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O PROJETO - Capítulo 9



- Já que tocou neste assunto, posso lhe fazer uma pergunta indiscreta? – Perguntou Alves, dirigindo-se a João.
- Perguntar pode, não sei se saberei responder – disse João.
- Como missionários cristãos, vocês já viajaram por quase todo o mundo, como já disseram. O que os levou a deixarem sua religião e vir para um lugar isolado como este, em que não há pessoas para ouvirem suas pregações? – Disse Alves.
- Não é indiscreta a sua pergunta e mesmo que fosse, eu e Maria, consideramos você e Quiriat como amigos e, como tal, merecedores de toda a nossa confiança e estima. Mas, a resposta não é tão simples e, para respondê-la, terei que começar falando de religião e de nossa discordância quanto aos dogmas e doutrinas da denominação à qual pertencíamos. E isso começou muito antes de nosso afastamento definitivo da igreja. Foi um processo crescente e não sei se estariam dispostos a ouvir – disse João, ao mesmo tempo em que olhava para Maria.
- Da minha parte, devo dizer que estou curioso – disse Alves, ao mesmo tempo em que Quiriat balançava a cabeça num sinal de concordância.
- Pois bem. Vocês devem conhecer a história da criação do homem, conforme é relatada na Bíblia e em muitos outros textos sagrados, existente nas mais diferentes culturas humanas. Pois, foi aí que tudo começou em nossas mentes. Mas, não pensem que isto nos tornou menos crentes. Não, pelo contrário, deixamos de servir ao homem para poder servir a Cristo. Gostaria que isso ficasse bem claro, antes de prosseguir – disse João, como esperando o sinal verde para continuar.
- Inteiramente à parte do que o autor do livro de Gênesis pode ter querido dizer, nós começamos a examinar a questão por outro ângulo. Em nossa busca, encontramos muitos estudiosos sérios que diziam haver evidências científicas válidas em prol da vasta antiguidade da Criação, não somente do homem, mas do Universo... – dizia João, quando foi interrompido por Alves.
- Interessante ouvir você falar isso. Algum tempo atrás, durante uma palestra de um astrônomo, ouvi que a idade dos meteoritos, medido pelo método do radiocarbono, sugere que o sistema solar tem mais de quatro bilhões de anos - disse Alves.
- Sim, acredito que quanto mais antiga reconhecemos ser a Criação e graças à ciência, o homem vai descobrindo mais fatos que vão deixando de lado as teorias que não passam de fábulas e para nada aproveitam, ao mesmo tempo em que confirma o que já se sabia – concordou João.
- Ocorreu-me agora, que isto nos leva ao que é relatado sobre o Dilúvio. A ciência nos diz que devido ao deslizamento da crosta terrestre, ocorrem grandes inundações e explosões vulcânicas de incalculável potência e penso que tal descoberta não invalida as palavras dos textos considerados sagrados pelas diferentes culturas...  – disse Alves.
- Se aconteceu assim, cada alteração dessas foi acompanhada pela quase destruição de todos os seres vivos e se calcularmos as datas gerais, de acordo com vários eruditos, da última e da penúltima dessas mudanças, chegamos perto da cronologia bíblica de Adão e Eva – disse João.
- Para que eu possa melhor acompanhar... Vocês estão falando da mudança de posição dos polos terrestres, mas não estão falando que os polos da terra se inverteram, isto é, o Norte e o Sul não trocaram de lugar. É isso? – Disse Quiriat.
- Claro que não. Na verdade, trata-se da mudança dos polos magnéticos Norte/Sul e parece que outra está em curso e que isso seja o verdadeiro motivo por trás da aceleração das mudanças climáticas em todo o planeta. E essa circunstância levanta a interessante possibilidade de que as narrativas bíblicas da criação desses dois seres representam as duas últimas modificações dos polos, pelo que seriam “novos começos” e não começos absolutos – disse Alves.
- Nesse caso, Adão seria uma espécie de Noé, representando o reinício da raça - disse Quiriat, ainda querendo certificar-se de que eles sabiam sobre o que estavam falando.
- Começamos a pensar em tudo isso, e, naturalmente, isso não satisfazia uma estrita e literal interpretação do registro de Gênesis. No começo ficamos um pouco preocupados com relação à nossa fé nas palavras das Escrituras. Mas, acabamos concluindo que uma interpretação um tanto mais liberal, talvez nos aproximasse mais da verdade dos fatos bíblicos, mesmo que outras pessoas nos julgassem hereges. Aliás, como de fato aconteceu... – disse João.
