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Desafio Janeiro 2016 - Branco - Por Isa Lisboa

Foto: www.pixabay.com

Para o mês de Janeiro, o Tubo de Ensaio pediu-nos que nos inspirássemos na palavra “Branco”. Deixo-vos o que a minha caneta escreveu:

-“Foi-te dada uma parede em branco.” – Começou a Voz, em tom inquietantemente calmo. – “Quando, mais tarde, as tuas mãos tinham força e os teus olhos podiam ver, foram-te dadas tintas e pincéis. No espírito de criança curiosa, foste experimentando as cores uma a uma, entusiasmada com o resultado de algumas, perguntando-te quanto ao contraste entre outras. Não te preocupavas se a parede estava a ficar bela, se estava parecida com as paredes do lado. Era a tua parede. Era a parede em que começavas a ver-te reflectida.”
Estas memórias eram assustadoras e dolorosas, os olhos pareciam querer verter lágrimas, respondendo ao coração que estava apertado com as palavras duras ditas por aquela voz meiga. Eram memórias difusas, que já a tinham assaltado nos momentos de silêncio. Aqueles momentos de que fugia, imersa no ir, no vir, no fazer, no acenar da cabeça enquanto sorria.
Dizia a si própria que eram memórias inventadas, ditas pela sua imaginação.
Como podia ser, como podia aquela parede ter sido branca um dia? E como podia ter recebido tanta cor assim, sem a rejeitar, cuspi-la para fora de si? Como poderia ser possível que tenha sido a sua mão, a sua própria mão a segurar os pincéis que deram tanta cor ao que agora era só cinza, um único tom de cinza?
Não, não podia ser. A Voz enganou-se. Ou estava a tentar enganá-la, a Voz. Porquê não sabia, mas só podia ser isso. Ou talvez ainda estivesse apenas a conhecer a insanidade… Diziam que ela se aproximava inesperadamente, que a confundiríamos facilmente com realidade…
Colocou a almofada por cima da cabeça, não queria ouvir mais nada. “Não, não te quero ouvir!”, gritou mentalmente.
A Voz calou-se, tão repentinamente como havia surgido no ar.
A medo, retirou a almofada da cabeça, confirmou que só silêncio havia sobrado.
Agora tudo lhe parecia ainda mais irreal, insano…
Olhou à volta e confirmou que nada havia e nada se ouvia. Fora tudo fruto da sua imaginação, era a justificação plausível. Era a única.
Dormir. O melhor era dormir.
Aconchegou-se nos lençóis e fechou os olhos. Ao fim de um minuto, o corpo lembrou-a de que estava cansado. O corpo queria dormir, mas a mente não.
Ao fim de algumas horas, finalmente, o corpo ganhou a luta.
Quando acordou, abriu os olhos, olhou para o tecto e a primeira palavra que o despertar lhe sussurrou foi…

“… Cinzento …”

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5 comments:

Gilberto de Almeida said...

O limiar entre o real e o imaginário... Creio que, muito mais do que nos damos conta, navegamos insistentemente nessa zona cinzenta da existência. Um texto que nos incita à reflexão. Obrigado por partilhar, Isa.

Isa Lisboa said...

Insistentemente é uma boa palavra para... E porque insistiremos tanto...?
Obrigada pela leitura, Gilberto! :)

Dulce Morais said...

Ah, quando a luz nos encandeia os olhos fechados...
(sim, sim, faz sentido!) :)
Adorei o sentido profundo que nos dizes, Isa!
Beijinhos grandes.

Anonymous said...

Isa, um texto que nos leva para nosso próprio âmago.

"A energia flui para onde sua atenção vai."

Obrigada por esse presente.
Beijos

Claudiane Ferreira

Isa Lisboa said...

Grata a vocês duas, Dulce e Clau! Abraço em ambas!

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