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Clara Luz

Conto fictício escrito em agosto último, para um concurso de Minas Gerais. Bem que eu queria que esse conto tivesse um final feliz...
JGCosta

Clique na imagem para ver de onde ela veio!


Clara Luz

Era uma vez uma menininha morena, com pele cor de jambo, que nasceu numa favela sem nunca conhecer o pai, já que nem sua mãe, mulher da vida, tinha certeza de quem ele era.
Essa menina era eu, essa menina ainda sou eu!
Nem sabia se eu tinha um nome, um registro no cartório, pois sempre fui chamada de neguinha pela minha mãe e pelos homens que a visitavam em nosso barraco estreito e mal cheiroso. Só descobri que me chamava Maria da Luz quando fui providenciar meus documentos pessoais, mas saiba, isso demorou muito tempo, contado no relógio do sofrimento.
A comida onde morávamos era escassa, então cresci seca feito um palito, nem sei como não sucumbi a alguma doença morando naquelas condições de falta de higiene e limpeza. Não tinha liberdade para ir a rua ver outras crianças e quando reclamei um dia sobre isso, levei um tapa tão forte no rosto que até fiquei zonza. Foi a primeira e última vez até hoje que eu me queixei de algo, simplesmente deixei a vida seguir seu rumo, até hoje...
Escola eu só fiquei sabendo que existia quando minha mãe morreu. Ela começou a emagrecer de um dia para o outro, já não mastigava nada, só fumava e bebia, não demorou muito para dizer adeus a esse mundo. Aceitei que aquilo era normal e não senti nada ao ver o pessoal do fundo social buscá-la. Nessa época eu também não sabia o que queria dizer mãe, para mim era só uma pessoa com quem eu convivi por dez anos por pura obrigação. Agora estava livre para viver na rua.
Segui os mesmos caminhos de quem me trouxe ao mundo, vivia de esmola ou pequenos furtos na feira que acontecia quase todos os dias pra lá do mangueirão. Quando meu corpo começou a se formar, um homem conhecido por Nego se apadrinhou de mim e me deu um cantinho, em troca de favores sexuais. Fui seguindo nessa vida, conheci as drogas aos 14 e fiquei grávida aos 17, de algum dos amigos do Nego, que viu em mim um bom negócio. Minha vida alucinada só parou quando dei entrada no hospital com uma barriga inchada que nem parecia carregar um ser lá dentro. Eu me alimentava mal, me cuidava pior ainda, se de dentro de mim saísse algo com vida, eu poderia acreditar que se tratava de um milagre, mas até essa palavra eu desconhecia naquela época, pois também nunca havia sido apresentada a Deus. É verdade! Mas Ele lá estava naquela noite em que eu berrava de pernas abertas naquele quarto branco de hospital.
Muitas horas depois de um enorme sofrimento, uma enfermeira risonha apareceu do meu lado com um montinho de pano no colo. Lá dentro se encontrava uma menina barulhenta e a enfermeira me informou que se tratava da minha filha que aguardava meu primeiro contato. Peguei aquele ser pequenino nos meus braços e ao olhá-la descobri que se tratava de uma branquelinha com olhos enormes e azulados. Fiquei ali um tempo olhando pra ela e ela pra mim, foi um momento muito bom. Senti algo diferente por dentro, me apertando a boca do estômago, algo que foi subindo por dentro, que passou por meu peito e chegou aos meus olhos. Aprendi a chorar.
A enfermeira quis saber o nome para colocar na pulseira da minha filha. Sem pensar respondi: ela se chamará Clara.
Depois desse maravilhoso acontecimento em minha vida, toda ela mudou. Fui para uma casa de abrigo para jovens mães solteiras, de onde passei a frequentar uma escola e a trabalhar no local, em troca de comida e um lugar para ficar. Descobri como era bom ser mãe, viver de ganhar e dar abraços, de beijos e de sorrisos, de repente eu vivia no paraíso.
Anos depois conheci o João, um homem muito bom que ensinou outro tipo de amor, mas a Clarinha foi a única contribuição que eu dei para o mundo, pelo menos do meu ventre, pois não podia mais engravidar. Adotamos um casalzinho de irmãos que tinha dois anos a menos que minha filha e tocamos nossa vida. No início eu fazia faxina para ajudar no orçamento, com o tempo mudei para serviços em lojas, depois indústrias, e finalmente após anos de estudo acabei parando, vejam vocês, numa instituição que cuidava de menores abandonados.
