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Zeitgeist



      Depois do acontecido, tomando da pena, ele começou a escrever a carta.

      Prezados Senhores.
      Por que excluímos um tipo ou vários tipos de pessoas? Estou falando das pessoas internadas nos frenocômios do mundo todo. A resposta tradicional é que não são normais. Ser normal implica em expressar-se dentro de um limite; ser normal é você andar sobre os trilhos – limites - do trem e nunca sair deles porque, se sair... o trem lhe pega. Engraçado... Não deveria pegar justamente quem estivesse andando neles?
      Podem vocês, profissionais de saúde mental, tornarem-se imunes aos sentimentos de um paciente? Existem regras sobre como fazer isso? São válidas, isto é, são verdadeiras? Devem ficar imunes para o bem do próprio paciente? Ou não devem?
      Acho que é mais uma questão do modo como se vê as coisas, do que ser ou não imune. Uma coisa precisa ser estabelecida como ponto número um: tudo o que for feito deve interessar somente ao paciente, ao seu bem estar.
      A necessidade de viver em grupo obriga a sociedade a excluir aqueles que não podem acompanhar as normas instituídas por ela mesma e que, a cada dia que passa se tornam mais numerosas e específicas – embora não seja percebido – e, portanto, cada vez menos fáceis de serem seguidas.
      A normalidade é estabelecida socialmente e para um dado momento presente que, embora se altere a cada instante, somente pode ser visto de um ponto de vista histórico, isto é, do futuro. Se assim é, creio que está fora do nosso controle o estabelecimento e a determinação do conceito de normalidade, embora ele se estabeleça sempre. O que acontece é que o homem quer dar uma ajuda e determinar, com régua e compasso, o que é a normalidade, o que é ser uma pessoa normal.
      Na verdade, deparamo-nos com dois tipos de normalidade: a natural, própria ao animal humano e aquela que é criada. A natural é mais tolerante, mais elástica... mais humana. Já a outra não tem elasticidade, é intolerante e, por isso, podemos dizer que não é humana, do ponto de vista natural.

      Existe isso ou tudo não passa de um raciocínio conduzido por uma mente doentia de um paciente, podemos perguntar. Acho que sim, isto é, acho que sob a visão da normalidade criada eu sou um paciente. Porém, sob a visão da normalidade natural, posso dizer que sou uma pessoa saudável. Trata-se do confronto de dois pontos de vista, nada mais do que isso - maioria e minoria.
      Ora, se estou, através desta carta, levando tal indignação à mente dos senhores, é porque consigo ordenar meus pensamentos e transcrevê-los e, mais, se estou sendo entendido por qualquer um, é porque sou uma pessoa mentalmente sadia, apesar de inconveniente para muitos. E não nos esqueçamos de que intelectual não é maluco, é excêntrico. Loucura é para pobre. Claro que é mais que uma piada. É um caso sério – muito sério mesmo! Duas normalidades - veja você! Não é esquisito isso? É uma loucura!
      Se acompanharem minha argumentação sobre a existência de duas realidades, acredito que poderei continuar a falar às suas mentes científicas. Pois bem, se existem duas normalidades, uma delas é falsa. Porém, se não concordam comigo, isso ocorre por dois motivos – um ou outro: ou não sabem ler corretamente os símbolos da escrita e por isso não conseguem entender o que escrevo ou, então, eu é que não estou sabendo usá-los de forma a ser entendido.
      Realidade é aquilo que se nos apresenta e afeta a todos, indiscriminadamente, sem exceção. O que é diferente é a maneira pela qual cada um reage a ela, colocando-se perante ela. A realidade criada, aquela que sustenta a normalidade criada é aquela que não aceita o que é diferente. Diante desta, todos devem reagir da mesma maneira ou da maneira mais próxima possível.
      Penso que aqueles que escrevem devem conhecer bem as regras gramaticais, porém, acho que a atenção exagerada a ela limita o homem na sua capacidade de expressão e, depois de algum tempo, aqueles que assim o fazem, deixarão de comunicar seus pensamentos, somente porque não podem ou não conseguem dizê-los dentro deste espaço gramatical. Para ser útil, a palavra deve ser sinônima do pensamento. Caso contrário, estaremos agindo verbalmente de maneira impensada, sem sequer saber sobre o que estamos escrevendo, realmente – seremos autômatos!
     É um quadro triste, não é? Duas normalidades, duas realidades... Isso não me sai da cabeça e não gosto do que vejo: a falsa é perniciosa e é ela a responsável pelos males humanos. É preciso removê-la!

Atenciosamente,
João Alves Firmino da Silva

#Fragmentos



*Imagem da Web



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6 comments:

Gilberto de Almeida said...

A questão da normalidade é sempre uma questão polêmica, E.P. É algo que vale a pena ser discutido e rediscutido, sobretudo quando a definição do normal e do anormal têm impacto na qualidade de vida do indivíduo e da sociedade. Obrigado por trazer o tema à tona. É sempre oportuno!

Dulce Morais said...

EP,
E se ser "fora do normal", diferente, fosse apenas o traço que nos leva a sair da caixa fabricada por outros onde nunca coubemos?
A sociedade rejeita o que desconhece, o que é diferente, porque teme que isso venha perturbar a sua aparente tranquilidade. mas, porque também faço parte dessa sociedade, acredito que também haja nesse afastamento do que sai da linha recta, algo que poderia assemelhar-se a... cobiça... Não de riquezas, mas de liberdade!
Gostei muito da reflexão!
Abraço!

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

EP,
Engraçado que seu conto me trouxe a memória alguns alunos diagnosticados informalmente pela comunidade escolar como anormais...

Hoje mesmo durante a aula de Artes, um "desses" me fascinou. Enquanto todos estavam desenhando com a cola colorida ele pegou concentrou várias cores em um lugar só , depois pegou a tampa da cola e usou a concentração de tintas como se fosse almofada de carimbar . Eu fiquei ali parada vendo surgir uma ilustração superbacana.
Ainda bem que me considero anormal, imagine esse aluno na mão de uma professora normal.
Concordo com o Gilberto, em relação a questão polêmica e com a Dulce quando diz que a sociedade rejeita o que desconhece, porque teme que isso venha a perturbar a possível tranquilidade.

Obrigada por mais essa riquíssima reflexão.
Bjs no seu coração.

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...
This comment has been removed by the author.
Isa Lisboa said...

Pois é, como dizer quem são os loucos, como classificar o normal e o anormal? Quem somos nós para dizer que somos sadios? Normais? Assim-assim?

Excelente reflexão essa que nos propõe, E.P., parabéns! Abraço

E.P. GHERAMER said...

Muito obrigado a cada um de vocês pelo carinho em postarem seus preciosos pontos de vista.
É um privilégio contar com tais Comentários!

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