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Remanescente




Logo após o nascimento dos filhos os pais os chamam de seus, como se fossem propriedades. Mas eles não são seus. Deveria se pensar neles como o fruto de uma união de sentimentos e, por isso, tendo o direito de ser algo especial e de viverem suas vidas com um mínimo de interferência.
Os pais não se perguntam se estão criando-os da melhor maneira, pois, se o fizessem, procurariam não limitá-los com muitos sim e não desnecessários, com o objetivo de deixar seus espíritos exteriorizarem-se como cada um é e dando a oportunidade de virem à tona aqueles sentimentos mais profundos que, de outra forma, não viriam. Eles já são diferentes ao nascer e continuarão a sê-lo por todas suas vidas, intimamente. É certo que não se sentirão à vontade no mundo ao expressarem tais sentimentos, provavelmente se sentirão à margem do grupo, porém, terão tido ao menos a chance de viverem e sentirem cada pulsação e sentimento que atravessarem suas mentes, seus espíritos, e terem podido fazer uma escolha de forma consciente sobre a maneira como querem viver suas vidas. E assim, talvez fiquem preparados para não viverem segundo regras e sentimentos falsos, mas, sim, vivenciarem todos os milésimos de segundo de suas preciosas vidas.
 Serão compreendidos? É uma pergunta que fica no ar. Porém, talvez possamos dizer que estarão mais preparados para enfrentar seja o que for e com menos sofrimento. Agindo assim, seus pais estarão lhes dando a chance para que a confusão não seja sua amiga quando estiverem diante da escolha entre dois valores. Pais e filhos agradecerão uns aos outros por poderem viver lado a lado, aprendendo as maravilhas de um espírito aberto e franco. Cada um ensinando ao outro tudo aquilo que puderem aprender, com seus espíritos e mentes desprendidos das cadeias das regras de comportamento e desejando somente amarem-se uns aos outros. Um viver assim, sem o perigo de corromper ou contaminar suas evoluções para uma vida cada dia melhor. E crescerão assim, cada um só querendo dar mais amor e aprenderem uns com os outros. Vivendo assim, terão a grande oportunidade de cumprir o mandamento do bem viver que é o de amar ao próximo como a si mesmo.
- Mas o que estás propondo é uma volta à irracionalidade, os comportamentos de cada um seriam dirigidos por instintos, tal como acontece com os seres irracionais – disse o Velho.
- Pode ser que sim, como também pode não ser. – falou Alves.
- Mas o homem – disse o Velho interrompendo o que Alves dizia – é um ser social, isto é, ele só conseguiu sobreviver graças à formação de grupos e mais tarde numa sociedade civilizada e de forma pacífica. E isso porque ele reprimiu seus instintos, substituindo-os por comportamentos aceitáveis. De outra forma, não vejo como os homens poderiam ter sobrevivido até hoje.
Alves disse:
- Civilizada e pacífica? Achas mesmo que os instintos que foram reprimidos foram os que deveriam ser? Chamas de civilizada e pacífica uma humanidade que vive em constantes guerras, conflitos urbanos, famílias em constantes discórdias, em que cada homem caminha sobre suas próprias pegadas sem nunca sair do mesmo lugar? Quem tem miséria? Quem tem remorso? Quem briga e reclama o tempo todo? Não é justamente este homem? Não estaremos certos ao dizer que é aquele que surgiu da repressão de tais instintos? Se o homem contemporâneo é o resultado da repressão a que te referes, penso que podemos querer que não contribuíssem para o estado belicoso da civilização atual e a qual chamas de pacífica. Antes, pelo contrário levaram a humanidade ao caos. E, se estamos certos em nosso raciocínio, não há como voltar e começar outra vez. Isso sem entrar na questão de saber, na possibilidade de poder recomeçar, quais os que deveriam ser reprimidos e quais os que deveriam ser cultivados, de tal modo que somente estes últimos se tornassem virtuosos.
- Mas vejamos – continuou Alves -, nós não conhecemos uma vida assim, baseada nestes sentimentos mais profundos e aos quais acabou de chamar de irracionais, comparando o homem às feras que agem apenas de maneira instintiva.
- Não estou conseguindo entender aonde quer chegar, caro amigo, uma vez que é sabido que se o homem fosse deixado entregue a seus sentimentos primários nunca teriam podido começar a viver coletivamente, como já disse. É a história e a ciência que nos dizem isso.
- É a esse ponto que quero chegar. A história e a ciência nos dizem isso. Mas quero chamar sua atenção para o fato de que são apenas teorias, isto é, conhecimentos baseados em princípios ainda não comprovados. Daí serem chamadas de teorias e não de leis, como é o caso da lei da gravidade. Para ser mais bem entendido, serei radical para ser mais enfático, dizendo que a afirmação de que todo ser humano tem um coração é apenas uma teoria. Para ser provada teríamos que auscultar todos os homens ou abrir o peito de todos. Só assim passaria a ser uma lei, isto é, uma verdade. E quanto à história, a arqueologia e demais estudos que se dedicam ao passado da humanidade, eles vão somente até certo ponto e daí para trás só há especulações e, portanto, carecem de comprovação, ou seja, são teorias. Uma teoria funciona até que outra venha tomar o seu lugar ou venha a ser comprovada e passando, então, a ser uma lei. Nosso planeta já foi o centro do sistema solar. Hoje sabemos que não é assim.
- Sou incapaz de refutar seus argumentos e, somente por minha ignorância nestes saberes, sou obrigado a calar-me, mas não posso dizer que esteja convencido – disse o Velho.
- É preciso reinventar o pensamento, meu caro – disse Alves. Edificamos uma casa sobre a areia e para sentirmo-nos seguros moramos nela. Mas se aparecem rachaduras nas paredes, há algo errado e o arquiteto ou engenheiro acabará por concluir que o problema está no alicerce.
- Concordo com o que dizes com relação à construção de uma casa, mas qual a relação com o conhecimento? – disse o Velho. Acaso queres dizer que o conhecimento alcançado hoje e que tornou possíveis os avanços da ciência são falsos? A base do seu raciocínio é invalidada pela atual tecnologia que só trouxe benefícios ao homem.
- Vou mais além – continuou Alves - e digo que é preciso reinventar a roda! Não concordas que a humanidade está se despedaçando?  As pessoas são egoístas, amantes do dinheiro, orgulhosas, arrogantes, descontroladas, violentas, traidoras, cheias de prepotência e ainda que mantenham uma forma exterior de religiosidade, negam o seu poder. As paredes apresentam rachaduras, é preciso derrubá-las e refazer o alicerce. As rachaduras existentes indicam uma iminente catástrofe mundial e somente depois dela, talvez fosse possível começar tudo de novo, desde que sobrassem algumas pessoas.
- Então só nos resta procurar descobrir como fazer parte deste grupo privilegiado que sobreviverá – disse o Velho.
Seguiu-se um longo tempo em que ficaram calados.
Pairando no ar da enfermaria, podia-se sentir o cheiro do silêncio.



#Fragmentos
Imagem : Adarsh Vijay 

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1 comments:

Isa Lisboa said...

Estes diálogos levam-me a sempre a profundas reflexões interiores! Gosto! :)

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