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Alguém para ouvir




       Alfredo continuou falando.
    - Eu, lá em casa, fui ensinado que em primeiro lugar, antes de qualquer coisa, vinha Deus. O homem era nada comparado a Deus e só pela bondade dele é que eu vivia. Cresci com a certeza de que somente o bem triunfaria e que a mentira não prevaleceria sobre a verdade, apesar de às vezes demorar; que os maus seriam castigados por suas maldades...
      Enquanto ele falava, Samuel não pode evitar pensar em seu próprio coração despedaçado e sangrando, depois que vira seu mundo ideal desfazer-se. Um mundo povoado pelo bem, pela bondade e tudo o mais que fora ensinado a querer e dar valor. Agora tinha diante de si um mundo que desmoronara e que, embora trágico, prenunciava o surgimento de outro, pois, somente das ruínas pode surgir o novo. O parto que estava se dando, tanto poderia dar à luz a um monstro ou a um ser maduro, mas nunca a um ser angelical.
      - Sabe, professor, quando eu saí de casa para estudar, eu vim achando que tudo seria maravilhoso e que eu poderia ajudar as pessoas em suas vidas tristes. Foi assim que deixei minha casa, meus pais e irmãos que também precisavam de mim. Procurei doentes no mundo enquanto deixava outros na minha casa. Mas, em breve vim a descobrir que também tinhas as minhas próprias necessidades; eu sempre ouvia as pessoas, mas não tinha ninguém para ouvir-me.
      Mais uma vez, Samuel se lembrou do tempo em que sua casa estava cheia de pessoas, de amigos que o procuravam em busca de ajuda e, por encontrá-la ali, voltavam no dia seguinte e no outro e no outro, de modo que sua casa estava sempre movimentada e barulhenta e a cada dia parecia-se menos com um lar. Tornara-se um ponto de encontro e tão logo essas pessoas eram saciadas em suas necessidades, iam embora deixando cinzeiros sujos e um cheiro azedo de vinho. E era nesta atmosfera que ele, sua mulher e filhos iam dormir quando a noite chegava. E foi assim que seu lar foi se transformando em casa e esta em um ponto de encontro e depois nada. E ele não percebia isso naquela época. Procurava convencer-se que era melhor poder ajudar as pessoas. E agora, depois que tudo desmoronou, ficara estampado em seu rosto o retrato daquele que sabe consolar, dar apoio e incentivar. Quando seu casamento se desfez, quando o ponto de encontro acabou, os amigos seguiram seus próprios caminhos e nunca mais o procuraram. Aquelas pessoas que eram tão confusas que tanto precisavam dele, já não precisavam mais. A razão disso ele nunca compreendeu.
Novamente sua atenção voltou-se para o que aquele rapaz dizia.
      - Sim, é isso mesmo! Não te usam mais, não precisam mais de você...
     Enquanto falava, seu semblante se contorcia, num esforço para chorar, para parir. Seus olhos foram enchendo-se de lágrimas e, como um tumor que arrebenta e deixa sair aquele pus que exercia pressão, suas lágrimas finalmente jorraram. Com o corpo deformado pela dor excruciante de um espírito atormentado – a maior de todas as dores -, com a cabeça entre as mãos, ia surgindo o inesperado nascimento.
    Samuel já atendera a muitos pacientes, antes de abandonar o consultório e tornar-se professor. Já estava acostumado com semelhante comportamento; era previsível. Porém, aquele caso era diferente, pelo menos assim ele sentia. O que aquele jovem aluno falava, deixando seu coração sangrar, era a realidade com a qual ele se deparava pela primeira vez. Acordara. Samuel estudara para tratar de pessoas que se encontravam fora do mundo real, mas, o que fazer quando o paciente não é paciente? Quando o mundo descortinado, em certo momento da vida, não é mais uma fantasia, uma ilusão? O que poderia ele fazer? Como tratar alguém que não precisa de tratamento? Poderia dizer-lhe que a vida era assim mesmo, onde há mágoas, decepções e que ele deveria saber controlar-se para poder safar-se? E como tantos outros, ele fora criado para ser bom num mundo mau? Que o mundo era feito para ovelhas e lobos? Desnecessário falar o que aquele rapaz, de forma dorida, estava experimentando agora. Samuel sabia que eram respostas que não precisavam de perguntas.
      Samuel ofereceu-lhe um lenço para enxugar as lágrimas, já que não podia enxugar aquela dor. Depois de usar o lenço, continuou a falar.
      - Aos poucos, foi acontecendo algo que, no início, eu não sabia explicar. Com o passar do tempo vi meus amigos tornarem-se maduros e autossuficientes. Fui percebendo em seus rostos, enquanto falavam comigo, certo despeito ou raiva. Não sei qual nome dar ao que eu sentia. Por que aquelas pessoas, as quais eu sempre quis bem e ajudara, me tratavam assim? Acabei perdendo a espontaneidade ao lado delas e passei a sentir-me mal e deslocado. Assim, durante muito tempo mantive-me afastado delas, sentindo a dor da ingratidão. E em pouco tempo eu não era mais nada. A dor não me abandonava. Ela era a minha companheira desde quando acordava até a hora de dormir e, não satisfeita, atormentava meu sono. Ficou sendo a substituta das coisas que eu havia perdido. Foi minha companheira durante tanto tempo, que pude tirar dela todo o seu sumo, tudo aquilo que ela podia ensinar. E agora aqui, conversando com o senhor, tudo se tornou claro. Agora vejo que quando se dá, esperando algo, não estamos dando, estamos fazendo uma troca, uma barganha. Mas chega disso. Darei por dar, sem esperar nada em troca.
      Fez-se silêncio. Tudo havia sido dito.
     - Sabe professor – continuou a falar -, é bom quando se tem alguém com quem se pode conversar e desabafar e achar que não está devendo nada por isso... É mais ou menos isso, eu não sei direito. Só sei que agora me sinto bem.
      - Fique à vontade, sempre que precisar – disse Samuel.
    - Bem, agora tenho que ir andando – falou rapaz. Tem alguém me esperando lá fora e que está precisando de mim.
O rapaz levantou e dirigiu-se até a porta. Depois de abri-la, quis dizer alguma coisa, mas limitou-se a sorrir. Samuel também sorriu.

