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Ecce Homo

          


     Da janela, olhando para os carros e pessoas que passavam na rua, Alves se assemelhava a um cérebro com duas pernas, dada a sua intensa atividade mental. Pensava consigo mesmo: lá fora a multidão caminha, é uma massa sem rosto com pessoas que falam e gritam umas com as outras. Iludidos, riem e choram. Dão a vida por qualquer coisa e nessa confusão reina a incompreensão caminhando pelo mundo neste tempo sem fim. 
     Eram amargos os seus pensamentos e ele se dava conta disso. O que ele mais queria é que houvesse neste mundo um oásis de calma e tranquilidade, onde pudesse deitar a cabeça e sentir que o mundo fora feito para ele ser feliz. Sentia-se incapaz de conviver com aquelas pessoas. Deveria haver uma harmonia, mas não... O ser humano está entregue às baratas; já não se pensa mais, as coisas são aceitas como elas aparecem, sem nenhum questionamento. Assim, já não são mais indivíduos com pensamentos próprios e se tornaram numa massa homogênea que é controlada e manipulada para servir aos interesses de alguns. Cada ser que nasce já encontra um mundo padronizado. É a ciência sendo usada pelo poder para controlar a massa, constituída pelo povo. A propaganda motivando o consumo de produtos, ideologias e qualquer outra coisa que queiram. Eram os poderosos em ação! Era necessário haver coerência. Grita o povo pelas ruas e de que adianta isso, se o que reivindicam já está pronto para ser dado a ele. A massa só reclama o que eles querem. Eles criam simultaneamente a vacina e o veneno, mas apresentam primeiro o veneno e só depois o vacina, para lucrarem com isso, dando a sensação ao povo de terem sido atendidas suas reivindicações. Falta coerência. Mas que significa ser coerente? – Se perguntava. Ser coerente deveria significar expressar comportamentos, sentimentos e pensamentos estereotipados? Não. Os sentimentos e pensamentos já não saem mais do coração, porque já não existem indivíduos – seus corações foram cauterizados. O que há é a multidão como um ser que vive. É dado a ela o que sentir e pensar, oferecidos em embalagens douradas e prontas para serem consumidas. Ser alegre é ser assim, amar é assim, politicamente correto é ser assim... E por aí vai. É desta triste maneira que todos procuram na conformidade a segurança há muito perdida quando deixaram – ou foram levadas a deixar – a espontaneidade. Existe uma moral anônima, uma avaliação e classificação das ações humanas, previamente preparadas para o ser que nasce num mundo de pessoas que já não precisam pensar por si mesmas. É mais cômodo assim, pode alguém pensar, mas não Alves. Tais padrões são apresentados e tidos como expressão das necessidades de uma comunidade. É incessantemente repetido para ser ouvido desde a infância que o bem do grupo vem em primeiro lugar e que só assim a humanidade sobreviverá. Tais eram os pensamentos que povoavam sua mente.
     O Velho veio juntar-se a ele na janela e ficaram os dois olhando para fora. Parece que algo aproxima as pessoas que olham numa mesma direção.
       - Em que pensas? – perguntou o Velho sem desviar o olhar.
   - Penso nas pessoas que caminham sem saber para onde, carregando somente ilusões. Penso nos homens que vivem numa agitação constante e sem a paz tão sonhada e nunca alcançada.
   - Curioso você pensar sobre a isso, pois, é justamente sobre ela que estou pensando. Penso na paz que tenho ao me deixar levar pela fluidez da vida. Amo a paz que sinto como o trabalhador ama e se realiza naquilo que faz com amor. Somos iguais, apenas fazemos coisas diferentes. O que procuramos é o que encontramos. Busco sempre em lugares calmos e onde possa me concentrar e assim sentir o som do mundo e sentir que a Vida vale por sua totalidade e – continuou falando – o que me separa da multidão é algo que possuo e ela não e que, por seu lado, ela também tem algo que eu não tenho. Não julgo que esta diferença entre nós seja o fato de eu pensar e ela não, pois, ela também pensa. O que acontece é que ela age mais do que pensa; ela vive a Vida e eu a observo. 
      - E o que podes ganhar somente observando a Vida ao invés de vivê-la? - perguntou Alves.
   - Aprender como viver bem, embora tal aprendizado, não raramente, somente seja alcançado quando temos mais passado e menos futuro. 
    - Mas não será essa – disse Alves – uma maneira de viver? Observando como os homens vivem, notamos como eles acreditam em absurdos e exigem o mesmo dos outros e de si mesmos. Seria melhor não estar vivo? Veja o caso da humildade e da bondade. Observando a multidão, podemos ver que são duas virtudes que nunca andam juntas e, no entanto, essa mesma multidão apregoa que o indivíduo bom é aquele que é humilde.
       - Por que pensas assim? – perguntou o Velho.
     - O que a maioria acredita que é a humildade? Não é verdade que eles chamam de humilde aquele que é pobre materialmente e estendem esse pensamento a todo indivíduo pobre? Para ela, aqueles que não têm nada para dar – se entendermos que ela julga segundo o que a pessoa tem e não o que ela é – é o humilde. O que tem algo e dá, é julgado bom. Ora, continuando com este pensamento, o humilde não pode ser considerado bom porque não tem nada para dar e este não pode ser aquele que é humilde, pois o humilde nada tem para dar. Assim, se tomarmos o que acabo de dizer como correto, a humildade e a bondade nunca estarão presentes num mesmo indivíduo. 
     - Meu amigo, este é um pensamento muito profundo e não consegue pensar assim aquele que faz parte da multidão. O que multidão sente não passa pela razão. A massa não pensa.
         Alves perguntou:
         - Por que afirmas isso?
       - Se lhe fosse dada a liberdade para pensar, não poderia mais ser controlada. Podes ver a razão disso em você mesmo. Onde foi que este pensar sobre o que sentia o levou? Ele o trouxe para aqui.
    - Tens toda razão no que dizes – respondeu Alves. Talvez esteja justamente aí que está o ponto. O meu desconforto com o controle e a consequente manipulação. Veja o caso das crianças. São dadas tão poucas chances de manifestarem-se como desejam e, assim, sufocam a própria vida que trazem em potencial dentro delas. E o que acontece? - podemos perguntar. São poucos aqueles que retomam o fio da meada, digamos assim, e nascem outra vez para a Vida. A sociedade aniquila a Vida tão logo ela se manifesta e os homens são transformados em cadáveres assassinos que não permitem seres vivos no seu mundo de fantasmas, porque causariam pavor – disse Alves.
    - Sim, disse o Velho. Quanto sofrimento seria evitado se não houvesse pais e escolas com consciência de rebanho . É na escola que se continua a aprender tudo àquilo que depois precisa ser desaprendido, com grande dificuldade. Por outro lado – continuou -, se não existisse esse conhecimento que é transmitido desde o nascimento, nunca seria sentida a necessidade de nascer de novo.
    - Talvez seja assim – disse Alves - Só deveria ser ensinado às crianças aquilo que já houvesse passado pelo crivo da ciência. Desta forma seriam eliminadas as crenças e ilusões, ficando somente o verdadeiro conhecimento. 
      - Aí  pode se esconder um grande perigo, meu amigo – falou o Velho.


