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Eu, em Pessoa...

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Eu não sei se gosto de escrever.
Às vezes as ideias se me atropelam em meu cérebro,
e numa tal velocidade que não consigo encostar as ideias à escrita.
Muito de mim se perde nesses intervalos.
Fico incompleto.
Tal qual estava antes.
Por isso, talvez, eu relute em escrever.
O sentido de mim mesmo fica perdido,
porque meus pensamentos sobre todas as coisas
que quero fazer e ser e penso, são tão mais rápidos
do que posso torná-los compreensíveis pela escrita.
Também não gosto de rimas.

Falar os pensamentos escrevendo-os e rimando-os é
formar um entendimento onde o entendimento deixa de existir.
É não ser natural.
É não ter a espontaneidade que tem a vida e o ato de viver.
É negar o movimento e o tempo, o descuido, o informal, o impetuoso,
o único, o inconveniente, o rápido, o verdadeiro, o real.
A rima torna a poesia incompleta no seu verdadeiro sentido.
A minha vida não tem rimas, por isso o seu sentido é completo para mim.
Não há concordância entre os versos que compõe o meu dia-a-dia.
Ninguém jamais conseguiria me biografar
utilizando a concordância, ou a métrica, ou a harmonia e a cadencia
de uma poesia com rimas, clássica, enfadonha, previsível.
Não existem, apenas, versos decassílabos, ou dodecassílabos,
nem mesmo versos alexandrinos ou redondilha maior ou menor
que possam dar vida à minha vida.
Por isso não gosto de rimas em poesia.
Porque minha vida e minha existência é real.
Eu não forço a minha vida
a existir e nem existo em vida, forçosamente.
Eu sinto tudo fluir no entorno de mim.
Eu próprio sou um fluido de mim mesmo,
alguma coisa que se acumula em si mesma,
que nunca é igual em nenhum instante do viver,
mas que, na essência do existir, é sempre o mesmo.
Às vezes quero ser diferente do que sou,
ou ser o que sou e pensar diferente do que penso.
Nunca há, em mim, uma concordância entre o que sou
e o que penso que sou de mim mesmo.
Sempre tenho comigo a nítida sensação de ser mais que um
e o meu todo é sempre dividido entre eu e o que sou de mim.
(Muitas vezes aquele que já fui vem dizer “olá!” àquele que estou sendo, e
aquele que quero ser muitas vezes sente medo
de querer ser e volta a ser o que estou sendo agora.)
Pensar o futuro ou desejar coisas que estão ainda por acontecer
é transformar o presente que estou vivendo,
porque todo futuro é consequência do presente,
dos meus atos e pensamentos de agora,
e todo o meu passado também o é
porque já existiu como presente.
Passado é o presente que deixou de existir e
o futuro é o presente que ainda não me dispus a concretizar.
(Hoje eu já pensei tantas coisas que eu queria escrever,  e
já formulei em meus monólogos internos tanta poesia, e
já conversei comigo mesmo na forma de poesia tantas coisas, e,
no entanto, agora, já de noitinha, não me recordo de coisa alguma
que pudesse ter algum significado, além do significado de só existir!)
Eu gosto das coisas que eu penso,
na forma e conteúdo de como eu as penso,
e sinto vontade de as partilhar e aos meus
momentos de lucidez e consciência viva.
São instantes de clareza, de objetividade e que me fazem
sentir a vida de uma forma diferente daquele modo habitual
ao qual eu estou acostumado.
É assim como se as verdades, ou as coisas que compõe a verdade,
saltassem aos meus olhos e então eu me sinto verdadeiro, real, certo,
tão absolutamente certo como se Deus estivesse revelado em mim;
tão certo como se todas as leis do Universo tivessem sido sancionadas,
promulgadas e ditadas por mim.
(E eu sei que isto não é, nem de longe, nenhuma verdade!)
Convicção. Verdades. Certezas. Dogmas. Teorias.
Realidade. Onde estão?
Onde encontrar a convicção de estar convicto?
Ou a verdade da própria verdade?
E, ainda, como ter certeza da própria certeza?
Não. Eu não me importo com isso tudo.
O que, deverás tem importância para a vida são os opostos;
O Real e Irreal. O Feio e Belo. O Largo e o Estreito. O Fundo e o Raso.
O Certo e o Errado. O Alto e o Baixo. A Luz e as Trevas. O Frio e o Calor.
O Amor e o Ódio. O Pequeno e o Grande. A Alegria e a Tristeza.
O Eu e o mesmo de Mim.
Eu tenho que ter em mim todo o contraditório das coisas que existem.
São elas mesmas que me permitirão exercer o poder
da escolha entre o eu que tenho comigo, escondido de mim, agora

e o eu que já estou sendo hoje, ontem...amanhã, talvez!

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2 comments:

Gabriel Arcanjo said...

Porque escrevo?
No que a arte consiste?
Fazer os outros sentirem
O que nós sentimos?

Mas que espécie de libertação é esta?

Tento traduzir os meus sentimentos
Numa linguagem incompreensível...
A verdadeira substância do que sinto
É incomunicável...
E quanto mais profundamente sinto
Mais incomunicável
É o que tento transmitir...

Tudo o que é abstrato
É difícil de compreender...

Não evoco a felicidade,
Não posso...
Não posso traduzir em frases
Esta emoção de viver.

Em mim as afeições, por vezes,
Passam a superfície,
Mas sinceramente
Tenho sido ator sempre.
Fingir é amar.

A arte mente porque é social,
E ela existe por razões inumanas
E particulares...

Cheguei hoje a uma sensação
Absurda e justa
De que não sou ninguém...
Nada do que supus que fosse.

Sou os arredores
De uma vila que não há...
Rastros de músicas, sílabas e vozes...

Meu pai morreu muito cedo
Mal cheguei a conhecê-lo
A indelicadeza suposta dos meus atos
Que era afeição verdadeira se perdeu...

Ah! Vasta vertigem do que sinto...
Oceano infinito em torno de mim...
Imagens do que vi e vivi...
Geometria do abismo...

Evoco a felicidade
De não ter direitos e nem deveres,
De ser livre e não saber pensar.
A mentira é simplesmente
A linguagem ideal da alma
E a poesia começa a mentir
Na sua própria estrutura.

Ronaldo Savazoni said...

Gabriel quero te agradecer por me brindar com esse texto que acredito ser de sua autoria. Gostei imenso...não sou muito de parabenizar mas me vejo numa condição em que é impossível não faze-lo. Parabéns!

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