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A arte pela arte

Imagem do cartunista Maurício Pestana 

     Davi lembrava que durante dois meses mantivera uma amizade com dois biscateiros, eram mecânicos que ficavam na rua, nas proximidades dos bares, à espera que algum carro enguiçasse e eles pudessem prestar seus serviços profissionais. Nos dias em que não aparecia trabalho, ficavam sem ter alimento para levar para casa. Ficavam por ali. Passaram a sentar-se à sua mesa e tomar cervejas por conta de Davi, enquanto conversavam sobre assuntos que, na verdade não tinham qualquer interesse para ele, mas não ficava sozinho.
      Num desses dias, o dono do bar, um sujeito simpático e sorridente – quem não tem um sorriso não deve abrir uma porta de comércio -, chamou Davi a um canto do balcão e referindo-se à despesa que era sempre paga por ele, disse:
   - Tenha cuidado com essas amizades porque eles poderiam estar se aproveitando do senhor. Ao que Davi lhe respondeu:
        - Fique despreocupado, eu também estou aproveitando.
    David sabia que ele não entendera nada do que lhe dissera. A conversa morreu por ali. Davi continuou pagando e ele continuou recebendo. Mal sabia ele que, ao pagar a despesa, estava pagando pela companhia – o solitário estende a mão ao primeiro que passa. A ele, não importava o tipo de companhia. Ali ficava ele, conversando com uns e com outros, horas seguidas. A nenhum deles ele desmerecia. Naqueles momentos, eram seus iguais como seres humanos. Davi não media as pessoas pelos seus hábitos, meras cascas que a sociedade acrescenta ao cerne de cada um e que era comum a todos os mortais. Podia até escolher com quem se relacionava, porém, sem nunca desmerecer ou julgar alguém, seria apenas um pensamento moral, superficial e medíocre – pensava ele. A verdade – ele sabia muito bem -, é que ele pagava a conta para ter companhia. Triste isso! Alguém pode dizer. Davi achava que não. Triste, para ele, era estar só...
     Davi perdeu os amigos como consequência dos próprios comportamentos inconvenientes, não conscientes, durante os estados de embriaguez. E por sentir-se só, bebia mais e cada vez mais, contentando-se com a amizade do garçom que o atendia, porque este não pode evitá-lo. Está ali e não pode sair... Se pudesse, talvez saísse. E, em paga da companhia o garçom recebia, junto com a conta, uma boa gorjeta. Se a gorjeta pudesse ouvir, Davi lhe diria:
          - Obrigado por ser minha amiga.

     Em seu atelier, Davi passava a maior parte do dia pintando. Sua pintura mudara. Pintara, seguidamente, seis telas. E foi neste ambiente, tão somente dele, que recebeu a visita de seu marchand para ver seu novo trabalho. 
       - A temática de sua nova pintura é de cunho social e isto não vende – disse o agente, espantado, diante das telas.
     Na linguagem artística, suas pinturas falavam sobre assassinatos de crianças de rua, da luta pela posse da terra, da fome, do estado de dependência econômica de seu país e do analfabetismo. 
      - Davi, suas telas não são decorativas e as pessoas estão interessadas em comprar quadros para enfeitar as paredes de suas casas - disse o marchand.
         - Talvez seja assim, mas, acontece que sou um artista e não um comerciante. A arte não existe somente para agradar – disse Davi.
      - Eu entendo e, até certo ponto, concordo com você. Mas, veja bem: eu sou o intermediário entre você e o público – disse ele, como se Davi não soubesse. E continuou:
      - Até as molduras devem combinar com a cor dos móveis.
         - Minha pintura não será mais decorativa como antes. Não posso evitar refletir na tela o momento de lucidez pelo qual estou passando e do qual me esquecera – disse Davi.
     - Eu sei, eu sei... Mas, quadros com esta abordagem social não servem nem como um investimento, pois eles não garantem um lucro posterior. É preciso que você entenda isso. Estou lhe falando, em primeiro lugar, como amigo – disse o galerista.
      - De agora em diante eu farei arte pela arte, nada mais do que isso. Nestes trabalhos que você está vendo, eu transportei para a tela os temas com que a imprensa em geral descreve, com palavras e imagens, a realidade atual – triste e cruel, mas real. Eu participo do presente momento e não quero ficar indiferente às coisas que acontecem ao meu redor, causando-me indignação – disse Davi, com determinação.
    Ficou claro para o marchand que ele não mudaria de ideia.
    - Talvez você tenha certa razão no que disse. Mas é preciso que você entenda minha posição como proprietário da galeria – falou o negociante.
   De qualquer maneira, em nome de nossa amizade, embora eu já saiba qual será o resultado, levarei uma das telas e deixarei em exposição e vamos ver qual a reação do público – disse o comerciante.
     - Está certo. Leve esta – disse Davi, apontando para a tela que pintara primeiro.
     Com a tela debaixo do braço o comerciante despediu-se e saiu, dirigindo-se para o estacionamento. Enquanto andava, estava preocupado com a reação no mercado de artes. Os investidores já conheciam o estilo da pintura de Davi. Temia por si mesmo.


EP.Gheramer
# Fragmento 05 (O ébrio) 

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5 comments:

Dulce Morais said...

Colocar-se em perigo, em nome da arte... ou da solidão que avassala?
Nem sempre tudo é preto ou branco, mas o texto é perfeito!
Levou-me a pensar na forma como encaramos a nossa realização enquanto Seres Humanos: Será que fazemos o que a sociedade nos permite, ou infringimos as regras... ao risco de queimar as asas...?
Obrigada por esta leitura perfeita, EP!
Abraço!

E.P. GHERAMER said...

Grato pela reflexão, minha amiga Dulce,
Um grande abraço, para você!

E.P. GHERAMER said...

Penso que o prêmio vale risco, Dulce.
Abraço!

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

E.P,interessante esse fragmento.

É natural do ser humano querer se cercar de objetos bonitos(agradáveis aos olhos), é de certa maneira uma fuga.

Em relação ao artista " Davi" por certo já alcançou um certo desprendimento.

Parabéns.
Abraço

E.P. GHERAMER said...

Claudiane.
É natural e é bom que seja assim.
Grato por seu Comentário.
Um grande abraço, Claudiane!

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