- Importantes hereges sempre conseguiram fazer avançar a verdade – disse Alves.
- Por outro lado, ser um herege também não é garantia da posse de verdades mais profundas – disse João.
- Numa coisa, entretanto, parece que estamos de acordo – a verdade deve ser buscada – disse Quiriat.
- Penso que não podemos solucionar todos os nossos problemas de conhecimento, simplesmente voltando-nos para algum “texto de prova”, retirados de livros considerados sagrados, para extrair dele a interpretação que satisfaria apenas nossas exigências de conforto mental – disse Alves.
- Sim, eu concordo com isso, pois, apesar da verdade algumas vezes vir à tona subitamente, na forma de um pacote feito, com maior frequência assemelha-se a uma mina, que precisamos cavar para descobrir – Disse Maria, que estivera em silêncio.
O relato que se seguiu, dificilmente poderia ter sido imaginado ouvir. Pelo menos, não naquele dia e naquela hora.  João levantou-se da cadeira onde estivera sentado e demonstrando por sua atitude serena, porém firme, que queria a atenção de todos para o que iria falar.
- O nosso querido amigo Alves, nos perguntou por que deixamos a igreja e nos mudamos para este lugar afastado das multidões. Pois, vou responder. Não deixamos a igreja somente, deixamos aquilo que se dizia representar o Cristianismo, mas que não passava de um ajuntamento de vaidades, adultérios, prostituição, idolatria, feitiçaria, inimizades, ciúmes, raiva, ambição Egoísta, desunião, invejas e Orgias. Foi nisto que os homens transformaram os ensinamentos de Cristo. Representam o Cristianismo? Sim, representam, mas não os verdadeiros cristãos. Foi um processo lento este amadurecimento espiritual. E como uma coisa leva à outra, começamos a notar que quando falávamos do Evangelho para as grandes multidões que lotavam estádios de futebol e como sempre fazíamos ao final de cada pregação, pedíamos que quem quisesse aceitar a Cristo como seu Salvador levantasse sua mão.  E muitos braços se levantavam. Centenas, milhares... Para nós, isto é, para todos os religiosos que compunham nossa equipe, aquelas milhares de mãos levantadas significava uma vitória do Reino de Deus. Em seguida, essas pessoas eram convidadas a deixarem seus lugares e se aproximarem do palco onde nós estávamos para serem instruídos nas palavras do Evangelho para que, posteriormente, pudessem ser batizados e então pertencer ao seleto grupo dos salvos, que compunha nossa igreja, a nossa denominação religiosa, que se autodenominava cristã. Pois bem. O fato que presenciamos e que aconteceu logo após uma dessas reuniões e que foi fator preponderante em nossa decisão, foi que pudemos perceber que, definitivamente, levantar a mão não significava seguir a Cristo, apenas tornava aqueles que o faziam, em membros de uma igreja. Mas suas vidas não eram transformadas somente porque levantaram a mão e foram à frente de todos. Naquele momento, compreendemos que ser “salvo” ou liberto era muito mais do que aquilo. A Libertação é muito mais do que o perdão dos pecados e a mudança de endereço para os céus e muito menos para uma igreja.
Neste momento, vendo a emoção embargar a voz de seu companheiro, Maria levantou e foi colocar-se ao seu lado, como que a confortá-lo. Ele então ele continuou a falar.
- Como eu dizia, logo após uma dessas pregações realizadas no maior estádio de futebol da Capital, embarcamos  no ônibus que nos levaria de volta ao hotel, onde nos reuniríamos com as autoridades estaduais para um farto jantar.  Enquanto o ônibus transitava pelas ruas destruídas pela guerra civil que assolava aquele país, víamos velhos e crianças famintas e abandonadas perambulando pelas ruas, sem ter onde morar. Era o horror dos horrores. E, diante de tal quadro, meus irmãos missionários conversavam entre si sobre tais infelizes: vejam esses animais embriagados, imbecilizados pelo álcool; eles são uns bárbaros que não souberam usar a liberdade que lhes foi dada pelos governantes, dizia um. Enquanto outro explicava a razão: isto é porque o Governo foi formado por líderes eleitos saídos de seu próprio meio, foram escolhidos por eles mesmos. Eles não conseguem dirigir um país sem confundir com os seus interesses pessoais – dizia outro. Vejam meus irmãos, como nós somos abençoados e espirituais, santos e possuidores de uma vida que é eterna; não somos como estes que são apenas sangue e carne – disse o nosso líder missionário.

