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Um brinde a Murilo Rubião



     Com um “Dever de casa” para fazer, vi-me em situação difícil. Esclareço. Neste dever, a professora não me pede para escrever um texto literário, não. Nele, devo emitir minha opinião sobre a linguagem e o conteúdo dos contos de Murilo Rubião¹. Tal exigência deixa-me sem defesas e disfarces: não posso esconder-me por trás do narrador e nem posso fazer-me de personagem. Assim, pego de calças na mão e sem ter para quem apelar, lanço mão do último recurso que me resta e invoco a minha condição de aluno, aquele ser que pode ignorar sem receio e, até mesmo, ter a pretensão de saber tudo. É nesta condição de aluno, aliás, verdadeira, que passo a escrever em primeira pessoa.
     Qualquer texto literário deve ter a capacidade de trazer o leitor para dentro da realidade criada pelo autor. Assim me parece. O texto opaco não foge a esta exigência, porém exige maior maestria por parte do autor.
      O leitor não tem que ser advertido de que está diante de um texto opaco. A opacidade - penso - não deve estar na dificuldade de entender o texto, mas, sim, na realidade que foge ao senso comum, à lógica com que estamos habituados a conviver e atuar no dia a dia e que, por isso, exige uma participação mais efetiva do leitor.
     O texto opaco não é, necessariamente, um texto difícil, não. Um texto pode ser de difícil entendimento por diversas razões e que vão do fato da pessoa ser analfabeta, num extremo, até a deficiência completa do autor em se fazer entendido, no outro extremo. Neste caso, estamos diante de um leitor e um autor opaco, completamente - além de estarmos diante de um texto não literário.

      O texto opaco, de qualquer gênero deve ser capaz de atingir as profundezas do leitor, isto é, o “leitor implícito”, se me permite usar a expressão em contrapartida a de autor implícito. Ora, se isto é verdade, um texto será tão mais opaco quanto mais o autor atinja as profundezas de si mesmo e seja capaz de expressar com clareza, embora desestabilizadora, um ponto de vista diferente (estranheza). Quanto mais fundo de si mesmo se perscrutar o autor e conseguir expressar o que lá dentro viu, mais estranheza, evidentemente, vai apresentar, mas, se o autor é um ser humano – não um marciano – como todos nós, o que ele nos apresentar, terá a capacidade de tocar no sino que todos temos em comum, dentro de nós. Por outro lado, parece-me que todo texto tem o seu grau de opacidade, independentemente do fato de procurarmos chifres em cabeça de cavalo. A opacidade é uma das características do texto literário.
     Não raramente temos vergonha de dizer que não entendemos algo que outros entendem. Já se foi o tempo – graças a Deus – em que eu era um leitor ingênuo completamente, embora ainda o seja em parte. Escrevemos para pessoas comuns, para pessoas que não estão preocupadas, ou melhor, interessadas nos voleios da linguagem; não se trata de nivelar a literatura por baixo, não. Se não me engano no termo, há estudos sobre a “recepção” dos leitores e eu acho isso muito bom. O estudo da interação entre autor e leitor beneficiará a ambos, uma vez que o autor disporá de maiores conhecimentos para atingir o “leitor implícito”. Acredito na unidade do indivíduo por trás da multiplicidade de seus aspectos e acredito, também, que cabe à literatura atingir tal unidade.
     Bem, agora chegou a hora de enfrentar a fera. Vamos a Murilo Rubião. Antes, relembro aqui a minha condição de aluno, ser ignorante e pretensioso. Começo citando suas palavras de quando elabora um texto: “Reelaboro a minha linguagem até a exaustão, numa busca desesperada da clareza. Se usasse palavras impregnadas de símbolos seria dificílima”. Ele busca uma linguagem clara e direta porque o conteúdo de seus contos já é por si demais complexo e evita palavras impregnadas de símbolos; a sua opacidade não estaria, pois, nas palavras em si. Podemos questionar o acreditar na intuição e desconfiar da elaboração exagerada? – será que uma coisa exclui a outra?
     Em outro ponto, Rubião afirma que “quem não acredita no mistério não faz literatura fantástica”.
      Ainda ele: “... fui influenciado pelo Velho Testamento e pela Mitologia Grega. O que seriam a Metamorfose e Teleco senão a reinvenção do mito de Proteu...” e mais adiante “Os escritores são, de certa forma, profetas dos tempos modernos. Fazem parte dessa vaga de filósofos, sociólogos etc., que consegue centralizar as novas noções éticas, as ideologias nascentes”. Aqui, ele aponta o tempo todo para a renovação, a transformação e para o absurdo da estagnação! Seus textos incluem uma crítica ao que não se renova ou só se repete.

     Por outro lado, deixando as palavras de Rubião, concordamos em gênero, número e grau com as palavras de David Arrigucci Junior² quando ele diz que “na verdade, se está diante de uma quase completa ausência de antecedentes brasileiros para o caso da ficção de Murilo, o que lhe dá a posição de precursor, em nosso meio, das sondagens do supra real”. Concordamos também com Arrigucci quando ele diz que a linguagem de Murilo é uma “linguagem quase jornalística”.
     Por fim, mas não por último, não compartilhamos da visão aristotélica que o autor tem da realidade. Sob esse aspecto, tendemos mais para a visão nos moldes platônicos. Acreditamos que a supra realidade só pode ser alcançada quando vamos além dos parcos cinco sentidos de que fazemos uso. Precisamos melhor apreensão, o que somente será possível aumentando os nossos receptores, isto é, procurando novas formas de perceber a realidade, algo assim como certa autora falou sobre Guimarães Rosa³ quando ele escreveu A Terceira Margem do Rio – estava em “estado de graça”. É disso que falo: estar sempre em estado de graça, de tal maneira que, depois de nos habituarmos a ele, um novo estado de graça se faça necessário. Acredito na mudança para melhor. 
     Um brinde ao nosso precursor, Murilo Rubião!

     - Tchim-Tchim!



 
² David Arrigucci Junior – Ver
³ Guimarães Rosa – Ver

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1 comments:

Dulce Morais said...

Interessantíssimo, EP!
Ainda na passada semana lia uma análise de certos textos de Fernando Pessoa em "O Livro do Desassossego", e achei interessante a forma como, para uma ideia complexa, é possível encontrar palavras que a digam de forma simples, e vice-versa.
Gostei desta experiência de leitura!
O aluno pode recomeçar quando desejar, porque é mesmo muito interessante lê-lo! :)
Abraços!

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