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PARA SER ARTISTA



Não profetizeis para nós o que é reto; dizei-nos coisas aprazíveis, e profetizai-nos ilusões. (Isaias 30:10)


Da última vez que conversamos você disse que sabia que as estrelas continuavam lá, pois já as vira em épocas passadas, está lembrado? A que épocas passadas você se referia? - Disse o psiquiatra, procurando dar continuidade à sessão anterior.
- Criar é muito importante para mim; acho que não viveria sem fazer isso – disse Davi, parecendo não ter ouvido.
- Então você confirma sua intenção de continuar a ser um artista? – Perguntou o psiquiatra.
- Se eu disser que sim, estarei abdicando de viver como as outras pessoas? – Disse Davi.
- Diga-me se estou entendendo. Mesmo depois de seus quadros serem rejeitados para os Salões, você acha que isso não interferirá em sua capacidade de continuar a ser um artista, isto é, você ainda terá inspiração para continuar a criar. É isto que você está dizendo? – Perguntou o psiquiatra.
- Seu eu puder retirar-me para um lugar onde possa encontrar a reclusão extrema, eu poderei encontrar isso que chamou de inspiração – respondeu Davi.
- Você sente a necessidade da solidão, é isto? – Perguntou o psiquiatra.
- Não da solidão, mas de sua quietude.  Já não sei se tenho certeza de que sou um artista. Sinto que não nasci predestinado para alguma coisa. Apenas sei que quando estou sozinho, eu faço coisas que parecem ter sua origem em algo dentro de mim; algo que eu não sei o que é... – Foi interrompido pelo psiquiatra que disse:
- O preço de se viver em sociedade é, em grande parte, o sacrifício da satisfação de muitas coisas que nos dão somente o prazer. Temos que respeitar o outro e isso implica em seguir certas normas – disse.
- Nunca me senti bem ao lado dos humanos, a não ser esporadicamente. Acho-os por demais superficiais e às vezes em que consegui viver bem ao lado deles, foi quando eu também me tornei superficial. Eu anseio por uma vida mais plena, mais cheia. Há dentro de mim a insatisfação quanto a esta vida comum da maioria dos mortais – trabalhar, ganhar dinheiro, consumir, beber, rir sem estar realmente feliz ou alegre... – Disse Davi.
E depois de um intervalo, em que parecia estar pensando, continuou.
- Desejo viver num lugar onde eu possa abrir a janela e respirar fundo, sentindo que minhas entranhas estão sendo lavadas por ondas de vitalidade, paz e harmonia. Quero olhar ao redor e sentir que meus olhos brilham ao ver a paisagem sempre vitalizante e saudável. Quero viver feliz, com a mente vazia de coisas pequeninas e supérfluas que enlameiam minha mente, consumindo manchetes de jornais ou fofocas de vizinhos. Quero dar um basta às coisas medíocres, do barulho da televisão, com suas novelas que padronizam o comportamento e impedem verdadeiros sentimentos e emoções. Estou cansado de ser um meio-homem. Quero ser inteiro.
- Já percebeu como é curiosa esta sua maneira de querer viver assim e, ao mesmo tempo, querer criar... o que é a mesma coisa que ser um artista? – Observou o psiquiatra.
- Por quê? – Perguntou Davi.
- Ora, o homem deve trabalhar para prover sua própria subsistência, isto é, comer, beber, ter um lugar para morar e, para isso, precisa que o seu trabalho lhe proporcione isso, nem que seja o mínimo necessário e, como parece que você está desprezando a opinião dos outros, no que se relaciona com sua pintura, então, eles, que já mostraram que não gostam do seu estilo, também não comprarão os seus quadros – falou psiquiatra.
Como se não tivesse ouvido a argumentação do médico, Davi falou:
- Não sei se sofro por excesso de companhia ou por falta completa de solidão. E, enquanto não descobrir, nenhuma decisão que tomar quanto ao tipo de vida que quero levar será verdadeira. Outra coisa. Até hoje sempre procurei entrar em contato com Deus, com o reino celestial, falando muito, orando, pedindo, agradecendo, ou seja, nunca fiquei calado. Mas agora acho que chegou a hora de me calar e ouvir. Devo criar um vazio em minha mente para dar espaço à comunicação divina. Agora eu devo ouvir e deixar Deus falar. Silenciar minha mente para ouvir os sons celestiais – falou Davi como se estivesse conversando consigo mesmo, embora dirigisse suas palavras ao psiquiatra.
E com uma agilidade que espantou o médico, Davi retornou à pergunta feita pelo psiquiatra quando iniciara a sessão.
- Você perguntou de que épocas passadas eu falava?. Pois eu vou lhe dizer, embora não saiba por onde começar – falou Davi.
- Comece com a primeira lembrança que lhe vier à mente – disse o psiquiatra.
- Então, começarei falando do meu filho - disse Davi.


EP.Gheramer

# Fragmento 09 - O ébrio




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3 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

"Há dentro de mim a insatisfação quanto a esta vida comum da maioria dos mortais – trabalhar, ganhar dinheiro, consumir, beber, rir sem estar realmente feliz ou alegre.. "

Sabe ando em uma fase assim, e sei que pertenço a algo bem maior que isso tudo. Pressinto ter uma missão ...

"Devo criar um vazio em minha mente para dar espaço à comunicação divina."

Parabéns! Obrigada !

Cristiane Vilarinho said...

Tem horas que as palavras já não são suficientes, o silêncio responde por si próprio. É preciso reciclar nossos conceitos e ideias, às vezes precisamos desse silêncio. Certo! e durante esse tempo pode também (além do silêncio) cuidar o melhor que puder de si,
isso faz um grande bem! Obrigada amigo EP, por essa beleza de texto! Parabéns :)

Gilberto de Almeida said...

Gostei muito do seu personagem Davi, EP! Creio que, em algum momento na vida (ou quem sabe sempre), todos temos um pouco de Davi dentro de nós! Queremos a solidão (relativa, entendo, porque não estamos sozinhos), queremos silenciar a mente e ouvir respostas... Acredito sinceramente que, quando cessa o planejamento e começa a prática dessa jornada, as respostas começam a surgir! Obrigado pelo texto sensível, meu amigo!

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