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Que político quero eu?

Não há nada como a música de Beethoven a fluir do rádio, na temperatura amena e sob a branda luz solar da manhã para convidar-nos, no trajeto rumo ao trabalho, aos mais sublimes propósitos de uma jornada inspirada.

No entanto, ultimamente, tem sido imperativo render-me às vozes empostadas que preenchem o horário eleitoral gratuito. E, já que a inspiração não é possível, contento-me com a reflexão.

Afogado no mar de apelos auto-promocionais que fazem do tempo que lhes é reservado um mal dissimulado desfilar de segundas intenções, mais ou menos camufladas pelo alardear daquilo que cada político ou seu marqueteiro tem tempo para inventar, surpreendi-me a indagar:

- Que político quero eu?

E como, da indagação costuma nascer a reflexão, num processo intuitivo que invade o espaço cerebral de quem está desocupado no congestionamento paulistano, deixei-me envolver por ela. 

Então, movido por essa reflexão, desejava afastar-me da farsa deliberada que é a propaganda (política ou não), ao mesmo tempo em que sonhava com o vislumbre de um caminho adequado para o nosso país-continente. Desejava encontrar saídas válidas para todas as querelas mundanas que atormentam o brasileiro nesse período de nossa vida pública, que reproduz a história da política de todos os tempos. Ou seja, aqueles que deveriam representar dignamente uma população, demonstram absoluta falta de interesse por qualquer outra coisa que não sejam os próprios bolsos... 

Então, tomado por essa onda psíquica interior, comecei a vasculhar o mundo do pensamento, à procura do político desejável, daquele político a quem eu entregaria meu voto com confiança...

Mas enquanto dirigia, quase em estado de transe, pela via congestionada da capital paulista, não me preocupava com a possível inutilidade do meu voto, com esquemas de fraude envolvendo as urnas eletrônicas ou com outras ações sub-reptícias que sabemos corroer, durante o processo eleitoral, a dignidade da democracia. Não, não era isso o que me incomodava, mesmo porque, da tola fantasia à dura realidade, o que martelava em meu cérebro eram as vozes dos candidatos e não o estertor das urnas. Naquele momento, possivelmente entorpecido pelo monóxido de carbono exalado pelo escapamento do veículo estacionado à frente, eu traçava, no mundo das ideias, o desenho do político em quem eu votaria...

Meu aparelho de rádio não parecia estar sintonizado numa frequência de ondas. Se fosse possível sintonizá-lo num verbete de dicionário, diria que o vocábulo "proposta" era o que o magnetizava no momento. Essa palavra dominava o interesse de divulgação político-partidária e, presumivelmente, o interesse do eleitorado. Seria essa palavrinha atrevida, a resposta para o meu devaneio matinal? Eu procurava um político com proposta? Era simplesmente isso?

- Por certo que não! - Era o alarme da realidade soando em minha consciência! De que adianta a proposta se esta, bem o sabemos, é esquecida assim que o candidato desce do palanque para subir ao plenário? De que adianta a proposição, mesmo que supostamente bem intencionada, se o caminho para sua concretização é palmilhado pelos acordos de bastidores que culminam invariavelmente no desvio de dinheiro público? Qual o destino de uma proposta se a pobre esmola que restará para financiá-la, no final das contas, costuma ser o resto da sobra daquilo que não é consumido pela mesada dos políticos corruptos, pelos salários agigantados de suas parentelas e apadrinhados, pelos esquemas de propina que envolvem os prestadores de serviço, pela burocracia e pela "custocracia" de tudo que se movimenta nos setores públicos, pela incompetência administrativa e pelo desperdício decorrente da falta de objetividade, de planejamento e pelo jogo de interesses políticos que permeiam qualquer obra em benefício da população?

Não! Não era isso o que eu queria! Proposta não me bastava! De que adianta um corrupto com proposta? Em meu íntimo, havia um clamor por algo diferente! Talvez meu clamor fosse por uma qualidade pessoal do candidato... Talvez eu desejasse honestidade! Isso! Um político honesto, liberado pela lei da "Ficha Limpa", pagador de seus impostos, cumpridor da lei...

