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Desafio ilustrar o poema preferido do poeta ( Carlos Moraes)



                                                   Ilustração: Claudiane Ferreira


Para Elsa, pouco antes de partir
por César Soriano Calvo

(Fragmentos) 

Porque eu vivi no ar durante séculos

Como um buraco de trapézio 
indo e vindo do que eu fui 
ao que eu não serei

Porque eu cruzo os dias como um punhal em face do qual foges, 
como lápis sem dono no papel em branco 
Porque eu não só escrevo estas linhas com minha vida 
mas com o suspiro de todos os fantasmas que me amaram

de todos os fantasmas que morreram e renasceram
O rosto voltado para uma desolação feroz, 
enquanto me acusam 
Porque com culpa escrevo eu, com o rumor lento de suas roupas 
desabando na obscuridade de Genebra, quando era ainda tempo,
e os relógios ignoraram o perigo, as suas agulhas 
gostam do abraço de um naufrágio feliz
na profundidade, 
minha boca procurando seu ventre no silêncio que 
precede aos incêndios.
e os travesseiros úmidos e os olhos que eu não verei 
nunca 
girando já nos espelhos e na noite infinita: 
ajuda-me a ficar quando eu me afasto
ajuda-me a ficar quando eu me afasto
Em todo o corpo que minhas mãos conduzem 
à chama, 
em todo o corpo que minhas mãos levam longe do banco, 
serás o contrário daquela vitória inútil, 
o único copo que não se despreza depois do vinho fúnebre.

Nada pode aprisionar o vento se não a liberdade 
Nada além da liberdade poderia cercar-nos agora 
e fazer-te entender que eu estava só 
porque o desabrigo não cabia naquele quarto sórdido 
que tu insististe em chamar país, doze milhão rostos 
colados às paredes de uma Ordem a repudiar de desleixo
Porque eu viajei através das colinas de França

e vi a bandeira verde, 
na delicadeza desbocada de junho 
vi um menino distante e eternamente adormecido 
debaixo de um rio de sangue 
E atravessei Pont Neuf com os olhos voltados 
à origem nublada do vislumbre… 
Os dias passam pelo teu rosto como uma cicatriz escura 
Ajuda-me a desfazer-me desses fantasmas que eu amo e que eu 
destruo
e os meus dedos te sentem  com a voracidade de um cego 
à noite
Tinha esquecido da noite 
e tinha esquecido algo tão simples e verdadeiro 
como beber um copo de água, levantar-me na sombra 
dos quartos emprestados, 
deixar ainda correr o tempo entre sonhos 
e então acordar com a sede na garganta
tinha esquecido que a vida também é feita 
de tudo estes ínfimos, esses heroicos acontecimentos 
que se completam
entre um corpo nu e outro corpo nu, 
entre a cama do rio e o copo da boca 
Tinha esquecido de simplesmente escrever 
como quem bebe ou ama, sem que o Olimpo me suba à 
cabeça 
Tinha esquecido que um poema se prepara com meticulosa
felicidade
como um presente que já ninguém espera 
e é modelado com urgência 
e violência, com irrepetível, 
com ternura desesperada, 
como se faz amor uma mulher que morrerá amanhã

Tinha esquecido que morrerás amanhã 
Ajuda-me a ser o caminhante que não pede nada 
Tinha esquecido que vou morrer amanhã 
que não pede nada se não um pouco de caminho… 
mas que eu não apercebo.. 
que não cheiro a tua mão 
tinha esquecido 
do animal recluso que me habita…
… ajuda-me a não esquecer-te
e a pedra pesada que me arrasta até ao fundo 
é uma pompa de sabão, as asas de um doce castigo 
Ajuda-me a ser o caminhante que não pede nada
além de um pouco de caminho,


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3 comments:

Dulce Morais said...

Carlos,
O seu poema preferido, apesar das aparências, não é triste... melancólico, talvez...
Um talento que descobri graças à sua escolha, e que talento, o deste autor!!!

Clau, a sua ilustração é linda! É magia que a sua sensibilidade nos oferece!

Abraços a ambos!

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Carlos, obrigada por ter me apresentado esse profundo poema e também ao autor.

Obrigada Dulce, por ter me ajudado com a tradução.

Vocês moram em meu coração, acabo aprendendo muito com cada um de vós.

Carlos Moraes said...

Clau, entre as sensibilidades há a sincronicidade, a sintonia... já havia apresentado o poema antes, mas ninguém se apresentou a ele como voce o fez...

Dulce, concordo com voce, não há tristeza no poema, o que me enleva é sua profundidade, o sentir e o expressar, que atinge o ápice neste verso:

"Tinha esquecido que um poema se prepara com meticulosa
felicidade
como um presente que já ninguém espera
e é modelado com urgência
e violência, com irrepetível,
com ternura desesperada,
como se faz amor uma mulher que morrerá amanhã"

Sinto-me dilacerado toda vez que crio esta imagem, é abissal, é inumano...

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