Se há uma coisa que posso dizer que detesto, esta coisa é
entrar em fila. Vou contar o que me aconteceu certo dia em que precisei
descontar um cheque no banco.
Tarde quente. Eu me vesti, apanhei o cheque, coloquei os óculos
escuros e saí. O asfalto pisado parecia tapete de sala. Fui andando até o
centro da cidade. Quando dobrei a penúltima esquina que me separava do banco,
quase esbarrei no homem parado, desviei e continuei andando. Na frente daquele
homem havia uma senhora, na frente dela outra senhora, depois um homem, depois
outro, e outro e outro... era uma fila! Tá doido sô! - pensei. Apertei o passo.
Andando ao longo da fila acabamos por chegar junto à porta
do banco... Estanquei, devo ter ficado pálido, virei-me e contemplei –
horrorizado - a imensidão daquela fila. Hesitei... Enfrento ou não enfrento a
desgraçada? Lembrei-me dos bolsos vazios e decidi – fui obrigado – a enfrentar.
Que remédio? Andei para o rabo da fila e posicionei-me, aceitando meu trágico
destino.
Eram duas e meia da tarde e o sol batendo em mim. Ali,
resignado, fiquei a olhar distraidamente os passantes felizes, pois eles não
tinham que estar na fila. Quando enjoei, passei a ouvir a conversa de duas
senhoras atrás de mim que reclamavam do governo e logo o homem da minha frente
também se virava para dizendo que o país estava precisando era de uma revolução
para acabar com aquela pouca-vergonha e blá-blá-blá. Cansei de novo. Voltei aos
felizes passantes que, me parecia, riam de nós. Ali parados sob o sol quente,
rendidos ao poder supremo do dinheiro. O suor pingava. Ah! Um banho frio
agora...
Depois de uma hora eu estava quase no meio da fila. Detesto
fila. Então fiquei a pensar: depois que descontasse o cheque, iria comprar umas
folhas de papel há muito precisado e, depois, para compensar todo aquele sacrifício,
iria fazer um lanche na Confeitaria Modelo, em frente à estação das barcas – um
salgadinho e um caldo de cana. Depois, fumaria um cigarro, tragando forte, que
era pra compensar o tempo que levei na fila sem fumar: sim, porque fumar em
fila, debaixo de sol quente, não tem graça nenhuma. Então, refeito, pegaria o ônibus
para casa, onde tomaria aquele banho frio de meia hora. Que droga, essa fila não
anda!
Às quatro e meia, quando consegui, finalmente, entra no
banco, vi-me diante de vários guichês e, em frente a cada um deles... uma fila
terrível! Mas já estava perto... levei uma hora, marcado no relógio, nesta
filinha. Peguei meu dinheirinho e saí, olhando para os filantes, pensando comigo que eles deviam estar mortos de inveja de
mim.
Passei na papelaria. Escolhi o papel que precisava e fui ao
caixa para pagar... Ah! Não! Outra fila?! – falei um pouco alto e uma dona que
estava perto me olhou com olhos espantados e se afastou. Sim, tinha uma fila
pra pagar. Bem – pensei com meus botões -, para quem enfrentou uma fila de duas
quadras, aquela ali era pinto. Enfrentei
e paguei. Fui até o balcão de embrulhos. Ali não havia fila... Havia um
amontoado de pessoas, grudadas umas às outras pelo suor, que tentavam pegar
suas compras. Afinal, peguei e saí. Ensopado de suor, agora eu ia comer.
Fui descendo a rua até as barcas, dobrei à direita e cheguei
até a confeitaria. Será que ainda tinham aquele salgadinho? Fui ver. Tinha. No
balcão um cartaz: “Fichas no caixa”. É porque tem muita gente que come e depois
sai, distraidamente – ou será disfarçadamente? – sem pagar, e aí, o pessoal que
é dono de comércio de lanches inventou essa de primeira pagar, depois comer. Tinha
fila pra pagar. Mas era uma fila diferente porque, enquanto a pessoa andava, ia
olhando os salgadinhos atrás dos vidros. Paguei, comi, bebi e saí.
Parado na porta, eu acendi o cigarro e traguei forte... Olhei
para um lado, olhei para o outro... gente pra lá e gente pra cá... Fui pra lá
pegar o ônibus. Agora faltava o banho frio. No ponto do ônibus, outra fila,
mas, aleluia, seria a última do dia e de muitos próximos dias, eu juro! O ônibus
veio, entrei, paguei e fiquei em pé, não tinha lugar sentado. De repente, eu
percebi que em pé no corredor do ônibus, junto com outras pessoas, parecíamos
uma fila, onde ninguém andava - quem andava era a própria fila, carregada pelo ônibus...
Afastei da cabeça aquele pensamento. Tudo bem, era a última; já estava pertinho
de casa e iria tomar um banho frio; logo eu ia melhorar. Fila? Se Deus quiser,
não tão cedo – pensei exausto.
Saltei do ônibus, andei dez metros até o meu edifício, subi
a escada, toquei a campainha, meu irmão abriu a porta, entrei direto para o
quarto, tirei a roupa, fiquei só de sunga, peguei a toalha e fui para o banho. Ao
chegar ao corredor, o que vejo?! Meu irmão, toalha no ombro, encostado na porta
fechada do banheiro, perguntando à minha mãe se ela ia demorar no banho... Ah!
Não! Fui direto para a área do apartamento, enchi um balde com água e, com um
canecão, tomei banho ali mesmo, sob os olhares curiosos de meus vizinhos. Eu
havia jurado que em outra fila eu não entraria tão cedo. Ai, que banho bom...
EP.Gheramer
Imagem: Web
4 comments:
Kkkkk pelo amor, que dó, mas acaba sendo engraçado. Fila é nossa sina. Parabéns pela crônica Adorei!
Que desespero, EP!!! Até em casa? Mas pelo menos a experiência rendeu uma crônica bem humorada! Obrigado!
Adorei sua crônica E.P. Gheramer kkkkkk ... veio a lembrança por diversas vezes das situações por você citada. Por último a fila para o banheiro de casa ( imagine a casa de meus pais com 11 filhos ?!! kkkkkkk ) Parabéns meu amigo ... abraços !
Ahahahah Era dia de apanhar fila mesmo!!! Há dias assim, mas depois de um banho tudo fica melhor, não é mesmo? ;)
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