
Eu Mataria Jesus?
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Crônica,
EP. Gheramer

Enquanto tomava o cafezinho no bar, distraidamente meu olhar pousou em um
adesivo afixado na caixa registradora onde o proprietário estava. No adesivo
estava escrito: “Jesus é a razão do meu sucesso”. Era uma manhã fria. Olhei
para o homem que estava atrás da máquina: estatura média, barriga proeminente,
cabelos pretos, barba por fazer, vestia uma roupa que me pareceu surrada. Supus
que o adesivo fora afixado por ele. Sem fazer nenhum julgamento girei sobre os
calcanhares e da porta fiquei saboreando o café e olhando o movimento dos
carros e das pessoas na rua. Centro da cidade; muito barulho. As palavras do
adesivo continuavam em meu pensamento. Por que ele havia colocado aquele
adesivo? Acreditava mesmo no que estava escrito? O que seria o sucesso para o
dono daquele bar? O que seria o sucesso para as pessoas que pela rua passavam
apressadas? E para mim, o que é o sucesso? Fui levado pelo pensamento a me
perguntar quantas pessoas teriam a coragem de usar aquele adesivo se Jesus
aparecesse nos dias de hoje, em pleno século 21? Com a globalização e o
interminável fluxo de informações a nos bombardear de todos os cantos do
planeta e muitos mestres e gurus aparecendo e, ainda, com o avanço da Ciência levando o
homem a questionar a existência de um Deus, será que ele seria morto como foi?
E como uma coisa leva à outra, de volta para casa pus-me a imaginar e a escrever
sobre o assunto. Penso melhor quando escrevo.
Fiquei a imaginar se, de repente, aparecesse
alguém dizendo que era o filho de Deus e que havia “chegado o reino dos
céus!". Ora, que reino é esse? Que céu é esse? E mais: o filho de Deus?!
Havia um povo - o povo judeu - que em sua
religião, o Judaísmo, esperava um novo reino que seria instaurado pelo enviado por seu Deus que, esperavam
eles, lhes devolveria a supremacia e a liberdade há tanto esperadas por um povo
escravizado. Esse esperado - o
Messias - viria restaurar o reinado do povo de Israel, derrubando - pela força
- o opressor: o Império Romano.
Ora, ora, ora... Quão grande fora a decepção quando
o tal esperado disse: "O meu Reino não é deste mundo".
. Era um louco! Quanta bobagem ele falava! Não era desse mundo... De que mundo
ele falava? Era o Messias... Definitivamente: era louco!
E se hoje, no ano de 2014, aparecesse alguém
dizendo o mesmo, quem lhe daria ouvidos? Paro um pouco para imaginar a
situação. Concluo que pensaria como eles: era um louco! E como a religião não
tem a mesma força que tinha; talvez ele não fosse morto na cadeira elétrica, na
forca ou à paulada e muito menos numa cruz, mas, sem dúvida, o mataríamos
mentalmente, marginalizando-o, à semelhança do que acontece hoje com aqueles
que se dizem ou são diferentes de nós.
Religião era algo muito sério.
Muitos de nós talvez nos sintamos horrorizados
pelo que fizeram com Jesus. E mais: pensamos que se fosse hoje não faríamos o
mesmo. E por quê? Como naquele tempo, também hoje só esperamos coisas
materiais, coisas que podem ser compradas. Inclusive a tal da felicidade. Felicidade
é uma ideia, não tem existência física para que possa ser encontrada. Coisas
humanas, humanas demais!
Não me engano pensando que os homens daquele
tempo eram diferentes ou que nós sejamos diferentes deles. Não. Talvez se possa
dizer que tudo o que o ser humano sempre esperou, foram por melhorias palpáveis
e que pudessem ser ostentadas para serem vistas pelos outros. O problema surge quando
as melhorias que alcançamos ficam além do necessário – o tal do supérfluo - e
aí se estabilizam, tornando-se parte de uma civilização vulgar e superficial. Penso
que o desenvolvimento tecnológico e tudo o que ele nos trouxe foi mais conforto
e praticabilidade, mas não fez do homem seres humanos melhores. Ou será que
fez?
Muitos podem achar que é um erro pensar assim e
se mostram indiferente. O pensar sobre certas coisas dói nas consciências
daqueles que ainda têm o privilégio de as terem. Então, finalmente, podem
concluir: o que é este artigo, esta folha de papel virtual escrita? Nada! Não
passa de "papel” sujo de "tinta", de bobagens virtuais de quem
não tem o que fazer. E então vão deixar pra lá. Eu também faria o mesmo. Porém,
minha esposa certo dia me disse que "toda
palavra é uma semente". Será?
Então fiquei a pensar: o
que aquele homem chamado Jesus, que se dizia o Filho de Deus, veio fazer aqui
entre os homens? Ele disse que Deus é amor. Mas, o que é o amor? Um casal não
diz que vai para a cama fazer sexo, diz que vai fazer amor! Há algo de podre no reino da Dinamarca!
