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Natal suspenso

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Natal suspenso

Não havia nem roupa bonita nem refeição especial. O Natal, há alguns anos, celebrava-se na solidão. Claudia recordava cada instante daquele ultimo Natal preparado segundo a tradição.

Cinco anos antes, enquanto se dedicava à preparação do jantar que iria ser saboreado em família e aguardava a chegada do seu marido, cantava ao provar o molho que cozinhava. Pensava no quanto era feliz por estar na sua casa, recebendo os seus pais e sogros. Todos ansiavam pela chegada do seu marido, filho e genro para iniciar a refeição.

Quando o som do telefone a despertou dos seus preparativos, nada a alarmou. Nada lhe deu qualquer indicio sobre o correspondente nem sobre o assunto da chamada. Alguns instantes depois, a sua vida tinha sido suspensa à voz que lhe anunciara a notícia. Já não haveria Natal. Nunca mais haveria um sorriso no seu rosto ao acolher o André. Tinham terminado os abraços e o carinho que a vida lhes tinha permitido partilhar durante seis anos. O André não chegaria a casa. A vida terminava ali.

Desde então, apesar da insistência dos seus pais e sogros, dos amigos, da restante família, Claudia vivia o Natal fechada na memória do seu amor. 

Quanto aos presentes, não comprava nenhum, mas havia sempre quem lhe enviasse uma lembrança, um postal, uma carta, entre outras provas de afeto. No entanto, nenhum se juntava àquele que estava ali há cinco anos.

Ao pé da Árvore de Natal, apenas um presente sobrava. Um pequeno cartão identificava o destinatário: “Para quem tem mais valor".

O cartão apresentava a letra de André, escrita cinco anos antes. A frase tinha sido objeto de sorrisos por parte dos presentes naquela sala de jantar, antes da notícia que tudo mudara.

E Claudia, este ano como os outros desde então, continua a observar o embrulho cuidadosamente preparado para ela e hesita. Se o abrir, sabe que jamais poderá sentir a doce expetativa que representa para ela receber um presente do André. Mas, se não o abrir, jamais poderá saber o que ele escolheu para ela nos últimos dias da sua vida.

Mais um ano passará e Claudia continuará a observar o presente. O futuro sendo incerto, nada nos diz se e quando o abrirá. Talvez seja necessário que ela abra de novo o seu coração ao mundo, antes de poder desembrulhar o laço que o enfeita.

Dulce Morais

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5 comments:

Gilberto de Almeida said...

É uma história dramática, Dulce! Mas a vida está conversando com Cláudia. A vida...

Carlos NNeves said...

Dramático, mas pra quem o Natal é muito mais que só festejos, alí é renovada a esperança de vida nova, nesta vida ou na outra.

Abraços, Dulce!

Anonymous said...

Acho que a Cláudia precisa abrir logo seu presente, pois só assim ficará liberta... Além de presente o André viverá sempre dentro de si, mas é chegado o momento dela através desse rito liberar essa energia prensada.

Adorei seu conto

Beijos

Claudiane Ferreira

Pintora Manuela Frade said...

Muito triste a tua historia ... um conto que espelha o teu estado de espírito ... mas sabes que o NATAL é uma "A JANELA DA ESPERANÇA" ... a vida não acaba por aqui e o amor habita em nosso coração e enquanto conseguirmos lembrar-mo-nos dos lindos momentos que vivemos com aqueles que já partiram eles permanecerão vivos através de nós... acredita... eu sei o que te digo... enche o peito de ar e ao expira devagar e diz que o amor te habita e nele beberás a tua felicidade! adorei o conto! bj

Dulce Morais said...

Amigos,
As vossas reflexões e comentários são um presente para o coração.
@Gilberto: A vida fala com ela, sim. Basta escutar...
@Carlos: A esperança não morreu, ao contrário de que pode parecer. Entre as linhas ela está escrita...
@Clau: Talvez ela o abra, amiga. Mas ele já vive dentro dela...
@ Manuela: É triste, é verdade. Mas a vida não é só alegria. O estado de espírito pertence ao conto, e só a ele. Os olhos já se abriram. O coração já está a caminho...
A todos vós, um abraço imenso com votos de muita felicidade!

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