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O encontro de diferentes mundos


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A cena passa-se numa escola de ensino médio. No corredor há jovens com 17 anos de idade em média. Muitos conversam, outros ouvem músicas, alguns paqueram... Estão no intervalo.
Após algum tempo, uma senhora chega à escola e anda na direção dos jovens. Ela tem cabelos brancos, usa um longo vestido, traz uma enorme bolsa no ombro direito, calça sapatilhas e ouve música nos fones de ouvido de seu celular.
Os jovens ficam perplexos ao vê-la. A senhora finge não perceber nada e continua andando. Certamente teria ido resolver algo na diretoria do colégio.
Após a passagem da senhora, iniciam-se os comentários:
- Você viu? Caramba, ela tava escutando música no fone!
- Será que essa coroa sabe mesmo mexer na bagaça daquele celular?
- Coroa? Coroa nada mano. Ela deve ter uns 70 anos já! É uma velha mesmo!
O momento de alvoroço acaba e os jovens continuam fazendo o que antes faziam... Conversam, ouvem músicas, paqueram... O intervalo ainda não havia acabado.
Passam-se alguns minutos e a senhora está de volta. Certamente já tinha resolvido tudo. Por um momento ela para, vasculha sua enorme bolsa e de lá de dentro, retira seu tablet. Com uma cara de reprovação e uma voz meio trêmula ela indaga:
- Nossa! Será que Cristina me enviou outro e-mail? – Aquela garota não consegue mesmo fazer nada sem mim! Ai, ai... Netos!
A senhora aproxima-se de um banco e senta-se para responder ao suposto e-mail.
A plateia de alunos abismados para novamente. Alguns deles cochicham: - Será que ela sabe mexer no tablet também? – Essa é boa, só quero ver!
A senhora verifica o e-mail de sua neta Cristina que estava com dúvidas sobre um trabalho escolar e precisava da ajuda da avó.
A senhora responde detalhadamente ao e-mail, coloca seu tablet de volta na bolsa, dá uma olhadinha básica no espelho e levanta-se.
Um dos rapazes cria coragem e pergunta de maneira tosca, o que todos ali gostariam de saber:
- Ei coroa! A senhora sabe mesmo mexer nesses trecos que leva pra cima e pra baixo?
E a senhora sem hesitação, responde: - Claro meu bom jovem. A tecnologia está ao alcance de todos. Sou uma coroa, como você diz, com muito orgulho. Mas não vou negar, sou moderna e vivo antenada em tudo que acontece.
O rapaz ainda intrigado retruca:
- Não posso acreditar no que estou ouvindo!
E a senhora dando-lhe uns tapinhas no ombro, fala:
- Rapaz você ainda tem muito que aprender. Velhice não é sinônimo de limitações. Nós somos seres capazes de aprender e nos adaptar a várias coisas em qualquer fase de nossas vidas; mesmo quando se trata do mundo virtual.
- Agora me diga meu bom jovem, quem aqui tem a mentalidade mais velha e careta? Eu, que com tantos anos de vida consegui me adaptar a este mundo virtual e jovem, ou você que é jovem, mas que se limita a um pensamento tão ignorante e antigo?
O rapaz, vendo que não tinha mais o que falar, ficou apenas calado diante o discurso daquela senhora.
A senhora apenas vira as costas para o rapaz e continua andando.
O sinal toca, e todos retornam cabisbaixos, à sala de aula.

 Marcilane Santos, 2012.



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6 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Marcilane, adorei sua crônica.

Beijos.

Marcilane Santos said...

Obrigada, Claudiane!
Beijos

Isa Lisboa said...

Muito boa essa crónica, especialmente a pergunta final, que a tantas situações da vida se aplica! Parabéns, Marcilane!

Maristela Ormond said...

Muito boa! Somente um tapinha com luvas de pelica... "velhice não é sinônimo de limitações."

Marcilane Santos said...

Rsrsrs. Pois é, Maristela! Obrigada.

Marcilane Santos said...

Obrigada, Isa!

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