Nessa época eu trabalhava como Assistente Social e passei a retribuir para outras vidas tudo de bom que haviam feito pela minha.
Clarinha tinha 20 anos quando me deu de presente o primeiro neto, nessa época já trabalhava como enfermeira num hospital da região. Dois anos depois veio o segundo. É impossível demonstrar com palavras quantas alegrias esses novos seres me trouxeram. Minha Clara que já era linda, agora após se tornar mãe, parece que toda a beleza do mundo se concentrou nela.
Lembro-me bem na minha cabeça cansada, apesar de já fazer três anos, o dia mais triste que eu vivi. Imaginem vocês que a minha salvação para esse mundo foi quando me tornei mãe e descobri que o amor não era somente uma palavra pichada num muro de concreto, então me digam vocês o que eu posso ter sentido quando minha luz foi arrancada de mim.
Vocês todos aqui já sabem, mas eu vou repetir: era noite quando o bandido a seguiu, ela que tinha atravessado a noite no hospital e voltava caminhando para sua casa, que ficava a dois quarteirões de distância. O fulano a arrastou para um beco escuro, a estuprou em meio a arranhões e depois a matou por estrangulamento. Saiu dali como se nada tivesse acontecido, voltou para casa, tomou um café e foi trabalhar.
Longe dali acordei assustada de um pesadelo que não conseguia lembrar, com um aperto no coração que parecia até um infarto. Logo a dor passou, mas a notícia chegou como uma punhalada: minha Clarinha já não se encontrava entre nós.
Em algumas semanas a polícia fez muito bem o seu trabalho e prendeu provisoriamente o seu assassino. E hoje, tantos anos depois, eu lhe pergunto, Senhor Juiz, se uns poucos anos de cadeia irão fazer com que esse homem seja reintegrado à sociedade.
Ele tirou de mim toda a luz em forma de filha que eu ganhei do Bom Deus do Céu; ele tirou da família dela toda a alegria que ela irradiava; ele tirou do mundo o bem mais precioso e de imensurável valor: uma vida!
Digam-me então como é que esse homem poderá pagar o preço por algo que não pode ser valorado; convençam-me vocês que alguém que extrapolou por maldade todos os limites da razão e sem aparentar um mero remorso, busca recobrar a sua liberdade, a sua vida, tal qual aquela que ele ceifou com suas próprias mãos; digam-me vocês que castigo esse homem merece?
Pelas nossas frágeis leis logo ele estará livre, passeando na praça, quem sabe procurando outra vítima, mas para mim, meu caro Juiz e demais presentes, a prisão perpétua seria o melhor remédio para alguém que tem a coragem de realizar ações tão desumanas.
Imaginem vocês um tigre solto na selva, ele matará outros animais para se alimentar, essa é a sua natureza, e se for retirado do seu habitat comum, viverá a vida toda atrás de grades num zoológico. Por quê? Porque ele possui uma natureza animal.
Agora um homem, que pela sua sabedoria e inteligência deveria zelar pela vida das pessoas, faz justamente ao contrário, colocando um fim na vida de uma pessoa, de uma maneira bárbara, irracional, animalesca, esse ser eu lhes digo, tal o tigre, quando está fora de seu meio ambiente equilibrado, deverá ser mantido pelo resto da sua existência numa jaula, para que ele não possa ferir outros seres, para que ele, como foi no meu caso, não venha a ensinar outras pessoas a chorar de dor.
Meu bom Juiz dê o senhor a justa sentença, minha voz agora se cala, já me estendi demais, mas se daqui eu não sair com a certeza de que se fez justiça, pode acreditar que eu não me calarei jamais.

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2 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Joel, seu conto me tocou muito... Parabéns e obrigada por ter compartilhado.

"tal o tigre, quando está fora de seu meio ambiente equilibrado, deverá ser mantido pelo resto da sua existência numa jaula, para que ele não possa ferir outros seres."

Nunca havia pensado por esse prisma.
Abraço.

Dulce Morais said...

Joel,
A emoção ganhou-me durante a leitura, e demorei a comentar...
Está na natureza do Tigre matar para sobreviver... Mas não deve estar na natureza do Homem matar pelo prazer.
As leis são imperfeitas porque o Homem é imperfeito. São humanas... e apenas humanas...
Mas pode haver reconforto noutra justiça... talvez...

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