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QUIPROQUÓ

Imagem - Casa do Teatro




DAVI

Somente ontem me deixaram sair. A mão amputada ainda dói. Os médicos dizem que é dor “fantasma”; que sabem eles sobre fantasmas?

O OUTRO

Lembro-me bem de quando você voltou. Tive tempo de pensar sobre estes mais de trinta anos, desde o dia em que o vi novamente. Você não me reconheceu, é claro! Certamente a bebida e a vida vadia destruíram sua mente; além disso, eu estava bem barbeado, bem vestido, unhas feitas, óculos multifocais com aros de ouro; eu venci na vida! Você, você era um pobre desgraçado que teve o que mereceu.

DAVI

A mão dói muito. Tiro do saco a garrafa de cachaça e tomo mais um gole. A fronte lateja quando fico pensando muito, mas é preciso refazer tudo, traze-lo de volta, corporifica-lo para poder, de uma vez por todas, livrar-me de você.

O OUTRO

Naquela noite fazia muito calor e eu acordei de madrugada e fiquei rolando na cama, sem conseguir dormir novamente. Minha mulher ressonava. Levantei-me e fui acender um cigarro à janela. Foi então que eu o vi lá embaixo, do outro lado da rua, deitado sob a marquise no meio de papéis velhos; pareceu-me que havia mais alguém, deitado junto a você. Mas, até então, eu não sabia que era você. Terminei o cigarro e joguei o toco lá embaixo; vi quando ele bateu no chão de asfalto, bem sob a luz do poste. Como uma fera de tocaia, você atravessou a rua e apanhou o toco ainda aceso e com ele na boca, voltou para o seu covil. Era madrugada, havia silêncio e por estar desprevenido, o meu coração comoveu-se. Pensei em jogar-lhe o maço quase cheio, mas você já estava de volta ao lugar do outro lado da rua. Seria preciso gritar, chamando-o e isso poderia acordar os vizinhos. Acabei não fazendo nada. Fique só olhando e foi aí que eu lembrei-me de uma de suas frases favoritas: “Quando coração falar, não pense, faça.”. Foi no bojo desta frase que você voltou. Rapidamente fechei o maço de cigarros, fechei a janela, fechei os olhos e – graças a Deus! – dormi.

DAVI

Tomo outro gole da garrafa e levantando-a contra a luz da lua, vejo que ainda está pela metade. Satisfeito, lembrei que ainda tinha mais duas cheias dentro do saco. Eu havia me preparado muito bem para o momento que estava chegando. Recostei a cabeça no muro e olhei o céu. A luz da lua cheia impedia o brilho das estrelas mais próximas a ela. Como eu e você. Sua presença sempre anulara a minha.

O OUTRO

Quando acordei no dia seguinte, o mendigo não estava mais lá. Barbeei-me, tomei banho e depois do café com minha mulher e as crianças, vesti o paletó e estava pronto para ir trabalhar. Como todos os dias o Junior – era como eu chamava meu filho – levou minha pasta até a porta. Beijei minha mulher mais um dia, beijei minha filha que já estava no meu colo e colocando-a de volta no colo de minha mulher, peguei a pasta e ela me disse: “quando ele crescer vai ser igual a você”, referindo-se ao nosso filho. Apertei-o num abraço, mais do que o de costume, porque me pareceu ouvir você dizer: “Há muito tempo atrás eu pensava o mesmo em relação a você. Por quê? Porque você recebia tudo, eu não tinha nada; você era elogiado, eu era castigado; você falava, eu calava”.

O dia no escritório foi péssimo. Desliguei o terminal do computador e passei o resto do dia olhando para o mar, da janela do vigésimo andar. Era você que voltara, fiquei sabendo depois e, infelizmente, tarde demais.