Mas, não! De novo, o alarme da minha consciência dizia que não era isso! Não me bastava um político honesto, cumpridor da lei! Ser honesto, não roubar, não matar, não se deixar corromper, não infringir a lei em uma vírgula que fosse, era um bom começo, mas não era o suficiente! Não poderia o político honesto passar todo o seu mandato como um usurpador de cargo público, sem gana, sem vontade, sem trabalho pelo povo, enfim? E não poderia, um político honesto, propor um honestíssimo projeto para aumentar impostos, ou priorizar em suas intenções de investimento o sistema financeiro, a indústria e o comércio, continuando por deixar à míngua a educação e a saúde? Não poderia, esse político, honestamente, ter um desempenho desastroso?

Ora, que qualidade pessoal era essa, então, que eu buscava no político merecedor do meu voto?

Foi então que, a socorrer-me, como os anjos fazem quando percebem alguém sinceramente aflito e desejoso de acertar, surgiu na lateral esquerda da via, pousado sobre um arbusto, um pequeno pardal que alimentava o filho. Dava-lhe o alimento na boca. E essa ação instintiva, que tão bem mimetizava as qualidades mais sublimes do gênero humano, iluminou-me a mente com uma clareza irreversível.

A minha busca não estaria fadada a morrer na praia com um cabedal de propostas não realizadas, nem, tampouco, estaria arreada ao cumprimento enfadonho da lei, através da honestidade desprovida de outros predicados mais nobres. Minha busca clamava por aquela mão que se estende a quem passa fome, como o pobre pardal estendia o bico a seu filho. Minha busca encontrava esteio nos caminhos venturosos da moralidade. Mas diga-se sem rodeios, no entanto: não se fala aqui daquela moralidade desnorteada que, antes deveria ser entendida como vergonha pseudo-moralista que ainda parece rescender ao incenso nauseante que se levantava das fogueiras da inquisição. Não, não falo dessa falsa moralidade. Falo daquela outra e única que me cativa...

A moralidade do político merecedor do meu voto, é a moralidade do amor pelo semelhante. É aquela moralidade que dói no peito ante o sofrimento do infeliz, que vibra nas fibras mais íntimas do coração, ansiando por ajudar o injustiçado, que é incapaz de ferir, mas é generosa no amparar, que não se contenta com a inércia em face da desventura alheia. Mas também é uma moralidade que não pega em armas, que não agride, que não conhece outra arma que o não seja o amor.

E esse político, movido desse senso sublime de ética celestial, não precisaria de propostas ou planos de governo antes de conhecer em detalhes as dimensões dos desafios a sua frente. Seu senso de dever, seu compromisso inabalável com seus representados seriam como faróis a iluminar-lhe o rumo na imensidão da noite que atravessa este país. Seu sentimento natural de amor pelo semelhante seria aval superlativo da justeza de seus atos;  seu espírito incansável seria a força motriz a assegurar a consecução dos objetivos elevados de seu governo...

Mas esse meu político de sonho não vive na Terra de hoje. Vive na Terra do Amanhã. Mesmo porque se vivesse nos dias de hoje, eu não o reconheceria. Seria talvez um anônimo, que não viria dizer em público que propostas teria, não alardearia sua honestidade, nem sua moralidade. Seria alguém que não apareceria no horário eleitoral. Ele simplesmente teria uma história de vida, uma história maravilhosa que, se eu conhecesse, me encantaria... Ele teria meu voto, é certo... se eu o conhecesse!

***

Na Terra do Amanhã não haveria propaganda política. Aliás, na Terra do Amanhã, política seria coisa do passado.

***

Na Terra do Hoje, votarei daqui a dois dias. E não vejo sombra do político dos meus sonhos. Aliás, ainda vejo sombras!


Gilberto de Almeida
03/10/2014


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2 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Gilberto, sua crônica sensacional.
Assim como você eu também não vejo nem sombras.
Estive por um fio para não ir votar e pagar a grande importância de R$3,50.

Gilberto de Almeida said...

Obrigado, Claudiane! Enquanto o político dos sonhos não nos acorda para a realidade, vamos tateando no escuro e caminhando como podemos! Que mais fazer, não é?

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