborar meu pensamento dessa forma para ser entendido por eles... – disse Alves.
      - Não somente aos cientistas, mas também ao homem comum que tem o seu apoio e coloca sua segurança nas verdades científicas. – falou, interrompendo o discurso de Alves.
      - Sim, é isso. – continuou Alves. Trata-se apenas de uma necessidade histórica momentânea o fato de se utilizar a linguagem científica para demonstrar a verdade, pois ela é atemporal, não é limitada por construções sintáticas.
      - Não tenho dúvidas quanto a isso e vejo que você também não as tem. Porém, a natureza humana tem necessidade de viver e se movimentar dentro de um espaço conhecido e que tenha a aparência de estabilidade para oferecer a segurança de seus atos dentro de limites conhecidos. Tudo o que foge a esta ordenação, é excluído por ela. – disse o velho, sorrindo.
      Só então, espantado, Alves deu-se conta de onde estava e de que aquele homem era um louco. Mas como – pensou – ele pode ser louco e sábio ao mesmo tempo? Alves não teve tempo de disfarçar esse pensamento.
      - Sei o que estás pensando. E por isso vou revelar algo que não sabes: eu li todas as cartas que escreveste, e não somente eu...  Mas também todos aqueles que, de uma forma ou outra, estão interessados no que andas fazendo desde o dia em que entrastes aqui. Mas isso não é o mais importante. O mais importante é que nas cartas dizes coisas que, agora, contradizem teu pensamento a meu respeito. Mas não se envergonhe por isso. Antes, aprende mais uma coisa: seja sábio. Isso acontece ao homem que aspira ao conhecimento e ao que não o faz. A diferença está em que o sábio sempre aprende com seus erros e suas contradições. O homem que busca o conhecimento encontrará um caminho cada vez mais seguro. Na verdade, ele caminha para trás, na esperança de algum dia poder olhar o mundo com os olhos sem as lentes que lhe foram colocadas, desde os primeiros dias após o seu nascimento. Ele luta para se ver livre de tudo aquilo que aprendeu sem querer aprender. Ele sabe que só então, começará a conhecer. – concluiu aquele homem velho.
      - Sinto muito, mas não pude evitar pensar... Concordo sobre o que disseste sobre aspirar ao conhecimento. O homem de valor deve separar os conhecimentos que lhe são úteis e ordená-los para não mais sofrer. É grande a bagagem de experiências que ele deve adquirir. É uma obra de longa duração e persistência e, sobretudo, de confiança em si mesmo e, ao mesmo tempo, também de uma dose de desconfiança em seu raciocínio e, igualmente, em seu julgamento. Os homens já deviam nascer com mais de trinta anos – disse Alves.
      - E qual seria a primeira condição – perguntou o velho – que deveria atender àquele que busca o conhecimento?
      - Penso que se um homem quer descobrir a verdade, quer ser o explorador do seu caminho ele deve, em primeiro lugar, abandonar seus amigos... – disse esperando ser interrompido, mas como o velho continuou calado, ele continuou.
      - Pois são justamente eles que sugam as energias das quais o explorador de si mesmo necessita para tal empreitada. Para conservar os amigos, é necessário abrir mão de muitas, senão de todas, as tuas opiniões; é preciso ser cordial e amável e isso toma todo o seu tempo. Assim, não tenha compromisso com outro além de você mesmo. É isso, em poucas palavras, o que eu penso. – disse Alves.
      - Não sei se entendi perfeitamente... – disse, como que esperando Alves completar sua resposta.
      - Já experimentaste dizer não a algum de seus amigos? – perguntou ao velho e sem esperar resposta, continuou. – Não?! Experimenta, então... Verás que não eram do tipo de amigos que esperava que fossem. O preço que um homem deve pagar para ter amigos é o de anular a si mesmo e de ser sempre coerente com eles... ser um mentiroso... Os amigos não perdoam aquele que decidiu, para seu próprio bem, caminhar por outro caminho, ouvir o rufar de outros tambores, como alguém já disse. E sabe por quê? Porque isso implicaria em que aceitassem que estão no caminho errado e isso, nunca admitirão! – disse já com o tom de voz alterado. Aí, então, encontram no comportamento da massa uma consolação e uma parceria para condenar aquele que os abandonou ao resolver procurar um caminho melhor. É tido como ingrato ou louco. Mas este louco sabe que procurar o conforto e a segurança no convívio com a maioria, adotando seus costumes, é um desperdício para a própria Vida. Por outro lado, ser corajoso para dizer não é uma virtude que poucos alcançam. A coragem é necessária para o homem que está inseguro fora da massa conformista. Mas, ao chegar ao seu objetivo, não precisará nem de amigos e nem da massa.
      - Fico contente de poder conversar com você, principalmente sendo tão longos os dias aqui. – disse o velho.
      Desconfiado e sentindo um ar de pouco caso no que o velho disse, ele não se conteve e falou:
      - Não devemos falar todo o tempo e nem falar tudo que sabemos, porque não restará nada mais a dizer no momento seguinte. O afastamento na solidão é necessário à descoberta de novas verdades. Elas vêm e vão como as marés... Devemos ser suficientemente razoáveis e humildes para poder perceber quando é uma e quando é outra. – completou Alves e afastou-se daquele homem, indo novamente sentar-se na cadeira, retomando sua obrigação para com a humanidade.


#Fragmentos

ISBN 978-85-366-1165-5

* Imagem da Wikipedia.

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

3 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

"O afastamento na solidão é necessário à descoberta de novas verdades. ".

A frase acima é uma verdade crucial, e poucos se sentem a vontade em conhecer os escombros que lhe sustentam.

E.P sou fã de seus contos eles mexem com nosso intelecto.
Abraços.

Gilberto de Almeida said...

Paulo de Tarso se isolou por 3 anos no deserto antes de iniciar sua missão apostólica! A conquista da verdade exige recolhimento e silêncio interior. Adorei ler seu texto, E.P.

E.P. GHERAMER said...

Caros Claudiane e Gilberto.
Vocês já sentiram que não estão sozinhos no que diz respeito ao que cada um pensa? Pois foi o que senti quando li seus Comentários.
Agradeço suas preciosas companhias.
Um fraterno abraço!

Post a Comment

Publicações populares