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Mitologia Moderna





            Em uma noite tempestuosa, onde as nuvens escondiam a lua formosa. Quando o frio apertava o peito, e os ventos cortavam fortes pinheiros ao meio. Quando nem a luz da lua se atrevia erguer-se.  E o medo fazia qualquer o homem prometer no esquecer-se. Há aquele que anda por esse vale sombrio.

A chuva aperta.
O frio o cerca.
E a chuva o espeta.

Ele fraqueja, cai no chão e esbraveja:
“Maldito seja as trilhas do destino que me levam para perto do abismo!”

Mas ainda que caído, seus olhos levantam e encontram abrigo.
Uma casa isolada, esquecida na beira da estrada.

O homem corre em direção do casebre, e antes que ele bata na porta, ela se abre.

 Um homem distinto, com um lampião atende:
“entre, se abrigue, você que segue a trilha do destino”

O homem entra na casa, descansa, sacia sua fome com um rico banquete, e, aos pés da lareira, afasta o frio temeroso.

               Ele se pergunta quanto tempo passou. Um dia? Uma noite? Um ano? Não há janelas na casa. Não há relógios. Como pode estar uma casa sem nenhuma noção do tempo? Como pode uma casa estar num lugar como aquele?                                                                                                                                                       

E então o homem distinto senta à sua frente. E ele não resiste:

-Que lugar é este onde acolhe um desamparado em meio à turbulência?

- O mesmo lugar que abriga todos aqueles que procurarem. Desamparados ou cansados. Preguiçosos ou pacientes. Perdidos ou desiludidos.

-  Mas como pode cuidar de todos em tão singelos quartos?  

- Não cuido. Apenas dou abrigo. – o homem distinto jogou a cabeça para trás, descansando-a na cadeira. 
– Cada um acaba por se curar, cedo ou tarde.

O viajante ficou perplexo. Encarou as chamas e considerou descansar por aquele lugar.

- Mas, se aqueles que aqui ficarem, não se curarem, uma senhora que aqui reside, os encontra e os cura de todas as aflições.

- E qual o nome de tão bondosa senhora?

O homem distinto o encarou.

- A morte.

O  viajante arregalou os olhos, e desconsiderou ficar mais do que as feridas lhe permitiam e ao terminar de aquecer-se retirou-se.

Na porta da casa, no limite do calor e da chuva que caia, do interior da casa e da floresta escura, um abraço entre o distinto homem e o homem viajante sela o adeus.

- Como devo chamar aquele que me deu abrigo?  

- Não é necessário me chamar por qualquer nome, mas se assim lhe agrada, te digo que muitos me chamam de Tempo.



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3 comments:

Isa Lisboa said...

Excelente alegoria! Parabéns!

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

O tempo ameniza nossas dores, mas precisamos estar atentos, pois em algumas situações precisamos de ajuda ...

Não acredito que a Morte nos cure das aflições.

Gostei das reflexões que proporcionou-me através dessa lenda

Kizy Lee said...

Uma reflexão do eu no palco da vida, incrível em cada verso, saboroso em cada dialogo.
Amei
Com carinho

PS: Sábia escolha do viajante...

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