Samuel
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Conto,
EP. Gheramer
Já passava das seis da tarde. Samuel caminhava devagar pela
rua que o levaria até a pensão. Já se habituara à caminhada que se tornara algo
que aguardava com satisfação antecipada durante um dia de trabalho, naquele lugar
em que lecionava.
O chão de barro vermelho da estradinha era orlado de um lado
por vegetação rasteira e por esparsas árvores frondosas e antigas e, do outro
lado, havia a areia e o grandioso mar que tanto o fascinava. O céu estava azul
e as estrelas, as mais assanhadas, encrustavam-se nele como se não pudessem
esperar pelo anoitecer propriamente dito – parecia um manto real. A temperatura
era agradável.
Enquanto caminhava, os mesmos pensamentos de quando ali
chegara, há dois anos, ainda estavam em sua mente. Eram cenas de um passado
longínquo, de um tempo em que não estava sozinho. O vento que soprava do mar
trazia imagens de pessoas que riam, enquanto brincavam na areia de outra praia.
O rosto de mulher sorria para ele enquanto seus filhos corriam na areia. Era
uma cena feliz e que era revivida com grande alegria. Por que tudo aquilo
acabara? – Ele se perguntava.
Chegou mais cedo do que os outros dias na pensão, pois sempre chegava mais tarde. Como já
acontecera outras vezes, seu prato estava preparado sobre o fogão. Neste dia, Samuel
só tomaria banho depois de comer, pois a fome era maior que seus hábitos de
higiene. Depois de cumprimentar a dona da pensão, que ainda arrumava a cozinha,
ele lavou as mãos e sentou-se à mesa esperando o feijão esquentar. Dona Nina
não gostava quando seus hóspedes se atrasavam para as refeições. Porém, naquele
dia ela não se importou. Teria alguém para ouvir seus planos para o dia de
Natal que se aproximava. Assim, enquanto lavava a louça ia falando da ideia que
tivera de comprar uma televisão para colocar na sala, após o jantar, onde
ela - e quem mais quisesse - poderia assistir às novelas e, aos domingos, aos
programas de calouros dos quais ela tanto gostava.
- Quando... – Continuou falando.
Mas Samuel já não ouvia mais, pois caíra em seus pensamentos.
Lembrava da época em que morava com a esposa e seus filhos em um
apartamento na zona sul da Capital. Apartamento grande e de frente para a rua
principal. Logo este lugar transformara-se num lar. Seus filhos corriam a
brincar, sua Maria estava junto dele e ele a abraçava. Era noitinha. Ele
acabara de chegar do trabalho...
- O senhor está me ouvindo? – Falou dona Nina, interrompendo
e trazendo-o de volta àquela cozinha, tão diferente daquela outra que ele gostava
de lembrar.
- Sim, é claro que estou ouvindo – Respondeu ele,
sobressaltado.
- Pois é, professor. Vou remodelar a pensão para o Natal;
vou comprar um ar condicionado para colocar na sala e... - Continuou ela.
Dona Nina era fina e educada para uma pessoa que morava naquele
lugar, mas, quem sabia da sua vida antes de vir a morar ali? – Pensou Samuel.
Terminado o jantar, ele se recolheu, mas não sem antes dizer
para ela que também estava ansioso para o Natal chegar. Deu boa noite e subiu
para seus aposentos. Era um cômodo grande. De um lado havia uma estante de
estilo antigo onde guardava seus muitos livros; uma cama encostada na parede
oposta, uma escrivaninha a um canto e uma poltrona em frente à janela que dava
para a lateral do prédio. Havia comido mais do que o habitual naquela noite.
Sentou-se na poltrona confortável e ainda sem acender a luz, ficou entregue aos
seus botões, olhando o céu e sentindo a delícia do ar puro e fresco que entrava
pela janela, vindo do mar que ficava próximo.
Deixou-se ficar assim por algum tempo. Por sua mente
passavam os acontecimentos daquele dia na escola. Um de seus alunos queria
conversar em particular e perguntou se poderia esperá-lo em sua sala, durante o intervalo das aulas. Terminada a terceira aula, Samuel encaminhou-se
para sua sala. Ficou surpreso ao ver um aluno caminhando em sua direção. Já
não se lembrava. Sem saber por qual razão sentiu uma tontura que o obrigou a
apoiar-se na parede do corredor. Ele tivera a nítida impressão, embora
passageira, de ver o seu próprio rosto, como em espelho, refletido no rosto
daquele aluno. Logo recobrou o equilíbrio e recebeu o rapaz com um sorriso, na
intenção de disfarçar seu espanto. Com o cenho
franzido, perguntou se poderia conversar com ele em particular. Samuel disse
que sim e convidou-o a entrar em sua sala. Logo percebeu que havia no semblante
daquele rapaz a expressão de uma emoção que, a princípio, não conseguiu
identificar, mas que lhe pareceu familiar.
Depois de fechar a porta, convidou o estranho personagem a sentar-se na poltrona diante da mesa, ao
mesmo tempo em que sentou do outro lado. Houve um momento de silêncio, seguido
por algo que podemos chamar de explosão, tal a força categórica com que ele
falou.
- Eu fui enganado!
Samuel continuou olhando para ele, procurando entender o que
poderia estar por trás daquela explosão.
- Sabe, professor, eu pensava que Deus existia.
Novamente o silêncio, desta vez parecendo maior porque ele
não sabia o que dizer àquele rapaz.
Somente agora, ali sentado em seus aposentos, Samuel
percebeu que aquele rapaz estava precisando era de alguém que o ouvisse, para conseguir
colocar seus pensamentos em ordem. Podia-se notar que se tratava de algo com
raízes profundas em sua vida e que dizia respeito somente a ele.
EP.Gheramer
# Fragmentos
Imagem: Night flight above the clouds - Imagens de Vídeo Stock
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7 comments:
EP,
É um professor interessante, e que vale certamente a pena... estudar!
Gostei do passeio na mente do seu personagem principal, mas também do estudante que, com tanta surpresa explosiva, manifesta a sua decepção.
E se a resposta se encontrasse dentre de cada um deles e no olhar um do outro?...
Fiquei curiosa por saber mais!
Um abraço!
Cara Dulce.
Muito obrigado por seu Comentário. Ele é sempre pertinente e, muitas vezes, chama minha atenção para detalhes que ajudam na composição dos personagens. É muito bom tê-la de volta, amiga Dulce!
Esqueci...
Um grande, fraterno e carinhoso abraço, Dulce!
EP. Essa história convida para uma continuação! Como a Dulce, estou curioso... Teremos esse privilégio?
Grande abraço!
Obrigado, Gilberto. Sim, vamos continuar postando partes (# Fragmentos) da narrativa.
Com admiração, receba meu abraço fraterno, Gilberto!
EP, já estava com saudades do Alves.
Fiquei imaginando a expressão, a energia que envolvia Samuel e se o resultado do encontro desequilibrou o Alves digo, emocionalmente .
Abraço.
Desequilibrou a mim! Escrevi Alves quando deveria ter escrito Samuel. Mas já corrigi. Êta personagem insistente!
Grande abraço, minha amiga Claudiane.
PS: Alves manda lembranças.
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