Prólogo – Refúgio
Um
soluço, quase inaudível, cortou o silêncio do quarto escuro. Era o soluço de
uma jovem de vinte e tantos anos, quase que desnuda, com uma fina lingerie
preta, sentada no chão frio, no único canto em que a luz da lua conseguia
alcançar através da janela.
Suas lagrimas
eram evidenciadas pelo caminho que a tinta do lápis de olho fez em seu
rosto. Sua boca esbranquiçada e seca era
constantemente mordida. Bastava olhar para porta que ficava a sua frente. Um
sobretudo ensanguentando jogado no chão impedia que a luz que saia pela fresta
da porta chegasse com amplitude aos olhos chorosos da garota.
Ela tentou afastar da sua cabeça as cenas que
presenciou, tentou afastar a dor que sentia. Mas uma dor mais forte que
qualquer pele dilacerada preencheu seu peito mais uma vez, sufocando-a, e
somente um sorriso, preso na memória, foi capaz fazer o ar voltar aos seus
pulmões.
Engatinhou até
o sobretudo e pegou embaixo dele um livro roxo, estava manchado pelo sangue em
algumas paginas e suas mãos tremulas quase não tinham forças para levanta-lo,
então o arrastou até onde estava.
Ficou
novamente sentada no chão frio, com as costas na parede branca, ainda mais fria.
Abriu o livro, e suas lagrimas caíram em uma das paginas. Seu soluço pareceu
mais alto nesse momento. E aumentou mais ainda ao ler as primeiras frases:“21 de maio. Querido diário, Jéssica está feliz...”
Desistiu de
ler, mas se arrependeu e tentou voltar a ler.
TUNC.
Um enorme
murro na porta retirou qualquer possibilidade de ler naquele momento. Evelyn se
levantou como se todas as forças voltassem para seu corpo, apertou contra seu
peito o diário que possuía.
A respiração
estava ofegante.
TUNC!
A porta tomou
outro murro.
Os olhos de
Evelyn procuraram um esconderijo pelo quarto escuro.
Qualquer um.
TUNC!!
E a maçaneta
da porta envergou.
E finalmente,
seus olhos encontraram seu refúgio.
TUNC!
E a porta se
abriu em um sonoro solavanco.
Cap 1 – Clichê, onde tudo começa.
A luz azul do
giroscópio bateu nas paredes e muros pichados das casas na cidade, iluminando
mais que a pouca iluminação âmbar dos ínfimos postes que vez ou outra
surgiam entre os becos, ruas e ruelas. O
bairro era antigo, com ruas de paralelepípedo desgastado pela ação do tempo. As
casas, em geral, tinham mais sorte, apesar de sua arquitetura colonial. Algumas
vezes dava pra se ver um prédio, ainda que antigo, com cores mais vivas do que
o cinza mórbido que as cidades insistiam em apresentar.
A
viatura policial parou em frente a um prédio de cor desbotada e amarronzada,
tinha três andares, com vidros de pouco mais que meio metro, distribuídos em intervalos
um pouco maiores. Na frente das grades
verdes que circulavam o prédio, uma arvore isolada estendia-se até o primeiro
andar do prédio. Era um alfineiro, com
flores brancas que balançavam com o vento, em uma dança de resistência
descompassada.
Carlos
desceu da viatura, olhou o relógio de pulso, marcava 4:30am. O céu já começava
a apresentar um tom mais claro do que o azul negro da noite.
Apesar do horário, ainda haviam pessoas na rua,
e as pessoas são curiosas por natureza,
bastava que algo saísse da normalidade para que um aglomerado de pessoas
aparecesse para entender o que estava acontecendo. E uma cena de homicídio,
ainda que surgisse de tempos em tempos, nos mais diversos lugares, nunca seria
algo normal.
Pelo
menos, não para todos.
Carlos
ajeitou a manga do blazer de camurça, enquanto Bruno, seu irmão de profissão,
aproximou-se acendendo um Lucky Striker. Sempre um Lucky Striker.
Bruno
já tinha quase meio século de vida, e boa parte dele foi vivendo em clichês
policiais de suspense e horror. De tanto presenciar as cenas mais escrotas e
hediondas possíveis, tornou-se apático. Essa apatia, inclusive era explicita na
forma de se portar e vestir. Nesse dia em especial, uma golo polo preta gasta
que mal escondia sua pistola Glock G22 presa a cintura, e uma jeans azul
surrada. Um conjunto harmônico com um cabelo branco desgrenhado e uma barba por
fazer.
Carlos,
por outro lado, tinha seus trinta e poucos anos, e ainda dedicava boa parte de
sua atenção a roupas elegantes e finas. Uma camisa social preta e um blazer
marrom de camurça que escondia um revolver prata, no coldre axilar. Os cabelos negros cortados a maquina, bem
curtos e um olhar serrado. Talvez, alem da profissão, o que mais se assemelhava a Bruno era a barba por fazer.
Ambos
ficaram lado a lado, não trocaram uma única palavra. Eles já viram um par de
cenas igual a essa. Eles viviam esses clichês policiais cotidianamente. E essa
noite seria mais uma dentre tantas outras noites normais.
Uma
rápida olhada no prédio.
E
caminharam para o prédio. Para mais uma cena anormalmente normal.