DAS NECESSIDADES
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Conto,
EP. Gheramer
É possível que o comportamento da
maioria
não seja o mais de
acordo com
a natureza humana e, por isso,
não deva ser chamado normal.
- EP -
Fez-se silêncio. Aquele a que estão acostumados os homens que sabem da
sua necessidade para que possam refletir sobre o que conversaram. É muito
diferente daquela que acontece entre os homens comuns. Naquela ocorre um
diálogo e nesta um monólogo a dois. Somente na primeira há crescimento mútuo.
Alves foi quem primeiro rompeu o silêncio.
- O caminho que leva à verdadeira Vida deve ser percorrido sozinho. Por
isso a dificuldade em encontrar andarilhos nele. São tão poucos, que o mais
próximo nunca será visto. É um caminho solitário e percorrido com alegria cada
vez maior, embora aquilo que o levou até ele tenha sido a tristeza. Para manipular,
o poder necessita da crença de que a solidão é algo triste e que, por isso, deve
ser desvalorizada para não ser buscada. O homem quando fica sozinho é perigoso,
pois ele pode pensar e isto é preciso ser evitado a qualquer custo.
- Continuas com razão – disse o Velho -, porém, ainda está pensando de
forma profunda demais. Se quiseres falar à multidão deves ser acessível para
que possas ser entendido sem nenhum esforço.
- Podemos culpa-los por isso? – perguntou Alves.
- Acho que não. – disse o Velho - Eles encontram-se tão exaustos ao
final do dia, depois da luta pelo pão de cada dia. E isso para falar do homem
que trabalha para sobreviver. Nos outros casos, ele trabalha para atender as
exigências de consumo de produtos que são, muitas vezes, supérfluos.
- Isso se pensarmos que do que o homem precisa para viver e que é,
basicamente, comer, beber e ter um teto para morar. Não concordas?
- Concordo caro Juvenal. - Era a primeira vez que Alves se dirigia ao
velho pelo nome. Como seria bom se o homem não precisasse trabalhar para outro
homem, desperdiçando suas energias em fazer coisas que só servirão, na maioria
das vezes, aos interesses dos patrões e obedecendo a ordens que há muito tempo
não mais procuram entender. E ao chegar a casa no final do dia, ele só tem forças
para ir da porta ao prato de comida que come diante da televisão e daí para a
cama. O que come alimenta seu corpo para a servidão do dia seguinte e o que vê
na televisão o faz acreditar que a vida é assim mesmo. Como podemos esperar que
ainda tivesse consciência de que está sendo enganado para poder ser usado? - Tens razão. – disse o Velho. – Suas
palavras e pensamentos são privilégios da reflexão. E ele não tem tempo para
isso. Os homens que usam outros homens inventam mil maneiras para que pensem que
estão sendo úteis e corretos ao colaborar para o bem do grupo, para o
engrandecimento da nação, para a salvação do planeta, para evitar o efeito
estufa que está destruindo a camada de ozônio e de outras coisas das quais ele
nada sabe e muito menos entende, mas acha que sim. Pobre homem que é impedido
por seu próximo de viver plenamente a vida a que tem direito.
- Posso ver que existe em seu interior, meu amigo – falou o velho – um
vazio muito grande e que o leva a olhar para dentro de si mesmo com uma imensa
tristeza, que se transforma em autoflagelação. É um enrolar-se sobre si mesmo,
em virtude da impossibilidade de voltar-se para o exterior que não tem nada
para lhe dar.
- É verdade – concordou Alves.
- E aí – continuou o Velho -, fica só escutando seus pensamentos varando
este grande vazio, tira conclusões, enxerga verdades e procura viver por elas.
O sofrimento é a característica deste seu modo de viver. Penso que somente
quando conseguir expressar tais verdades é que estará livre dele. Sua mente não
cessa de produzir pensamentos que, se não exteriorizados, acaba prejudicando
seu próprio funcionamento, fazendo-o errar nos pensamentos seguintes. É
necessário descarregar, é preciso ser entendido para que possa ser útil, tanto
para si quanto para os outros. Os filósofos pertencem a esse tipo de homens, e
também os cientistas, os sábios e os poetas. E por que não acrescentar os
loucos?
- Há nisso tudo que falas uma grande dificuldade – disse Alves. Os
homens comuns não estão preparados para enxergar coisas diferentes daquelas a que
foram ensinados. Não será esta a verdadeira loucura? Aquela que ignora a
realidade existente e em seu lugar constrói outra? O excesso de regras
embrutecem os homens e os levam a seus hábitos ancestrais simiescos, segundo a
ciência.
- Talvez possamos...
Ia continuar quando a conversa foi
interrompida pela hora do almoço.
Imagem: Web
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5 comments:
E.P, seus textos são como imãs que seguram em nossas mãos e nos levam para o mundo interior.
Quando acabei de ler "Das necessidades", fiquei a pensar, como atingir esses homens comuns, respeitando o grau de evolução de cada um ?
É o que me pergunto, Claudiane...
Grato pelo seu amável Comentário.
Um grande abraço!
Maravilhoso, como sempre!!! Dá gosto de ler e nos põe a pensar...
Sim...Talvez seja essa a verdadeira loucura!!
EP, como sempre, você nos convoca à reflexão, o que é ótimo. Vejo nesse diálogo, a porta entreaberta que convida à jornada do auto-conhecimento. As referências ao silêncio e à busca pela Verdade, para mim, traduzem um chamamento inconfundível; o chamamento a um universo de conhecimentos que o homem só adquire quando permite-se desvincular do incessante apelo sensorial do mundo exterior para que possa ouvir com clareza a voz "Divina" que ressoa no imo de sua alma... Trajetória árdua, dificílima, mas possível... além de ser a única que vale a pena! Obrigado por este convite precioso!
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