João fez uma pausa como para recuperar o fôlego e continuou.

- Após o jantar, ficamos todos ali reunidos no salão, sentados em confortáveis poltronas. Grupos isolados conversavam e as palavras saídas de suas bocas eram fúteis e para nada aproveitavam; falatórios que não rendiam a Deus o culto que lhe é devido e que somente tinham a aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Na verdade, demonstravam que nunca chegaram a conhecer Aquele que disse para “amar ao próximo” e que “Deus é amor”. Eles apenas confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com suas palavras e obras. Foi quando, impulsionado por uma força sobre-humana e tomado pela indignação, coloquei-me sobre uma mesa no meio do salão e falei em  alta voz para que todos me ouvissem e chamei-os de hipócritas e vendilhões da palavra. Subitamente surpreendidos, eles ouviam paralisados e, quanto mais eu falava, mais eu me afastava deles, duas vezes mais do que eles de mim. E, também por outra força sobre-humana, a cólera e a ira foram tomando conta de mim. Foi quando senti o toque suave da mão de Maria sobre o meu ombro, ao mesmo tempo em que mansamente falou: “Não entres em questões loucas, contendas e em debates, porque são inúteis e vãs”. Ela citava uma passagem bíblica. Foi o bastante.  Súbita e instantaneamente, uma profunda paz desceu sobre mim e nós dois, abraçados, abrindo caminho por entre aquelas pessoas escandalizadas e perplexas, afastamo-nos daquele lugar. O que aconteceu depois foi de uma baixeza tamanha. Nós fomos isolados; nem sequer permitiram que continuássemos no quarto do hotel, que fora reservado e pago pelos líderes do partido de oposição ao atual, que estava no poder. Por outro lado, percebemos da maneira mais dolorosa, porém benéfica, o papel que a religião desempenhava junto ao povo e, por isso, necessária aos que almejam o poder, inclusive o religioso. O que digo, digo-o com palavras. Mas, elas não expressam a imensa dor e o desamparo que desabaram sobre nós. E não demorou muito para aqueles que antes nos convidaram, agora exigiam a nossa saída do país. Aquele povo estava entregue a si próprio, ou melhor, estava entregue aos ambiciosos que saíram do seu próprio meio e arruinava-se na discórdia dos partidos, excitados pela sede de poder e pelas desordens resultantes dessa discórdia.
- Eu me lembro desta época – disse Alves. As guerras irrompiam por todo o mundo. A mídia se encarregava de exercer seu papel de informar à população dos acontecimentos, embora de maneira tendenciosa, dando nomes aos responsáveis por tais atentados. Foi quando passamos a ter consciência do que acontecia ao nosso redor, pois, até então, uma muralha nos separava dos acontecimentos mundiais.
- Tenho algo a falar e penso que será útil para o entendimento deste assunto, mas, dado o avançado da hora, sugiro que deixemos para outro dia... Por enquanto, digo apenas que aconteceu antes dos tempos dos séculos – disse Quiriat, enigmaticamente.

Continua...

EP. Gheramer


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