Hoje como ontem o ser
humano procura ser feliz e achando poder encontrar isso numa segurança que pode
ser comprada. Mas que tipo de segurança é essa que sempre foi procurada e ainda
não foi encontrada? É ela que nos trará
a felicidade?
Fico pensando que o homem
tem duas alternativas para sentir-se seguro.
A primeira é procurar esta segurança
através de vínculos materiais com o mundo e que – penso – só destroem a liberdade
e a integridade do ser humano. E a outra é a de unir-se ao mundo na
espontaneidade do Amor.
E como se faz isso?
Quanto à primeira já há muito
estamos tentando e não parece que a conseguimos. Tem sido apenas um incessante
buscar.
E a segunda alternativa? Como
se faz para alcançá-la? Bem, aquele homem dizia que ele era O Caminho para isso.
Ainda pensando nisso, levanto
de onde estava escrevendo, vou até a janela e olho para rua onde as pessoas
continuam passando apressadas, em sua lida diária, como sempre tem sido na
história da humanidade.
E eu me pego a questionar: Se
isto é verdade, será que eu mataria Jesus se sua primeira vinda acontecesse
hoje e não há dois mil anos atrás?
Por fazer parte da espécie
humana e para ser coerente com o que escrevi até aqui, eu me vejo na obrigação dialética
de concluir:
- Sim, eu mataria Jesus.
Por
EP.Gheramer
Dialética: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dial%C3%A9tica
Imagem: Web (editada)
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8 comments:
E.P., é uma excelente reflexão esta! Também já me perguntei como seria recebida a mensagem de Jesus hoje em dia, no meio de tantos neóns... Mas nunca havia me perguntado se eu mataria Jesus... Quero acreditar que não, mas nunca sabemos, na realidade, quando é que esse lado da nossa humanidade vem ao de cima, não é...?
É a resposta meu amigo, não temos mas provavelmente faríamos parte da turba que apontava para que o sacrificassem, talvez hoje não numa cruz como era a pena de morte na época, mas o fariamos psicológicamente, enlouquecendo-o já que não passaria de um louco... e talvez o trancaríamos numa clinica para um tratamento para nos livrar-nos desse mal. Sei lá, acho que "viajei" na sua conversa, mas também acredito que de uma forma ou de outra eu também "mataria" Jesus...
Parece-me que quando um texto fala sobre assuntos que que dizem respeito a todos os seres humanos, eles passam a ser especiais e, dessa maneira, ele é apreciado sob os aspectos que são comuns a todos nós.
Também gosto de pensar, Isa, que não faría o mesmo. porém, como voce mesma disse, não conhecemos tão bem o nosso lado humano, demasiadamente humano. E é por isso que também não posso deixar de pensar como você, Maristela.
Assim, ficamos pulando do "mataríamos" para o "não gostaria de pensar que mataríamos". Sem dúvida, é um assunto muito delicado.
De qualquer maneira, é gratificante para aquele que escreve saber que conseguiu sensibilizar àquele que lê.
Agradeço seus Comentários e deixo um fraterno abraço.
Um excelente texto que, nos fazem pensar muito. Estamos em meios a tantos compromissos e "obrigações" que mal paramos para pensar em detalhes que, seriam extraordinariamente significativos em nossas vidas.
Gostei de lê-lo!
Parabéns E.P.Gheramer! :)
E.P., como sempre, seus textos convidam a importante reflexão. Acredito que, por nosso comportamento no mundo atual, negando pelo pensamento, palavras e atitudes os ensinamentos desse ser Sublime que uma vez se dignou a viver entre nós, a verdade é que nem precisamos imaginar o que faria se Jesus viesse (ou voltasse) em carne e osso... Acredito que, sim, sempre que negamos auxílio a um necessitado, que perdemos a simplicidade na vida, que magoamos alguém, que deixamos de perdoar, que enxergamos a atitude de outrem com malícia, que esperamos retribuições ou reconhecimento em troca de nossa cooperação, que faltamos com o respeito em relação aos presentes ou aos ausentes, em palavras ou em pensamento, que perdemos a paciência com o próximo, enfim, sempre que deixamos de amar intensamente, para dar lugar ao egoismo e ao orgulho, estamos matando Jesus. E a maioria de nós, entre os quais me incluo, matamos Jesus repetidas vezes, a cada minuto de nossas vidas...
E.P , que maravilha de texto. Parabéns por me levar para o que realmente é importante.
Faço das palavras do amigo Gilberto as minhas " matamos Jesus repetidas vezes".
E creio que as sementes lançadas aqui germinarão. Abraços.
Sempre que deixamos de fazer o bem ao nosso próximo, estaremos insultando Aquele que o criou. Penso que seus Comentários - Isa, Maristela,Sun, Gilberto e Claudiane - não necessitam de adendos. Deixo aqui o meu agradecimento pela contribuição que só enriquecem o tema tratado.
Eu é que agradeço seu carinho e continuo dizendo que realmente é uma pena que homem continue matando Jesus... E pensar que Ele nos quer tão bem, e vive dizendo "Perdoai-os, eles não sabem o que fazem."
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