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Razão e Sensibilidade


Imagem: UOL¹ 




      Davi inscreveu seus quadros nos dois Salões de Artes Plásticas que se realizavam na Capital. Desde então, seu problema passou a ser qual dos dois Salões deveria escolher? Assim, ficou ele a pensar consigo mesmo, pesando os prós e os contras de cada um. O Salão Nacional teria o interesse em promover e divulgar suas obras, porque seu objetivo imediato era o lucro. Já no Internacional, seria apenas mais uma exposição; internacional é claro, mas poderia ter ou não consequências e seriam a médio ou longo prazo, além de ser mais arriscado, pois concorreria com artistas de todo o mundo.
      Assim sua dúvida passou a ser esta e não mais se seria ou não selecionado. Ele já se via como a revelação dos últimos anos nas artes plásticas. Finalmente, chegara seu momento de fama. Todos se orgulhariam dele; seu filho sentiria orgulho do pai famoso. Seria o coroamento de uma vida dedicada às coisas com as quais ninguém se importa ou valoriza. Os outros – pensava Davi -, adoravam a riqueza e entregavam-se a trabalhos que detestavam para alcançá-la. Mas ele não! Ele fizera o caminho inverso e iria conseguir riqueza e fama, fazendo um trabalho que não era trabalho, porque era algo que fluía naturalmente de sua mente para suas mãos e destas para as telas, ganhando corpo, concretizando sonhos... Sim, mostraria a todos! Mostraria a seu filho que devemos fazer somente aquilo que gostamos de fazer, mesmo que os resultados não aparecessem logo; o dinheiro seria uma decorrência natural.
      Tais e muitas mais eram as coisas que se arquitetavam em sua mente que parecia não enxergar a realidade, o sistema; embriagada, não de álcool, mas de alegria.
Afinal, chegara aonde queria! – Pensava ele.

     Mas, não foi isso que aconteceu. Seus quadros não foram selecionados em nenhum dos Salões.

      Passado o primeiro momento, Davi procurou encarar o acontecido como algo que ele já esperava e que, de fato, já pensara quando recebera os primeiros incentivos para ousar voos mais altos, galerias famosas. Procurou racionalizar, para si mesmo que os conteúdos, temas daqueles quadros falavam de uma realidade que tinha, como principais culpadas, aquelas pessoas que moravam nos bairros mais ricos da cidade e onde os Salões se realizariam. E, portanto, só frequentados pela elite econômica que, através da mídia, era a dona das artes, da cultura, do modismo e responsável pela alienação do povo miúdo, etecetera, etecetera, etecetera. No caso do Salão Nacional, os responsáveis pela seleção eram empregados do Estado e isto queria dizer que se chegaram àqueles cargos, era porque pactuavam com o governo que é o verdadeiro responsável pela política econômica recessiva em que estava mergulhado o país e que barra o desenvolvimento, provocando o desemprego, a fome, a miséria, a doença, a violência e tudo isso para quê? – Davi perguntava e respondia: para pagar os credores externos que não se importam se vidas estão sendo ceifadas, desde que eles recebam o que acham que é seu! Custe o que custar, doa a quem doer...
      Com esses pensamentos, Davi achava que era normal que suas obras fossem recusadas.
      Porém, esta era a parte racional, o óbvio. Mas, e quanto à sua parte emocional, quanto aos castelos que ele erguera e que, de maneira inexorável, agora desmoronaram, evaporaram-se...
      - Oh! Deus! – Perguntava-se – Que faço eu aqui no fundo desse poço depois de ter sido elevado a tão grandes alturas?
      - Estou todo quebrado... Quanta dor, meu Deus! Ah!... – Lamentava-se Davi.
      Lutara contra tais sentimentos, forçara a razão impedira a explosão da emoção. Procurara ser realista, sensato, forte - como dizem. Mas o tombo se mostrou grande demais. Não bastavam mercúrio e band-aid e nem um pouco de sulfa; não fora somente um arranhão, um ralado no joelho, desses que cansamos de ter quando crianças e que logo, graças ao vigor – e inocência – ficam curados por si só. Não. Davi aguentara a dor colocando compressas o mais que pode, mas, aos poucos foi se abrindo à sua frente um vazio, um nada, um horizonte vazio, negro, sem mais nenhum castelo, nem mesmo suas ruínas... Ele era a ruína. Investira demais, sonhara demais, subira demais, fez tudo demais... caiu fundo demais. Fracassara. Não o entenderam, ou melhor, não quiseram entender. E não iriam nunca querer entender. Isso não interessa – dizem eles -, não precisamos de agitadores sociais; não queremos educar as massas; não precisamos da Arte consciente, não queremos Arte que levem as pessoas a pensarem sobre algo concreto, real. Queremos borrões de tinta nas telas onde cada um veja o que quisermos que elas vejam, isto é, nada... Queremos quadros que retratem a diarreia mental em que se encontra o “artista”, completamente alienado. É esse tipo de arte que queremos e que será entendido por outras mentes, também acometido deste mesmo desarranjo intestinal. Pintura “abstrata” – dizem eles! Isso é bom para um povo que não passa fome, tem escolas que, além das primeiras letras, também ensinem o indivíduo a descobrir-se e à realidade exterior, proporcionando uma vida em completa harmonia entre o fora e o dentro, porque é uma coisa só; é boa para um povo que não vê suas crianças assassinadas para que não sejam os bandidos de amanhã; para um povo que tem um teto para abrigar-se das intempéries do tempo, um chão seu para pisar e criar raízes para retirar a seiva e espalhar pelo frondoso tronco, em direção aos ramos com folhas e flores que se transformem em frutos, depois de fecundadas, e cresçam bonitos e suculentos graças à seiva que é retirada pelas raízes do solo que é seu. Seiva e fruto, informação e pessoa... relações diretamente proporcionais; a qualidade de uma depende da qualidade da outra. Não devemos falar de flores enquanto o jardineiro passa fome, diz o filósofo. Assim também deve ser com a Arte. Um verdadeiro Artista nunca é alienado.



     Assim, Davi conseguiu suportar mais de mês, porém, com o passar dos dias foi enfraquecendo.

EP.Gheramer

(1) UOL




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3 comments:

Dulce Morais said...

EP,
Quando tentamos colocar um julgamento sobre a arte, somos sempre injustos... seja qual for o sentido que ela tem ou o sentido que queremos colocar-lhe...
Podemos ou não gostar, mas um artista não gosta ou deixa de gostar! Um artista vive! Vive na tela como um autor vive nas palavras...

O Davi tem algo que me interessa além do seu conto. Aida não identifiquei o que seja, mas espero vir a descobri-lo com os próximos capítulos :)

Abraço!

E.P. GHERAMER said...

Também penso assim, Dulce.
Pode parecer estranho, mas parece-me - por enquanto - que não há uma identificação íntima dele com o aqui-e-agora.
Grato por seu Comentário, Dulce.

Isa Lisboa said...

Essa luta entre a razão e a sensilbilidade é algo de difícil. Principalmente quando ns surge no seguimento de um sonho desfeito! Estou curiosa quanto ao futuro de Davi, espero que vença a Arte!

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