No final da tarde, de volta para casa, dirigindo num trânsito que estava pior do que nos outros dias, parei num cruzamento e fechei o vidro da porta na cara de um pedinte e, pela primeira vez, tornei a abaixá-lo e logo uma mão sem rosto estendeu-se. Procurei nos bolsos algum dinheiro e fui encontrar no porta-luvas do carro. Sem olhar para quanto apanhara, estendi-o à mão imunda que já estava apoiada na janela, esperando, esperando... Eles estão sempre esperando! Já levantava novamente o vidro, mas ainda pude ouvir aquela voz tão minha conhecida dizer: “Deus lhe pague, doutor”. Procurei seu rosto, mas ele já havia desaparecido no meio dos carros. O sinal abriu e as buzinas obrigaram-me a arrancar com o carro. Parei dois quarteirões à frente, voltei a pé, procurei o dono daquela voz, mas não achei. Quando cheguei em casa, já atrasado, minha mulher já me esperava impaciente para fazermos compras no mercado para o fim de semana em nossa casa  da praia. Foi então que me dei conta de que havia dado todo o dinheiro para o mendigo. Tive certeza! Era você, maldito piedoso! Era você que, não satisfeito em perturbar meu sono durante a noite passada, fora para o centro da cidade, para esperar que eu parasse naquele cruzamento.

DAVI

Ah! Desgraçado! Vai pagar caro pelo que fez com a minha vida! Hoje eu sei que era você; tive bastante tempo no hospital para refazer todo o caminho da degradação moral e social em que caí e do qual nunca mais pude me recuperar. Perdi tudo o que consegui sozinho: posição social, casamento, filhos... Tudo! Mas isso já não tem mais importância! Agora, tudo o que importa é o momento que está para chegar.
Estou sentado bem defronte da casa em que vivemos a nossa infância. Ainda é noite, mas logo vai clarear. Estou sentado no que antes nós chamaríamos de o outro lado da rua, mas que, hoje, depois que a fábrica se mudou, a estação se mudou, as pessoas deixaram suas casas e foram morar em outras que a Companhia mandou construir, próximo à nova fábrica, hoje já não é mais rua; é apenas um caminho no meio do matagal; não mais casas, só ruínas e não há mais os mesmos vizinhos. Por aqui, agora, só passam e dormem os desgraçados da sorte, a parte mais degradante da espécie humana, largada nesta terra do Diabo. São os rejeitados por Deus, rejeitados pelo seu Deus! Malditos sejam você e o seu deus! Sinto muita dor, mas não vou dormir, não sinto sono com a aproximação do momento. Por entre estes malditos que por aqui passam e se escondem, vou encontrar você. Tenho Certeza. Onde mais poderia estar uma mente tão estupidamente inocente como a sua, senão no lugar onde viveu sua infância?! Antes de encontra-lo, é preciso de tudo e de como você era; seu corpo sempre ágil, sua risada aberta para o mundo, como se o mundo tivesse sido criado só para você ser feliz; seu descaso e indiferença pela minha presença, embora eu sempre estivesse ao seu lado... Preciso ressuscitá-lo bem nitidamente dentro de mim; fazê-lo ocupar, como sempre o fez descaradamente, todo o meu ser. É preciso aumentar todo o meu ódio por você. Só com o derramamento de sangue encontrarei descanso, ficarei livre deste tormento que é sabê-lo vivo... e vivo em mim... Ah! Maldito! Sofri por sua causa o repúdio de todos aqueles que antes me amavam. Não, você não sabe, mas não há nada pior neste mundo do que ser um pária, um rejeitado, um nada para as pessoas. Não, você nunca soube o que é isso, pois viveu somente a parte boa da vida.
O céu clareou. Vejo a nossa casa. Sei que você está lá dentro. É agora.
EP. Gheramer


Fragmento 17

Continua...


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2 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

E.P, Davi tem o dom de me tirar do lugar comum.

"É preciso aumentar todo o meu ódio por você. Só com o derramamento de sangue encontrarei descanso, ficarei livre deste tormento que é sabê-lo vivo... e vivo em mim... "

Parabéns. Até breve. Abraços

E.P. GHERAMER said...

Grato pelo Comentário, Claudiane.
Um grande abraço!

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