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Trovão de Curta Duração

Femme aux Bras Croisés - Pablo Picasso

Trovão de Curta Duração

Por pouco que paremos um instante, calando os nossos pensamentos próprios, e observemos – com os olhos e o coração abertos – o mundo à nossa volta, podemos descobrir imenso sobre o Ser Humano. Tentando a experiência nos transportes em comum, é fácil captar conversas inteiras, pedaços de vida dos que partilham o nosso espaço.

A experiência tentada cada dia, em várias pessoas ou grupos que conversam, leva-nos a compreender que um dos principais motores (ou será um travão?) da humanidade, talvez seja o medo.

Há medos tão diversos como há pessoas, mas geralmente todos – ou quase – temem as mesmas coisas: medo do olhar e julgamento alheio, medo de sair da nossa zona de conforto, medo de perder o que se possui – mesmo, e sobretudo, quando duvidamos de poder possuí-lo, medo de ganhar – Sim, sim! Acreditem! – medo de tentar, medo da derrota e medo de vencer... Poderíamos continuar a lista ao infinito, mas esses são comuns a quase todos nós.

E, porque compreendemos que não há forma de avançar sem se libertar dos medos, tentamos desesperadamente livrar-nos deles, como quem sacode uma poeira no casaco. Mas, como para o vestuário, a poeira fica-nos colada à alma e ao coração e é necessária uma lavagem profunda para que ela descole.

Quantas vezes o medo te visita durante o mês, a semana, o dia...? Hoje é o sexto dia e o danadinho já me fez três visitas, a última foi ainda agora quando peguei essa crônica para dar continuidade, apareceu na forma de medo de decepcionar (não ser capaz de concluir com êxito a tarefa).

O mais correto nessa hora é tentar ficar tranquilo, afastar o pensamento negativo e focar, mesmo porque com ou sem medo, a vida parece com um rio, uma hora acabará desaguando. Alguma vez você já tentou esvaziar seu reservatório de medos? Confesso que o medo que me acomete em relação aos meus filhos, esse eu não consegui, vai ver mãe é assim mesmo.

E o que falar daquele medo que, por mais que consigamos descolar, num piscar de olhos lá estão eles, atraídos como imãs, como por exemplo, o medo do assalto, da violência e isso porque somos constantemente bombardeados com notícias que nos levam a gravar essas imagens negativas e acabamos sempre ficando em estado de alerta.

A quantidade de pessoas atualmente que sofrem de ansiedade1  vem aumentando em ritmo alucinante. Conhece alguém que no dia a dia vive em constante medo exagerado em relação à saúde, ao dinheiro, ao trabalho, filhos, marido...? Sabia que ela pode estar sofrendo um distúrbio chamado (TAG)?

O transtorno da ansiedade generalizada (TAG), segundo o manual de classificação de doenças mentais (DSM.IV), é um distúrbio caracterizado pela “preocupação excessiva ou expectativa apreensiva”, persistente e de difícil controle, que perdura por seis meses no mínimo e vem acompanhado por três ou mais dos seguintes sintomas: inquietação, fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração, tensão muscular e perturbação do sono2.

O Ser Humano é, por natureza, prudente. Desde a idade das cavernas que o medo permite proteger-se dos perigos. Se durante a pré-história o medo permitia salvar vidas dos perigos da Natureza, tornou-se na época moderna uma patologia, estudada, investigada, tratada por meios químicos que tentam apaziguar a angústia por ele trazida, por terapeutas, profissionais ou amadores, atormentados, eles também, pelo medo de não conseguir ajudar quem lhes solicita uma mão estendida.

E a mídia, quase sempre mais interessada em vender do que em informar, oferece aos leitores pormenores de que ninguém precisa para compreender um evento, violências exacerbadas e, em muitos casos, quase que glorificadas, porque o angustiado leitor, ao ler e compreender que, afinal, existem pessoas bem piores, bem mais angustiadas, bem mais violentas, tranquiliza-se e encontra assim uma justificação para os medos que vai mantendo vivos e ativos no seu intimo.

