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Da Intuição




    Recobrando-se do desmaio que sofrera e que atribuiu a uma queda de pressão e não a um transtorno mental súbito, conseguiu convencer o Velho de que já estava se sentindo bem e que queria ficar sozinho. Na verdade, Alves sabia que não fora tão simples o que acontecera com ele. Pelo contrário, sabia que alguma coisa mudara e ele precisava ficar sozinho.  Somente depois de muito argumentar, conseguiu convencê-lo a permanecer sentado no banco enquanto ele continuaria a caminhar de volta sozinho.
       Caminhando, presa de súbita lucidez, nosso herói espantou-se quando se viu a olhar para seu passado sem sentir a dor que à época sentira. Conseguia olhar sem sucumbir ao envolvimento emocional. Somente agora percebia que sempre vivera de maneira relativamente passiva, vivendo à mercê de forças e influências e sem nenhum objetivo a ser alcançado. Vivera como se já o houvesse atingido e concluído que não valia à pena. Graças a tal percepção encontrou a ponta de um fio de alegria em seu coração e não podia deixar de sorrir, embora de maneira tímida, pois, ainda custava a acreditar que chegara até ali. Via também, neste momento de lucidez, que vivera como se estivesse apenas à espera da morte porque sua personalidade estava fragmentada, qual um quebra- cabeças em que as peças não se encaixavam para formar uma imagem visivelmente nítida, antes pelo contrário, era uma visão distorcida envolta em névoa. Sua luta não fora em vão – ele pensava. Agora ele já percebia um fio condutor que poderia leva-lo a recompor sua mente antes fragmentada. Pela primeira vez sentia que talvez pudesse criar e buscar objetivos que lhe dessem um por que para viver, sem ter que se preocupar com como viveria. Agora ele via como as coisas eram e procuraria manter uma coerência de pensamentos em sua mente, num mundo em constante mudança. Tudo era um constante devir. Como o Buda, ele também se sentia sentado sob uma árvore e naquele instante, sem mais nem menos, sentiu-se iluminado. Aquela clara percepção da realidade era o resultado do esforço que fizera – mesmo sem o saber - na direção de encontrar consigo mesmo. A dúvida sistemática que não crê em nada, que toma conta das pessoas desencantadas com a Vida estava, naquele momento, sendo substituída por uma confiança em si mesmo e nos alvos que viesse a se propor de agora em diante e que seriam – agora sim, pensava ele – verdadeiramente valiosos e mereceriam ser apreciados e saboreados porque seriam dele mesmo e isso fazia toda a diferença. Já não se via mais dividido em partes que não se encaixavam. O mundo exterior com suas pessoas já não mais lhe causava medo. Isso tudo acontecera de maneira súbita, como uma lâmpada que é acesa dentro de um cômodo até então em completa escuridão. Custava-lhe acreditar no que estava acontecendo. Não pode evitar o pensamento que lhe passou pela mente de que havia renascido, finalmente!
     Parecia-lhe que as perturbações que ele vivenciara no relacionamento com o mundo exterior, fora sempre resultado da maneira como via a vida e que estava num erro de julgamento e de apreciação, enfim, do modo de perceber a Vida e a si mesmo frente a ela. Sentir-se inadequado por não poder ter acesso ao que os outros pensam, levaram-no a julgar-se único e, por isso, deslocado, esquisito, desajustado e até mesmo um doente mental. Muitos eram os pensamentos que atravessavam sua mente, atropelando-se mutuamente. Sim, era isto o que havia lhe acontecido – agora ele via claramente. Inadvertidamente, ele vestira diferentes casacos, cada um pertencendo a um daqueles diferentes grupos que a sociedade rotulava.
     Já fazia mais de meia hora que havia se levantado e começara a caminhar, deixando o Velho sentado naquele banco. Entregue a seus pensamentos, andava pelo caminho estreito que levava de volta ao alojamento. Olhava ao redor como se tudo fosse novidade, como se nunca por ali tivesse passado. Pensava em como seria bom se um dia ele pudesse morar num lugar como aquele. Poder sentir a manhã molhando a mata e ver os pássaros em seu habitat natural e não mais em gaiolas, como acontecia na cidade. Um lugar onde ele pudesse trabalhar. Um lugar no alto, como que engastado numa montanha. Não poderiam faltar árvores altas, com seus troncos saindo do chão em direção ao céu. Sem saber, em seu coração estava sendo plantada uma ideia, a primeira depois do que ele chamou de seu renascimento. Mais tarde, nosso herói veria que as ideias são sempre possíveis, desde que mantidas como supremas.
     Saboreando sua mais recente descoberta, Alves continuou andando, dobrando em outro caminho e sumindo da vista do Velho. Sempre andando foi se afastando do alojamento e dos demais internos que não se atreviam a ultrapassar os limites da colônia estabelecidos por uma cerca de arame. Ultrapassou a cerca, sem se dar conta da infração cometida, alcançou o cume de outra montanha situada do lado leste. Dali podia ver o vale que se estendia abaixo, indo até a linha do horizonte. Somente ele podia ver este horizonte que os outros, presos às regras, nunca veriam. Não pode deixar de pensar que aquele vale fazia um par, de certo modo, com o seu novo nascimento. Podia ver o alojamento e que havia outras construções dentro da colônia, separadas por espaços regulares, como pede a regra para construções de uma colônia, principalmente militar. Voltou a poder ver a colina onde deixara o Velho – acostumara-se a chama-lo assim, ao invés de seu nome. Sentia uma enorme simpatia por aquele homem que apesar de sua idade, impunha dignidade e respeito, com seu olhar firme e confiante, apesar do que fizeram com ele os seus filhos. Aliás, de certa feita o Velho lhe dissera que ninguém faz nada de mal a alguém, se o que é feito não for sentido como tal por esse alguém. Alves achava que ele estava certo, apesar de achar curiosa e, ao mesmo tempo, intrigante aquela maneira de pensar.

   Alves fechou os olhos e levantou o rosto para melhor poder sentir o vento em suas orelhas e a leve friagem que penetrava em sua face, por entre os fios da barba que resolvera deixar crescer. Respirava fundo, como se estivesse sentindo pela primeira vez, o alento da Vida. Estirou-se no chão sobre o mato rasteiro, sentindo sua pele roçar naquele outro tipo de vida que brotando da terra atravessava-o com sua força, até fazer dele uma parte dela e juntos tornarem-se partes do todo vibrante e pulsante que é a Vida.


EP.Gheramer

Imagem: Web

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3 comments:

Gilberto de Almeida said...

EP, vejo o transcendente e o metafísico nesta história. Gosto de histórias assim, que nos levam além da mesmice do cotidiano. Obrigado. Grande abraço.

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

"Mais tarde, nosso herói veria que as ideias são sempre possíveis, desde que mantidas como supremas. "

EP, bom seria se cada um de nós pudéssemos sempre nos impor e vestir o nosso próprio casaco .

Parabéns!

E.P. GHERAMER said...

Caros Gilberto e Claudiane.
Muito obrigado por seus Comentários.
É sempre muito bom.
Deixo-lhes um grande e fraterno abraço!

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