#Fragmentos
- Imagem: Ecce homo - Pintura de Salvador Dali -

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5 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

"São poucos aqueles que retomam o fio da meada, digamos assim, e nascem outra vez para a Vida. A sociedade aniquila a Vida tão logo ela se manifesta "

Os sentimentos e pensamentos já não saem mais do coração, porque já não existem indivíduos – seus corações foram cauterizados.

E.P, enquanto existirem sementes como é o caso desse conto, acredito que muitos encontrarão o próprio fio da meada.

Cada dia mais fã. Sensacional essa tela do Dali , não conhecia.
Beijos no seu coração.

E.P. GHERAMER said...

Você é sempre muito gentil em seus Comentários, Claudiane.
Grato por isso.
Quando falou de sementes, lembrei-me imediatamente da ‘parábola do semeador’ e do o passarinho que ia ao rio pegar agua com seu biquinho para levar até a floresta que estava em chamas. Tão pouco, não é verdade? Mas, como você mesma disse, cada um deve fazer a parte que lhe compete para tornar este mundo um lugar bom para se viver. Acredito na função social da literatura.
Um abraço carinhoso, Claudiane.

Gilberto Fernandes Teixeira Teixeira said...

" Existem 3 maneiras de se chegar ao topo de uma árvore: 1) subir nela; 2) Sentar em cima da semente; 3) Ficar amigo de um grande pássaro. Robert Maidment Ou descobrir "Ecce Homo", Feliz aniversário amigo !

Gilberto de Almeida said...

A reflexão é sempre uma necessidade do espírito, EP. Invigilantes, nos deixamos manipular, deixamos de seguir os ensinamentos luminosos que estão gravados a fogo em um único lugar: em nossos corações! Obrigado por este nos instigar!!!

Isa Lisboa said...

Um fragmento bem forte, como já nos habituou, EP! :)

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