Não esqueçamos que há violência no medo: aquela que nos atormenta por ficar preso a ele, que se manifesta nas nossas interações sociais. Não será o medo (de perder a face, de perder o que se pensa possuir, de não corresponder à imagem que esperam de nós) que leva tantos de nós a agredir, em palavras ou actos, os nossos semelhantes?

Mas poucos param para questionar, combater, afastar os medos que vivem no seu íntimo. Esquecemos que a coragem não é a ausência de medo, mas a força de o ultrapassar.

O escritor Gabriel Chalita tem uma frase interessante “São os afetos cotidianos que ajudam a diminuir o medo”. Quem sabe a chave desse travão não esteja contida nessas palavras substanciais.

As autoras desta crônica não têm nenhuma receita. Mas ambas combateram o seu medo: uma porque sabe o quanto escrever representa um desafio e que teme, ainda agora, não transmitir a mensagem que desejava, outra porque tem consciência que as palavras orais caem no esquecimento, ao contrário das escritas que acabam sempre vestindo alguém.


Claudiane e Dulce

(1) Ansiedade é um sentimento vago e desagradável de medo, apreensão, caracterizado por tensão ou desconforto derivado de antecipação de perigo, de algo desconhecido ou estranho.


(2) Fonte: http://drauziovarella.com.br/letras/a/tag-transtorno-da-ansiedade-generalizada/

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7 comments:

Dulce Morais said...

Clau,
É um imenso prazer escrever poemas e contos em parceira consigo. Descobri que partilhar a escrita de uma crónica é também uma aventura!
A partilha de ideias, o incentivo na construção deste texto foram motores que ajudaram a combater... o medo :)
Imenso abraço!

Carlos NNeves said...

Belo texto... a quatro mãos.. um só coração.
O medo que se cuide!

E.P. GHERAMER said...

Claudiane e Dulce.
"... as palavras orais caem no esquecimento, ao contrário das escritas que acabam sempre vestindo alguém.". Eis aí a força da Literatura engajada, que luta para trazer o medo à lucidez e dele se desvencilhar. Teria muito ainda a dizer, mas penso que esta Crônica já diz tudo. Por que repetir?

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Dulce, os leitores mais atentos sabem que sou sua fã. Escrever junto com você, no início sempre dá um friozinho na barriga mas passa logo, tamanha é a nossa sintonia.

Realmente a crônica foi uma aventura deliciosa, desafiante... agradeço a Deus por isto. Carlos acertou quando diz um só coração.

Beijos!

Isa Lisboa said...

Se o tema é o medo, abordá-lo é corajoso! É verdade que esse é um dos males do mundo atual e que muito nos puxa para trás. Mas se é para a frente que queremos ir, ultrapassar os medos será sempre possível!
Parabéns pela colaboração! Um abraço a ambas!

Gilberto de Almeida said...

Dulce e Claudiane, até há pouco tempo, eu entendia o medo como algo natural, como parte da natureza humana, e convivia com meus medos em perfeita simbiose... Hoje penso diferente: como vocês bem colocam, o medo é patológico! Ele se opõe à vida sadia, impede o progresso do Ser. Onde estará o antídoto?

Abraço fraterno às duas!

Themístocles Claque said...

Muito bem colocado, as facetas do medo! O medo da cobra e do ladrão parecem instintos saudáveis. Mas o resto é ansiedade de ego. algo que se coloca como centro. Que acha que nada pode abalar, que não merece, que isso "não é com ele". E há negação. E o fenômeno do tempo. O tempo psicológico. Isto pode vir a ser, acontecer... Você falou sobre os derivados da ansiedade. Eu tive síndrome do pânico, que por definição é um momento entre 5 e 15 segundo que achamos que vamos morrer. Pois te digo: são cinco a 15 segundos de pavor, absoluto medo de viver! Parabéns!

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