     Já era tarde. No quarto, Samuel continuava sentado na poltrona, lembrando-se do acontecido naquele dia. No quarto o silêncio emanava das poucas peças de mobília. Uma imobilidade silenciosa, eterna e imutável, parecendo querer dizer que tudo que é já foi e tudo que será já é. Levantou-se e caminhou até a janela. A folhagem da árvore em frente já se transformara no lar e abrigo dos passarinhos que encontravam refúgio durante a grande sombra da noite. A pensão toda dormia. Só o vento caminhava pelas ruas. Samuel olhou para o céu estrelado e pensou que já estava chegando o Natal. Pensou em Maria e foi sentar-se à escrivaninha. Depois de acender o abajur, pegou papel e caneta e começou a escrever uma carta.

       Outono, terça-feira, madrugada.
       Querida Maria.
    Você sempre gostou do Natal. Não vou desejar-lhe o melhor Natal do mundo, porque não creio que vá senti-lo assim. Seria hipocrisia.
      Tantas coisas aconteceram... – E continuou escrevendo.


EP.Gheramer

Samuel  - # Fragmento 02



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9 comments:

Dulce Morais said...

EP,
Quantas vezes desejamos um ouvido atento, e encontramos-nos a prestar atenção às palavras dos outros, porque, afinal, eles também procuravam a mesma coisa?
Mas, mais cedo ou mais tarde, seja pela criatividade, pelas lágrimas ou pelo grito de um coração cansado, o desabafo acaba por sair...
Gostei em particular de: "ofereceu-lhe um lenço para enxugar as lágrimas, já que não podia enxugar aquela dor..."
Parabéns!
Abraço!

Gilberto de Almeida said...

EP, vejo a vida como um perene aprendizado. E, a partir do seu conto, essa vida que vejo, imita a arte. Quantas vezes não somos colocados "acidentalmente" diante de alguém que apenas nos escuta e isso nos multiplica a capacidade de percepção sobre nós mesmos? Nesse conto, Samuel teve essa capacidade de "catalizador", de fazer seu aluno encontrar algo de valioso dentro de si mesmo! Quanto podemos aprender sobre nós mesmos, aprendendo uns com os outros, não é mesmo? Estou curioso pelo próximo "fragmento"...

E.P. GHERAMER said...

Dulce e Gilberto
Caros Amigos. Gostaria muito de responder seus Comentários. Mas, o que eu diria além do que já foi disseram? Assim, fico com suas reflexões e deixo meus sinceros agradecimentos por tão grande gentileza.

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

E.P, esse fragmento mexeu comigo, quantas vezes necessitei desabafar... Olhei para um lado, para outro e não encontrei aquele olhar "atento" capaz de só me ouvir...

Parabéns!

E.P. GHERAMER said...

Entende isso, Claudiane. Mas, muitas vezes desabafamos com quem não devemos. Precisamos ter cautela.
Obrigado por seu amável Comentário, Claudiane!

Suely Sette said...

E.P como explicar que um conto tão bem escrito tenha vindo a mim,num momento tão especial.
Quantas vezes somos Samuel na vida?
Passamos tão perto da felicidade e deixamos voar momentos de extrema riqueza,junto aos que nos são caros.
Ainda bem que retroceder é possível.
A necessidade de ter com quem conversar, me levou a um voluntariado que me proporciona grandes alegrias. Quantas vezes ao emprestar os ouvidos para quem precisa ,eu acabo sendo ouvida e assim nessa troca humana e divina a vida ganha novo colorido.Amigo poeta, ler o que você escreve é ter contato direto com o que muitas vezes está velado em nós! Obrigada por hoje! Abraço fraterno!

E.P. GHERAMER said...

Como é bom saber que você empresta na realidade, o que relato neste texto de maneira ficcional. É, ao mesmo tempo, um exemplo e um estímulo, para que saiamos emprestando, cada vez mais, nossos ouvidos a quem precisa - e quem não precisa? Muito obrigado por seu Comentário. É sempre muito bom ler o que você escreve - vai sempre além!
Um grande abraço, amiga Suely!

Isa Lisboa said...

"somente das ruínas pode surgir o novo". Acredito que não tem necessáriamente que ser assim, mas também é verdade que muitas vezes precisamos que o caos venha, para vermos e aceitarmos que não o queremos mais...! Gostei do seu conto, EP! :)

E.P. GHERAMER said...

Concordo com você, Isa. Acontece que às vezes, certos personagens mais assanhados ficam achando que são os donos da verdade.
Grato por seu Comentário e deixo um grande e fraterno abraço, Isa.

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