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O PROJETO - Capítulo 1


Imagem da Web (editada)


Muito tempo se passara desde aquele dia em que Alves¹ descia pela estrada, enquanto o sol se punha por trás da grande rocha. Fora neste tempo que conhecera Pafúncio; estava deitado à beira da estrada; podia-se notar pelo aspecto de seu pelo grisalho e da boca sem dentes, que já estava velho e a julgar pelo sua magreza, há muito não comia ou, se comia, comia pouco. À sua passagem, nem a cabeça ele levantou e nem o rabo balançou. Estava velho, não queria mais brincar; só precisava comer. Alves passou por ele... Passou, mas voltou. Não tinha nada para lhe dar, além da água que retirou de seu cantil e deitou sobre a mão em concha junto ao focinho murcho, que foi bebida com sofreguidão. Alves passou a mão sobre sua cabeça, alisando os pelos, agora cinza. Ainda olhou à sua volta à procura do dono, mas não viu ninguém. Depois, levantou-se e reiniciou a descida para a praia. Só dera alguns passos quando percebeu que o cão andava a seu lado.
Não sendo exigente, pois suas necessidades eram somente as básicas, não demorou a encontrar uma casa que pode comprar com o dinheiro da venda do apartamento na cidade e ainda lhe sobrara algum. Ficara satisfeito. Estava onde queria e tinha o precisava.
Fora quando de sua ida ao cartório na cidade, para passar a escritura para o seu nome, que aproveitou para visitar seu amigo, o Velho, que deixara no hospital e ficara sabendo do seu falecimento. Estivera entregue a essas lembranças, enquanto estavam sentados os dois na areia, a olhar o mar naquela manhã após o café.
A essência de seus pensamentos quanto à realidade que percebia no mundo ao seu redor, em nada havia mudado. Antes, pelo contrário, graças à lucidez que alcançara, só viera transformar o que antes eram somente dúvidas, naquilo que agora eram certezas firmes.
Como se as cortinas de um grande palco fossem levantadas repentinamente, Alves se lembrou de quando o segundo milênio estava tão perto e os técnicos tiveram que reprogramar milhões de computadores. Se não fossem reparados a tempo, eles iriam simplesmente parar de funcionar quando 1999 virar 2000. Muitos podiam dizer: e daí? Por que todo este estardalhaço em torno do fim iminente do milênio? Afinal não passava de um marco arbitrário.
E quando olhava para o passado mais distante, notáveis eram as mudanças que os homens esperavam da vida. Quando o primeiro milênio chegava ao fim, alguns europeus previram o apocalipse. Peregrinos fizeram procissões de penitência, guerreiros bradavam juras de paz a multidões em êxtase. Mas, quando ano 1001 chegou, milhões de pessoas não ficaram sequer sabendo, ou pouco se importaram. Poucos conseguiam ler seus próprios nomes, quanto mais um calendário. Comer era a preocupação mais premente. Apesar da melhoria do clima e de inovações na agricultura, as colheitas mal davam para o consumo. O sistema feudal, que forçava os camponeses a dividir a produção com seus senhores, tornava ainda mais difícil evitar a desnutrição.
Em comparação com os camponeses, presos por lei à terra de que não podiam ser donos, os moradores das cidades – comerciantes e artesãos, saltimbancos e ladrões – levavam uma vida de liberdade vertiginosa. Altas muralhas os protegiam contra ataques de bárbaros e de exércitos mercenários.
A Humanidade era formada por uma mistura de pequenos reinos recém-saídos da caótica Era das Trevas que se instalou no século IV. A Europa era um lugar bem atrasado em 1001. Perdera-se boa parte da herança greco-romana de refinamento cultural e conhecimento tecnológico. A erudição confinava-se em alguns mosteiros esparsos. Embora os nobres e uma burguesia nascente começassem a ler, os livros eram escassos.
Tais acontecimentos eram vistos por uma fenda no tempo, claramente como num filme, diante dos olhos de Alves, enquanto estava ali sentado com Pafúncio.
Ele percebia o maravilhoso mundo que fora criado, mas os homens daquela geração eram ruins, e a maldade foi a causa da destruição dessa grandiosa obra divina. De nada valeu a inteligência herdada de seus antepassados; de nada ajudaram as descobertas no campo da técnica e indústria, agricultura, economia e música. Ao contrário, dia-a-dia aumentava a sua decadência moral.
Com o progresso das descobertas e a civilização, agravaram-se seu orgulho e sua procura dos prazeres dos sentidos, sobretudo sexuais e a eles se entregavam; e mais eles se aperfeiçoaram com instrumentos mortíferos e destrutivos.
Quem conhecesse a história da vida de Alves, diria que ele era a prova viva de que o homem tem forças morais suficientes para conservar sua integridade ética em todas as circunstâncias da vida, e não precisa sucumbir às influências malévolas e prejudiciais do ambiente em que vive.
Liberdade... Há muito os homens viviam de palavras vazias nos discursos abstratos...
Aos olhos de Alves, aí é que estava o conflito entre o homem e a realidade.


EP. Gheramer


(1) Alves é o nome do personagem principal do livro “Identidade”, do mesmo autor, publicado em 20 de agosto de 2015.









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1 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

E.P, já estava com saudades. Obrigada por dar "vida" a esse personagem especial.

"A essência de seus pensamentos quanto à realidade que percebia no mundo ao seu redor, em nada havia mudado. Antes, pelo contrário, graças à lucidez que alcançara, só viera transformar o que antes eram somente dúvidas, naquilo que agora eram certezas firmes."

Abraço.

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