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Da Lucidez



          Na adolescência, Alves via seu futuro envolto em trevas impenetráveis. Era voz corrente que ao jovem não adiantava estrebuchar, pois, no final, depois de todas as suas contestações e rebeldias, acabaria caindo na realidade da vida. Os mais velhos dizem que o tempo passa e que não se deve fechar a porta porque, mais dia menos dia, se conclui que tudo é igual e só você pensa diferente. Portanto, é bobagem espernear. Dizem para os jovens que seu tempo vai chegar e, então, verão de que nada valeram seus sonhos e, quando já cansados, veriam que não deveriam ter sonhado tão alto. Ah! A opinião dos mais velhos... Como juízes implacáveis e sempre presentes, não deixam que os jovens vivam seu tempo presente e sonhem. Dizem a todo o momento que não adianta sonhar. E na luta contra todos e contra tudo já instituído como verdade absoluta, muitos jovens caem por terra, qual guerreiros batidos e muitos deles até mesmo pedindo misericórdia para poderem viver seus sonhos. Momentos difíceis para quem quer pensar por si mesmo, momentos em que é mais fácil ceder ao conformismo da multidão. E muitos cedem. É então que compreendemos a causa do olhar cansado daquele velho que já não mais sonha, pois sabe que o que foi continuará sendo e então ele não tem mais pressa de chegar a algum lugar. Já sabe que andando também chegará e não quer antecipar o sofrimento. Por isso, vai de mansinho e parecendo que vai parar, apenas à espera do último sono. São somente os olhos ansiosos daqueles que, olhando para o velho, acham que ele precisa de algo para se reanimar. Mas não se reanima quem está morrendo um pouco a cada dia e está assim desde que soube que o que foi, continuará sendo e o que ainda não é nunca será. Tais eram os pensamentos que habitavam a mente de Alves desde sua adolescência. Os sonhos dos jovens não são como quer fazer crer a ciência, uma questão cronológica. Os sonhos continuam a existir enquanto durarem as questões sem respostas que afligem os jovens em geral e, mais intensamente, a alguns  que se recusam a abrir mão deles. Os pensamentos juvenis não podem ser medidos, cronológica e fisicamente, pela maturação do organismo.
          A primeira fase da vida do jovem é passada quase que somente recebendo de uma forma passiva as informações do meio que o cerca. É somente depois que seu pensamento começa a ser elaborado. No caso de Alves, essa elaboração foi sentida como uma luta brutal. O confronto do que aprendera de seus pais com a realidade do mundo exterior, fez surgir nele uma personalidade que continuou questionando os valores e a sociedade na qual vivia. O conflito foi grande, pois foi maior a intensidade com que tal diferença foi sentida. De seu lado, toda a força de uma vida que desabrochava e do outro o conformismo que fazia da Vida uma coisa vulgar. E Alves não via assim. Até a literatura produzida já tinha um destino traçado e era o de atender aos desejos de uma sociedade conformista e isso contribuía para manter uma forma de pensar inquestionável que, por sua vez, mantinha uma segurança cômoda e confortável, dentro de um padrão, porém falsa. E assim, foi numa sociedade acomodada, uma realidade falsificada e vivendo de mentiras que Alves nasceu, obrigando – como a todos os de sua idade – uma vida em botão a desabrochar em frutos já maduros antes do tempo, pulando a fase da floração.
          Este era o espírito da época em que, como ele, os jovens nasciam e eram ensinados. O espírito de uma época pode ser visto, por exemplo, olhando-se para a literatura que é produzida e que contribui de uma forma sutil para moldar mentes em formação, a um espírito conformista e bem ao gosto daqueles que não querem mudanças em seus modos de viver e de ganhar a vida. Em tal momento, uma mente ainda não contaminada pode questionar pensamentos anteriormente nela plantados.
          Ah! A alegria dos jovens!  – pode alguém exclamar – É feita com pensamentos que têm asas e é sem pouso. Época em que tudo é possível, basta querer. Ah! Coração sonhador não tem culpa de preparar seu próprio sofrimento; se fosse mais sereno e mais modesto em teus sonhos azuis; se ao invés de dois, contasses um e no lugar de tudo, somente um pouco... No lugar do gargalhar, um sorriso pequeno e sentido. Mas eis que chega o Pensamento! Carrasco presente, algoz de machado sempre afiado! Um dia ele acorda dizendo que já é hora de começar a sofrer. É hora do clamor e da súplica. É quando homem pede mais de tempo para poder sentir a alegria de outrora; pede que o deixe conquistar o mundo novamente; que o deixe salvar a princesa presa no castelo; que o deixe ajudar os pobres que dormem na fria calçada; que o deixe respirar novamente e sentir o ar puro de um campo açoitado por uma chuva suave e que vem de repente; que ainda possa sentar sob uma árvore e pensar que o mundo foi feito para ele ser feliz... E se o Pensamento continuasse a dormir, esperando mais um pouco, o jovem-homem, num ato de sublime covardia, iria matá-lo; iria matá-lo para que ele pudesse viver! Tais eram os pensamentos que enchiam sua alma, causando todo o sofrimento de Alves.
          Estes eram o sofrimento e a angústia reservados àquele jovem que tentara encontrar somente beleza nesta vida, mas que se deparou com uma realidade que lhe era contrária. Tais são as causas da raridade de espíritos nobres e valentes na sociedade. Dom Quixote, é obra estudada e usada nos meios escolares para arrefecer os sonhos dos jovens, apresentando o herói como um louco. Cervantes não falava de moinhos, mas de algo real e usava seu personagem para disfarçar pensamentos que ele, como autor, nunca poderia apresentar à sociedade de seu tempo. 
          E o mesmo acontece hoje e continuará acontecendo enquanto o homem não falar a linguagem dos pássaros. A verdadeira arte é a linguagem dos rebeldes, pois nela pode ser dito e feito o que cada um quiser, sem ser marginalizado ou chamado de louco. O retiro voluntário é bom, mas a exclusão involuntária é quase impossível de suportar. 
          A arte é a boia salvadora.



EP.Gheramer
#Fragmentos
Foto/Imagem "Lucidez Desconfortável", de Clarissa Braga

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4 comments:

Gilberto de Almeida said...

Reflexão necessária, meu amigo EP. Quanto de fogueira inquisidora, não exista no cerceamento à voluntariedade da juventude, não é? Obrigado por compartilhar!

E.P. GHERAMER said...

Grato pelo Comentário, Gilberto.
Um grande abraço!

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Evoluímos quando nos deparamos com homens que falam a linguagem dos pássaros e nos fazem voar mais alto.
Abraços.

E.P. GHERAMER said...

Grato pelo gentil e amável Comentário, Claudiane.
Abraços fraternos e carinhosos para você!

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